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26.6.02

TREM ERRADO Distraída, tomei o trem errado. E mais longe fiquei do meu destino. Quase cedi à aventura de seguir, à-toa até a última parada. As pernas, contudo, me fizeram, feito um autômato, saltar na primeira estação ponto de partida para a nova e antiga indagação.

24.6.02

Uma cronica Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue. Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo. Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego. Preocupação é uma cola que não deixa o que ainda não aconteceu sair de seu pensamento. Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa. Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára. Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido. Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora Ansiedade é quando sempre faltam muitos minutos para o que quer que seja. Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento. Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado. Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes. Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração. Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma. Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros. Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia. Lucidez é um acesso de loucura ao contrário. Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato. Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele. Paixão é quando apesar da palavra "perigo" o desejo chega e entra. AMOR é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. Não. Amor é um exagero... também não. Um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego? Talvez porque não tenha sentido, talvez porque não tem explicação, esse negócio de amor não sei explicar... cronica de Mario Prata

21.6.02

Leia! Consumindo o futuro A aceleração tecnológica e econômica é tal que até mesmo o atual é ultrapassado: tudo o que é... já era; a atenção concentra-se não no que é, mas no vir-a-ser por Laymert Garcia dos Santos (reproduzido da Folha de São Pualo) Há poucos dias, o caderno Mais! publicou, entre as "Cartas para as Futuras Gerações" que a Unesco encomendou a personalidades mundiais, um texto de Nadine Gordimer intitulado "A Face Humana da Globalização". Nele, a questão do consumo encontra-se no cerne das preocupações da escritora sul-africana e de sua argumentação. É que, em seu entender, a globalização só seria efetivamente global se o desequilíbrio do consumo fosse corrigido, favorecendo o desenvolvimento sustentável para todos os habitantes do planeta. Escreve Gordimer: "O consumo descontrolado no mundo desenvolvido erodiu os recursos renováveis, a exemplo dos combustíveis fósseis, florestas e áreas de pesca, poluiu o ambiente local e global e se curvou à promoção da necessidade de exibir conspicuamente o que se tem, em lugar de atender às necessidades legítimas da vida. Enquanto aqueles de nós que fizeram parte dessas imensas gerações de consumidores precisam consumir menos, para mais de 1 bilhão de pessoas consumir mais é uma questão de vida ou morte e um direito básico -o direito de libertar-se da carência". As migalhas Assim expressa a escritora o desequilíbrio básico que quase ninguém mais desconhece: o fato de 20% da população mundial consumir 80% dos recursos produzidos no planeta, enquanto o restante, composto por aqueles que o subcomandante Marcos qualifica de "descartáveis", sobrevive com as migalhas. O interesse de seu argumento, porém, consiste em vincular o consumo descontrolado à carência, unindo o destino de ricos e pobres em torno do excesso e da falta. Sua "démarche" lembrou-me o itinerário exemplar do militante socioambientalista Alan Durning, que começou estudando as razões que impelem os pobres do Terceiro Mundo a destruírem o ambiente e depois, remontando as conexões, acabou descobrindo que o problema do esgotamento dos recursos do planeta se encontrava no desperdício das camadas privilegiadas dos países do Norte. Num livro que interroga as razões e os limites da insaciabilidade consumista dos desenvolvidos, Durning escreve: "No início dos anos 90, os americanos médios consumiam, direta ou indiretamente, 52 quilos de materiais básicos por dia: 18 quilos de petróleo e carvão, 13 de outros minerais, 12 de produtos agrícolas e 9 de produtos florestais. O consumo diário nesses níveis traduz-se em impactos globais que se equiparam às forças da natureza. Em 1990, as minas que exploram a crosta terrestre para suprir a classe consumista moveram mais terra e rocha do que todos os rios do mundo juntos. A indústria química produziu milhões de toneladas de substâncias sintéticas, mais de 70 mil variedades, muitas das quais mostraram-se impossíveis de serem isoladas do ambiente natural. Os cientistas que estudam a neve da Antártida, os peixes de mares profundos e as águas subterrâneas encontram resíduos químicos feitos pelo homem". Os especialistas sabem que não se pode resolver a questão na ponta da carência sem tocar na do excesso, porque já está demonstrado que o "american way of life" não pode se universalizar, pela simples razão de que não há recursos renováveis para tanto e nem o planeta aguenta. Até no Banco Mundial já se discutiu que o modelo é insustentável, e no entanto sua dinâmica prossegue mais atuante do que nunca. Nadine Gordimer lança um apelo às futuras gerações para que enfrentem o crônico problema do desequilíbrio da distribuição; no entanto, fica a pergunta: será que faz sentido acreditar nessa possibilidade e apostar numa globalização "com face humana"? Material e libidinal A globalização parece ser a consagração máxima do capitalismo, a sua expansão tanto no plano macro quanto no micro a níveis até então inimagináveis. Ora, desde o início da década de 70, Deleuze e Guattari já advertiam que o capitalismo vive da carência, que a falta é constitutiva do seu sistema de produção e consumo. Mas eles não estavam se referindo à carência por necessidade, que escraviza os pobres, e sim à carência no âmbito do desejo, que move o impulso do consumidor ocidental. Como se à miséria material dos pobres correspondesse a miséria libidinal dos ricos, habilmente manipulada pelas forças do mercado. Se isso é verdade, dada a penetração ao mesmo tempo global e molecular do capitalismo contemporâneo, faz sentido então pensar que a carência atinge agora uma dimensão gigantesca -buraco tanto maior na medida em que a crise ambiental dos anos 80 explicitou para as consciências os limites da exploração da natureza e, com eles, a insustentabilidade do crescimento econômico. Instaurou-se, assim, como que uma espécie de situação exasperante: pois no momento mesmo em que as forças do capitalismo penetravam em toda parte, suscitando novas demandas, abrindo e aprofundando carências reais e imaginárias, ficava evidente que o sistema passara a ser excludente por não poder incorporar a todos no universo dos consumidores. O que evidentemente teve grande efeito tanto nos que ficavam de fora quanto nos de dentro. As promessas de que o desenvolvimento tecnocientífico iria permitir a inclusão progressiva de todos numa sociedade moderna esfumaram-se e só se mantêm no ar graças ao assédio permanente que as mídias e a publicidade fazem à mente dos espectadores. Ao fim da utopia socialista correspondeu o fim da tríade liberdade-igualdade-fraternidade, que embasava politica e ideologicamente a sociedade capitalista, tornando a integração na vida econômica e a ascensão social cada vez mais problemáticas. O progresso tecnocientífico, que no entender de Buckminster-Fuller permitiria a definitiva superação do "ou eu ou você" pelo "eu e você", ampliou -em vez de diminuir- as distâncias entre as classes e entre os países. A lógica da sobrevivência se aguçou mais do que nunca com o acirramento da competição pelos recursos, pelo desenvolvimento tecnológico, pelos postos de trabalho que a reestruturação produtiva foi tornando cada vez mais escassos. O darwinismo social legitimou e naturalizou o "ou eu ou você", intensificando a luta pela sobrevivência, agora ainda mais perversa com a introdução da questão da competência tecnológica. Com efeito, à "classe mundial" e à "classe virtual" passou-se a atribuir uma superioridade incontestável, que lhes confere ares de uma outra humanidade -o que, aliás, prepara o terreno para o melhoramento genético das elites, que inauguraria uma segunda linha de evolução da espécie humana, tal como é preconizado pelos entusiastas da biotecnologia e até mesmo por geneticistas respeitáveis. Mas deixemos de lado os excluídos, pois, embora imersos na carência criada pelo capitalismo, não participam do universo do consumo -o que, no Brasil, sempre é bom lembrar, significa mais ou menos uns 70% da população. Fiquemos apenas com a sociedade dos incluídos. O que se passa com eles? Antes de mais nada, cabe ressaltar que, com a consagração da aliança entre a tecnociência e a economia, e com o fim da política que dela decorre, os incluídos viram cada vez mais sua condição de cidadãos ser reduzida à de consumidores. A erosão dos direitos e do Direito corrói suas prerrogativas a ponto de atingir até mesmo o sacrossanto direito ligado ao consumo, pois, como observou certa vez Walnice Nogueira Galvão, o que sobrou foi o direito de consumir, não o direito do consumidor. Subordinada aos ditames do mercado, a cidadania só é concedida e reconhecida para aqueles que se encontram inseridos nos circuitos de produção e consumo; os outros passam a ser exilados no "no man's land", engrossando a categoria dos sem: sem-terra, sem-teto, não-pessoas sociais, sujeitos monetários sem dinheiro, para usar a expressão de Robert Kurz. Socialmente, portanto, o direito de existir passa a coincidir com o direito de consumir. Corrida pela sobrevivência Consumir não mais por necessidade, mas por ansiedade. Com efeito, se a identidade social de cada um se afirma na esfera do consumo e se paira no ar a incerteza quanto ao futuro e a ameaça de exclusão, como não vincular a estratégia do consumo à estratégia da sobrevivência? Consumir e sobreviver reforçam-se mutuamente. Pois tanto o consumo quanto a sobrevivência dependem do grau de inserção do sujeito na dinâmica acelerada imposta pela união da tecnociência e do capital global. Para sobreviver, bem como para consumir, é preciso correr contra a crescente obsolescência programada que as ondas tecnológicas e a altíssima rotatividade do capital reservam para pessoas, processos e produtos. Para sobreviver, bem como para consumir, é preciso se antecipar. E aqui se encontra uma questão que talvez valha a pena considerar. A modernidade instaurara, como princípio supremo, a ruptura com os valores do passado e a consagração do novo e do inédito. Nesse sentido, o mundo moderno significou a desvalorização dos outros tempos, sacrificando a história em benefício do presente. O interesse pelo novo, pela novidade, pelo aqui e agora, e o descarte do "velho", do tradicional, manifestam-se em toda parte e nem precisam ser sublinhados. Mas a aceleração tecnológica e econômica é tal que até mesmo o atual acaba sendo ultrapassado: tudo o que é... já era. Nessas condições, como saciar o desejo de consumo, como preencher a falta, se o que falta se furta à nossa satisfação, qualificando-se e desqualificando-se numa velocidade sobre-humana? A aceleração tecnológica e econômica desloca o interesse pelo atual e pelo presente, decretando, com tal deslocamento, o fim da modernidade. A atenção concentra-se não no que é, mas no vir-a-ser. O olhar se volta para o futuro; melhor dizendo: para a antecipação do futuro. Quando na década de 80 a crise ambiental tornou patente a acelerada extinção das espécies vegetais e animais no Terceiro Mundo, os países ricos, temendo o desaparecimento dos recursos genéticos tão preciosos para o desenvolvimento de sua nascente indústria biotecnológica, apressaram-se em constituir bancos genéticos "ex situ" que pudessem assegurar-lhes acesso à biodiversidade do planeta. Quando as possibilidades de terapia gênica começaram a despontar, o projeto de descodificação do genoma humano desdobrou-se no projeto Diversidade do Genoma Humano, que ambicionava coletar fragmentos do patrimônio genético de todos os povos indígenas e tradicionais do mundo em via de desaparecimento, para futuras aplicações farmacêuticas. Ainda não se sabia e muitas vezes ainda não se sabe o que fazer com tais recursos genéticos. O que importava e importa é a sua apropriação antecipada. A lógica de tais operações é a seguinte: os seres biológicos -vegetais, animais e humanos- não têm valor em si, como existentes; o que conta é o seu potencial. A lógica que preside a conduta da tecnociência e do capital com relação aos seres vivos, agora transformados em recursos genéticos, é a mesma que se explicita em toda parte. Trata-se de privilegiar o virtual, de fazer o futuro chegar em condições que permitam a sua apropriação, trata-se de um saque no futuro e do futuro, como bem mostram essas novas operações com derivativos, produtos financeiros vendidos nos mercados futuros por bancos, fundos e corretoras que especulam com moedas, bônus e ações. "Não há mercado real", explica John Plender, no "Financial Times", com respeito às transações de derivativos. "Há em seu lugar complexas valorações feitas por computador, baseadas em conjecturas sobre probabilidade, volatilidade e custos futuros." O deslocamento do atual para o virtual é fruto da extensa tecnologização da sociedade e da intensa digitalização de todos os setores e ramos de atividade. A "nova economia", economia do universo da informação, parece considerar tudo o que existe na natureza e na cultura -inclusive na cultura moderna- como matéria-prima sem valor intrínseco, passível de valorização apenas através da reprogramação e da recombinação. É como se a evolução natural tivesse chegado a seu estado terminal e a história tivesse sido "zerada" -e se tratasse, agora, de re-construir o mundo através da capitalização do virtual. Frederic Jameson já havia observado, em "Post Modernism or The Cultural Logic of Late Capitalism", que o capitalismo estava penetrando no inconsciente e na natureza e colonizando-os; mas agora ele parece investir sobre toda criação, inclusive a criação da vida; assim, a nova economia buscaria assenhorear-se não apenas da dimensão da realidade virtual, do ciberespaço, como tem sido observado, mas também e principalmente da dimensão virtual da realidade. Que papel tem o consumidor no processo de capitalização do virtual? Ao invés do consumidor soberano moderno, sujeito de uma ação consciente que consuma a realização da mercadoria através da compra, encontramos o próprio consumidor transformado em mercadoria virtual. Isso mesmo: o sujeito tornou-se objeto; mas, como foi dito antes, não um objeto presente, atual, e sim um objeto potencial, cuja reação futura aos estímulos da rede agrega valor. Como se dá essa fantástica operação? Bernard Spitz explica no "Le Monde" o que se passa: "No passado os programas mais gerais, como os filmes de grande público e os principais acontecimentos esportivos, permitiam que os canais de TV atraíssem a audiência e portanto vendessem mais caro seus espaços publicitários -e, em seguida, num segundo momento, explorassem a notoriedade desses programas vendendo produtos derivados. Agora, na economia da Net, a questão que se coloca para eles é captar o maior número de consumidores através da televisão ou de seu portal e oferecer uma vasta gama de serviços associados e de produtos sobre os quais poderão embolsar comissões. Assim, o campeão de futebol ou o herói de sitcom não servem mais só para vender audiência, mas para serem o fator de diferenciação que vai atrair o cliente para outras formas de consumo. (...) Toda a questão da estratégia consiste em apostar na valorização do assinante; administrando o seu consumo, aprende-se a controlar as alavancas da demanda. O que é um assinante senão um cliente que tornou-se fiel a uma marca?". "Dot-com" Apostar na valorização do assinante-consumidor e, administrando o seu consumo, controlar as alavancas da demanda -é exatamente isso que estão fazendo as "dot-com", as empresas da Internet que estão colonizando o ciberespaço e capitalizando o virtual através do conceito de marca. Em 99, a "dot-com mania" tomou conta de Wall Street e a valorização das ações das empresas que vendem consumidores cativos foi mais do que espetacular. Candice Carpenter, presidente da dot-com iVillage, tornou-se multimilionária no dia em que sua empresa teve seus papéis lançados na Bolsa. A estrategista de marketing vende mulheres consumidoras de 25 a 54 anos em seu site na rede. Sylvie Kauffmann, jornalista do "Le Monde", conta a sua saga numa série de artigos que escreveu sobre "a nova economia americana". Carpenter trabalhava na American Online no início da Internet comercial, em 94. Nessa época descobriu as comunidades minoritárias que se comunicavam através da rede; mas descobriu também que só 8% dos cibernautas eram mulheres. Convencida de que a participação feminina iria aumentar, decidiu criar um ambiente de marcas voltado para os setores que mais importam às mulheres: a família, o trabalho e a saúde. O iVillage foi criada em 95; de lá para cá o site foi construindo parcerias estratégicas, incorporando comércio eletrônico, serviços financeiros, de viagem, de beleza, de maternidade, de gestão profissional, de saúde. Em setembro de 99, o iVillage é líder em sua categoria, com 2,7 milhões de membros, 6 milhões de visitantes e um crescimento de tráfego de 14%. A notícia mais aterradora Na nova economia o futuro consumidor é uma mercadoria virtual. Mas uma mercadoria especial: não mais mercadoria que produz mercadorias, como nos tempos do velho Marx, mas sim mercadoria que consome mercadorias materiais e imateriais, tanto atuais quanto virtuais. Administrar o consumidor cativo, controlar as alavancas da demanda é, portanto, a quintessência da estratégia de marketing e a ambição máxima de quem deseja direcionar o futuro, antecipando a sua realização. Não foi à toa que Gilles Deleuze escreveu, em seu profético texto "Post-Scriptum sobre as Sociedades de Controle": "O serviço de vendas tornou-se o centro ou a "alma" da empresa. Informam-nos que as empresas têm uma alma, o que é efetivamente a notícia mais aterradora do mundo. O marketing é agora o instrumento de controle social e forma a raça impudente de nossos senhores". Estaríamos nós condenados à condição de consumidores cativos? Se não, a que corresponderia, no campo dos incluídos, o direito de libertar-se da carência de que fala Gordimer, a respeito dos despossuídos? Parece-me que tanto numa ponta quanto na outra já não se trata mais de esperar pelo reconhecimento e a efetivação de direitos, visto que a própria evolução do capitalismo contemporâneo está se encarregando de destituir a cidadania em todas as frentes. No campo dos incluídos, a libertação da carência talvez não seja uma questão jurídico-política: não há como voltar atrás para restaurar a cidadania perdida nem como almejar a sua construção, lá onde ela foi interrompida. Tanto os incluídos quanto os descartáveis encontram-se nus, diante do futuro. Como vimos, para uns e outros o capitalismo contemporâneo reserva um futuro de carência, de falta, de ansiedade e de antecipação. Mas, por mais intensa que seja a sua devoração do tempo, o capitalismo não dá conta de controlar todo o futuro, de abarcar todos os devires. O jogo não acabou. No livro "Finite and Infinite Games", James Carse diz o seguinte sobre o jogo: "Há pelo menos dois tipos de jogos. Um pode ser chamado de finito, o outro, de infinito. Um jogo finito é jogado com o propósito de se ganhar, mas joga-se um jogo infinito com o propósito de continuar o jogo. (...) Um jogador finito é adestrado não só para antecipar cada possibilidade futura, mas para controlar o futuro, para impedir que este altere o passado. O jogador infinito joga esperando ser surpreendido. Se não há mais surpresa, todo o jogo acaba. A surpresa causa o fim do jogo finito e, ao contrário, é a razão pela qual o jogo infinito continua. Considerando que os jogadores finitos são adestrados a impedir que o futuro altere o passado, devem esconder seus lances. Mas, como o jogador infinito está apto a ser surpreendido pelo futuro, joga em completa abertura. Abertura, aqui, não significa candura, mas sim vulnerabilidade (fragilidade). Não se trata de expor a sua identidade imutável, de expor o verdadeiro "self", mas sim de expor-se a um crescimento contínuo, de expor o "self" dinâmico que ainda não é "self". O jogador infinito não se limita a comprazer-se com a surpresa, mas sim espera ser transformado. Estar preparado contra a surpresa significa ser adestrado. Estar preparado para a surpresa significa ser educado. Não existem regras que obriguem a obedecer a regras. Se assim fosse, então deveria existir uma regra para essas regras e assim por diante". O jogo não acabou, não acaba nunca -continua em outro plano, em outro paradigma, em outro espaço-tempo. Não há por que deixar-se deprimir com as novas regras da sociedade de controle e da "nova economia"; talvez seja melhor descobrir como, no jogo infinito, elas podem ser desreguladas. -------------------------------------------------------------------------------- Laymert Garcia dos Santos é professor livre-docente do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autor de "Tempo de Ensaio" (Cia. das Letras), entre outros. O texto acima foi apresentado como palestra no ciclo "Cotidiano/Arte: O Consumo", do Centro Cultural Itaú, em São Paulo, em janeiro deste ano.

20.6.02

Senhoras e Senhores Usem filtro solar "Os benefícios, a longo prazo, do uso de filtro solar foram cientificamente provados. Os demais conselhos que dou baseiam-se unicamente na minha própria experiência. Eis aqui um conselho: Desfrute do poder e da beleza de sua juventude; Oh! Esqueça. Você vai compreender o poder e a beleza da sua juventude quando já tiverem desaparecido. Mas acredite em mim, dentro de vinte anos, você olhará suas fotos e compreenderá de um jeito que não pode compreender agora. Quantas oportunidades se abriram para você; eram realmente fabulosas; Que você não é tão gordo quanto você imagina; Não se preocupe com o futuro, ou se preocupe, se quiser, sabendo que a preocupação é tão eficaz quanto tentar resolver uma equação de álgebra mascando chiclete. É quase certo que os problemas que realmente tem importância em sua vida são aqueles que nunca passaram por sua mente; tipo aqueles que tomam conta de você às 4:00 hs da tarde em alguma terça-feira ociosa. Todos os dias faça alguma coisa que seja assustadora; Cante. Não trate os sentimentos de forma irresponsável; Não tolere aqueles que agem de forma irresponsável em relação a você; Relaxe. Não perca tempo com a inveja; Algumas vezes você ganha, algumas vezes você perde; A corrida é longa e, no final, tem que contar só com você; Lembre-se dos elogios que recebe. Esqueça os insultos. (se conseguir isso, diga-me como.) Guarde suas cartas de amor; Jogue fora seus velhos extratos bancários; Estique-se (alongue-se). Não tenha sentimento de culpa se não sabe o que quer da vida; as pessoas mais interessantes que eu conheço não tinham, aos 22 anos, nenhuma idéia do que fariam na vida. Algumas das pessoas interessantes de 40 anos que conheço ainda não sabem. Tome bastante cálcio; Seja gentil com seus joelhos, você sentirá falta deles quando não funcionarem mais. Talvez você se case, talvez não; Talvez tenha filhos, talvez não; Talvez se divorcie aos 40; Talvez dance uma valsinha quando fizer 75 anos de casamento. O que quer que faça, não se orgulhe nem se critique demais. Todas as suas escolhas tem 50% de chance de dar certo, como as escolhas de todos os demais. Curta seu corpo da maneira que quiser, não tenha medo dele ou do que os outros possam pensar dele. Ele é seu maior instrumento. Dance; Mesmo que o único lugar que você tenha para dançar seja sua sala de estar. Leia todas as indicações, mesmo que você não as siga. Não leia revistas de beleza, a única coisa que elas fazem é mostrar você como uma pessoa feia. Saiba entender seus pais, você nunca sabe a falta que vai sentir deles. Seja agradável com seus irmãos, eles são seu melhor vínculo com seu passado, aqueles que, no futuro, provavelmente nunca deixarão você na mão. Entenda que amigos vão e vem, mas que há um punhado deles preciosos, que você tem que guardar com carinho. Trabalhe duro para transpor os obstáculos geográficos da vida, porque quanto mais você envelhece, tanto mais precisa das pessoas que conheceram você na juventude. More em N.Y; Mas mude-se antes que a cidade transforme você em uma pessoa dura. More no Norte da Califórnia; Mas mude-se antes de tornar-se uma pessoa muito mole. Viaje. Aceite certas verdades eternas: os preços sempre vão subir; os políticos são todos mulherengos; você também vai envelhecer. E quando envelhecer vai fantasiar que quando era jovem, os preços eram acessíveis, os políticos eram nobres de alma e as crianças repeitavam os mais velhos. Respeite as pessoas mais velhas; Não espere apoio de ninguém; Talvez você tenha uma aposentadoria; talvez tenha um cônjuge rico; Mas você nunca sabe até quando um ou outro poderá desaparecer. Não mexa muito em seu cabelo, se não, quando tiver 40 anos, vai ficar com aparência de 85. Tenha cuidado com as pessoas que dão conselhos, mas seja paciente com elas; Conselho é uma forma de nostalgia. Dar conselho é uma forma de resgatar o passado da lata de lixo, limpá-lo, esconder as partes feias e reciclá-lo por um preço maior do que realmente vale. Mas acredite em mim quando falo de filtro solar..."

18.6.02

UM TEXTO MUITO FERA SOBRE DIABETES Percepções e Realidade Dois anos atrás, o Programa Nacional de Educação em Diabetes (NDEP), do governo norte-americano, iniciou uma blitz multimídia que anunciava "Controle seu Diabetes. Para a Vida". Simplesmente isso. Depende de você. É sua doença. Se você a controla, você terá uma vida, se não, não. De acordo com o Dr. Phillip Gorden, o então diretor do Instituto Nacional de Doenças de Diabetes, Digestivas e Rim (NIDDK), o objetivo da campanha era de "passar a mensagem que o diabetes é sério, comum, caro e controlável". Através da televisão, rádio e impressos, nossos vizinhos, colegas de trabalho, amigos e familiares aprenderam que o diabetes é controlável. A campanha reforçou a crença de que os problemas do diabetes e seus custos econômicos associados são causados pelos diabéticos – e não pelo diabetes. Agora pense por um momento o quê teria acontecido se a campanha tivesse anunciado "Diabetes incapacita e mata. Somente uma cura pode parar o sofrimento", com imagens de uma criança levando sua mãe cega através de uma mercearia, com uma voz explicando que o diabetes incapacita. Esta campanha iria criar uma mudança significativa na maneira como o diabetes é percebido. O público veria o diabetes como um inimigo, de uma forma semelhante como vemos o câncer e a AIDS como inimigos. Eles se preocupariam que caso o diabetes não fosse curado, aquilo poderia acontecer com eles ou com seus filhos. Uma campanha deste tipo iria mudar a face da doença pela remoção do sorriso que tem sido veiculado nos anúncios de produtos e brochuras nos escritórios médicos e farmácias. Talvez a consternação pública de que ainda não há uma cura iria criar pressão política para aumentar o financiamento de pesquisas orientadas à cura do diabetes. Muitos pais de crianças diabéticas e adultos diabéticos ficariam insatisfeitos ou chocados com uma campanha deste tipo, em parte porque nós também acreditamos, ou queremos acreditar, de que se nós seguirmos as práticas do bom controle, nós estaremos garantidos com uma vida livre das complicações do diabetes. Não somente nós queremos acreditar nisso; nós fomos ensinados a acreditar nisso. Semana passada, em um encontro noturno de mães de crianças diabéticas, três das cinco mães disseram que elas foram ensinadas a não se preocupar muito com a glicemia de seus filhos, uma vez que as crianças são resistentes às complicações. Sem dúvida, os médicos, com boas intenções, estão tentando diminuir as preocupações das mães e das crianças. Utilizando vozes de suporte e doces sorrisos, as enfermeiras passam a mensagem de que se você fizer como lhe é dito, então tudo estará bem – tal como na campanha do NDEP, eles estão falando aos pacientes que o diabetes é controlável, e se eles o controlarem, eles estarão bem. Mas a verdade é que nenhum estudo, nem mesmo o Diabetes Control and Complications Trial - DCCT, mostrou que o controle do diabetes pode prevenir as complicações. Claro, na falta de uma cura, o controle do diabetes é importante para diminuir a progressão e retardar o aparecimento de complicações ao máximo possível, mas nós não devemos enganar o público, ou nós mesmos, que o controle é suficiente. No máximo é um tratamento inadequado até uma cura ser achada. O diabetes é um grande negócio com forças econômicas, sociais e políticas poderosas abrindo e fechando portas para nossos tratamentos e curas. Bilhões de dólares são ganhos vendendo produtos à comunidade diabética. Para desenvolver uma cura custa dinheiro, e até que se atinja a uma cura, não há nenhum produto para vender. Nas grandes conferências sobre diabetes, os profissionais da área de saúde são inundados com informações sobre medidores de glicose mais precisos e simples, e sistemas de injeção de insulina, mas defensores da cura do diabetes, ou proponentes de avanços científicos com este fim, são grandemente sub-representados. Infelizmente, sem os atrativos das grandes empresas que vendem produtos para o controle do diabetes, a mensagem sobre a cura do diabetes se perde. Os profissionais da área de saúde retornam para casa dizendo aos seus pacientes diabéticos somente sobre as novas tecnologias que os ajudarão a controlar melhor sua condição. Este ano, na convenção da American Diabetes Association, as organizações sem fins lucrativos não foram permitidas a ficar no salão de expositores, foram removidas para outro salão, para dar espaço às empresas que objetivam o lucro mostrar seus produtos. O diabetes ameaça a vida tal como o câncer e a AIDS? A resposta sem dúvida é sim. De fato, mais pessoas morrem nos Estados Unidos de diabetes, todos os anos, do que de câncer da mama e de AIDS somados, mas você nunca saberia isto pelo nível de gasto do governo financiando pesquisas de cada uma das doenças. O financiamento à pesquisa é altamente sujeito a como os defensores fazem lobby pela doença. Olhe, por exemplo, o financiamento ao câncer de próstata versus mama. Apesar de ambos causarem a mesma quantidade de mortes todos anos, o financiamento ao câncer de mama é cinco vezes maior do que para o de próstata. De acordo com Gary Becker, ganhador do prêmio Nobel de 1992, a pesquisa sobre o câncer de mama é "muito melhor financiada porque os pacientes são mais bem organizados para a atividade política. Os homens tendem a ficar quietos sobre o câncer de próstata". Becker disse que a pesquisa da AIDS recebe quatro vezes mais que a de câncer de mama, e mais de vinte vezes que a de câncer de próstata. "A efetividade política dos ativistas de AIDS certamente ajuda a explicar porque um pedaço maior do orçamento federal dos Estados Unidos é alocado para a pesquisa da AIDS do que para outros males terríveis", diz ele. O governo norte-americano gasta 1,7 mil dólares em pesquisa com AIDS por cada portador de AIDS, mas menos de 30 dólares em pesquisa de diabetes por cada diabético. Defensores da AIDS e do câncer encorajam o apoio financeiro e político com relatórios amplamente divulgados de cada sucesso e descoberta eminente no tratamento de suas doenças, focalizados sempre na cura. Em contraste nós mandamos mensagens misturadas sobre diabetes. Num esforço para encorajar o otimismo e a auto-confiança, as revistas de diabetes e materiais educacionais mostram a imagem de pessoas sadias, ativas, "controlando sua condição", com uma atitude tipo "sem problemas". Companhias farmacêuticas usam a imagem e slogans de diabéticos sorridentes segurando seringas e medidores de glicose – os símbolos do diabetes. Mas a própria doença não é revelada. A percepção pública do diabetes é influenciada pelos nossos próprios testemunhos, e nós retratamos uma doença que não é mais que uma pequena inconveniência. Diabetes é, há muito tempo, uma doença de acusação e vergonha de não controle e de mentira nas dietas. As complicações do diabetes tem servido como uma linha de demarcação entre aqueles que são orgulhosos de aparecer e aqueles que se escondem. Ao mostrar para o mundo apenas as faces felizes, e não a trágica doença, nós estamos endossando a filosofia prevalecente de tolerar, ao invés de curar o diabetes. Para os formuladores de políticas públicas, filantropistas, empregadores, e o público se sentirem compelidos a curar o diabetes eles precisam entender que o diabetes é: · Caro para a sociedade e estes custos estão subindo; · Disseminado e a incidência está aumentando; · Destruidor da alma, e ainda não há cura; e · Acima de tudo, que com recursos e foco, o diabetes é curável. Para que esta doença seja curável, é necessária uma mudança fundamental na forma como o diabetes é visto. Nós precisamos diminuir a distância entre a percepção do diabetes como uma condição controlável com a realidade de que ela é uma das mais velhas, mortais, e disseminadas doenças.

14.6.02

DECLARAÇÃO DE AMOR FUNCIONA 10 de junho de 2002 Eu vivo dizendo que não sou psicóloga, mas mesmo assim recebo vários e-mails de leitores que me escrevem páginas e páginas sobre seus dilemas amorosos. Contam que são apaixonados por alguém, que sentem isso e aquilo, e no final me perguntam: o que é que eu faço para conquistá-lo? Se eu tivesse a solução na ponta da língua, deixava de ser escritora e iria ganhar a vida dando consulta através de um 0900 qualquer. Mas não tenho solução, tenho apenas um vago palpite: em vez de declarar seu amor para uma pessoa que não tem nada a ver com a história (eu), declare para o maior interessado (ele/a). Declaração de amor funciona. Não é varinha de condão, não faz mágica, mas jamais passa despercebida. Todo mundo, não importa a idade, o sexo ou o estado civil, quer ser amado. Podemos até já ser muito amados, mas queremos mais. Queremos saber que agradamos os outros, queremos receber um lote extra de atenção. É humano: desejamos ser aceitos pelo maior número de pessoas. Quando a gente consegue despertar o amor em alguém por quem também estamos apaixonados, é o reino dos céus. Mas mesmo quando a gente desperta o interesse em quem não nos atrai, ainda assim isso mexe favoravelmente com nosso ego. E esta pessoa deixa de ser um ninguém. Um cara ou uma garota chega perto de você e diz com todas as letras que você é a pessoa mais importante da vida dela, que te ama pra caramba e pede para que, se você um dia achar possível retribuir esse sentimento, mande avisar. Vira as costas e vai embora. Cacilda. Você só vai debochar dessa criatura se for muito tosco. Você sabe como é difícil tomar coragem e abrir o coração pra alguém sem saber se tem alguma chance. E se for para alguém que já tem namorado, mais complicado ainda. Pois alguém enfrentou essa parada e se declarou pra você. Se você o achava um idiota, pense duas vezes: este idiota se amarrou em você, então não deve ser tão idiota assim. Apaixonou-se? Declare-se. Pode dar em nada, mas garanto que você vai ficar na cabeça de alguém o tempo necessário para ele considerar a hipótese.

13.6.02

RECEITA DE ANO NOVO em Junho :) Carlos Drummond de Andrade Para você ganhar um belíssimo Ano Novo cor de arco-íris ou da cor da sua paz ano novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) Para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser, novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha, você não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? Passa telegrama?). Não precisa chorar de arrependimento pelas besteiras consumadas nem parvamente acreditar que por decreto da esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver. Para ganhar um ano-novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano-Novo cochila e espera desde sempre. Feliz 200x.

12.6.02

12 de junho, dia dos namorados :) é só um dia comercial heheheheeheh texto interessante enviado por uma amiga Sobre o amor (Artur da Távola ) O amor é um sentimento destinado à felicidade, tanto quanto ao sofrimento e também à doação. Se você ama (melhor seria dizer: se você é capaz de amar), não espere só grandes recompensas, respostas otimistas. Amar é apesar. Amor é o sentimento que se instala a partir do primeiro tédio. Amor não é o que nos atrai em alguém. Isso é atração, paixão, ou qualquer coisa parecida. Amor é o que nos mantém unidos. Quando menos sentimentos exaltados, mais amor, união e durabilidade. O amor é um sentimento embaraçado nas raízes fundas do sentimento. Quem ama nem tem consciência dessas raízes. Teme-as. Prefere não vê-las. Porque vê-las será revelar-se. E revelar-se assusta. O amor é também o sentimento misturado com rejeição, raiva, irritação, convivência, desinteresse, tédio, o vazio a dois, o sumiço da paixão e as emoções mais intensas. Ele é tão grande, tão pleno, tão poderoso e incrível que resiste a tudo isso, inclusive as impossibilidades, estranho veneno que o alimenta. Mas isso é amor dodói. Amor saudável é apenas bom. Você não deixa de amar apenas porque já não gosta igual ou não sente a mesma atração. Talvez só agora você comece a ficar madura o suficiente para poder começar a amar. Pessoas que se atraem à perdição talvez ainda nem começaram a se amar. Enquanto apenas se atraírem, não alcançarão o amor. Alcançar o amor tem tanto de renúncia quanto de alegria, felicidade ou glória. Sim, a felicidade pessoal é compatível com o amor. Infelicidade, jamais. Mas amor é sério demais para almejar apenas felicidade. O amor visa a eternidade. A felicidade é apenas um caminho para ela. Assim como é preciso alguma crueldade para viver. Assim como há sempre alguma agressão embrulhada em qualquer vitória, assim, também, a alegria precisa de alguma inconseqüência. Sem esta, restará apenas a lucidez, que é sempre repleta de ''trágicos deveres''. Libertando-nos da plena consciência, a inconseqüência nos permite alguma alegria. Já felicidade é outro assunto. Está no campo do amor. Felicidade ganha de alegria assim como amor ganha de paixão. Mesmo quando venha nesta embrulhado.

11.6.02

A DOR DOS OUTROS E A NOSSA 2 de outubro de 2000 Você está uma geleca. Estendida no sofá, convoca o ombro da sua melhor amiga para chorar todas as suas imensuráveis carências. Precisa ouvir dela algo que lhe anime. Ela bem que tenta: "Pense bem: tem milhões de pessoas sofrendo coisas muito piores do que você". Claro. Todos dizem a mesma coisa. Enquanto você está aí sofrendo de dor-de-cotovelo, na rua há milhares de sem-teto, sem-emprego, sem-futuro. Na pódium das dores do mundo, os sem-amor não ganham nem medalha de bronze. Estão fora da competição. Você olha pra sua amiga e pergunta: "Acha mesmo que o fato de um avião cair na Malásia pode diminuir a minha saudade? Se um gerente de banco é mantido como refém eu devo abrir um champanhe por não ser eu que estou com uma arma apontada para minha cabeça?" Se sua amiga for sensata, responderá que sim, isso deveria amenizar nossos problemas mundanos. Mas se ela for sincera, providencia mais lenço de papel. Os dramas que acontecem no outro lado da rua nos sensibilizam, mas a contribuição das tragédias alheias para aliviar nossa crise existencial é zero. Crianças são mutiladas em Serra Leoa e você só quer saber do pedaço do peito que lhe arrancaram. Homens e mulheres sobrevivem durante dias embaixo da terra, soterradas por terremotos, e você continua achando que solidão como a sua não há. Pessoas não têm água potável para beber e você afoga sua deprê num bom cabernet sauvignon. Tem gente que perde filho, perde a visão, perde patrimônio, perde a saúde: lamenta-se por eles, mas você perdeu o Beto!!! Vá explicar isso pra alguém. Razão e emoção são dois planetas que não habitam a mesma galáxia. Você SABE que sua dor é superável, você SABE que amanhã vai encontrar um novo amor, você SABE que é uma felizarda por ter saúde, família, um teto pra morar, mas você não SENTE assim. E o sentimento é poderoso. Comanda-nos. E a gente sucumbe. Feito um avião caindo do céu, feito refém de um assalto do coração.
A PRISÃO DE CADA UM 2 de abril de 2001 O psiquiatra Paulo Rebelato, em entrevista para a revista gaúcha Red 32, disse que o máximo de liberdade que o ser humano pode aspirar é escolher a prisão na qual quer viver. Pode-se aceitar esta verdade com pessimismo ou otimismo, mas é impossível refutá-la. A liberdade é uma abstração. Liberdade não é uma calça velha, azul e desbotada, e sim, nudez total, nenhum comportamento para vestir. No entanto, a sociedade não nos deixa sair à rua sem um crachá de identificação pendurado no pescoço. Diga-me qual é a sua tribo e eu lhe direi qual é a sua clausura. São cativeiros bem mais agradáveis do que Carandiru: podemos pegar sol, ler livros, receber amigos, comer bons pratos, ouvir música, ou seja, uma cadeia à moda Luis Estevão, só que temos que advogar em causa própria e habeas corpus, nem pensar. O casamento pode ser uma prisão. E a maternidade, a pena máxima. Um emprego que rende um gordo salário trancafia você, o impede de chutar o balde e arriscar novos vôos. O mesmo se pode dizer de um cargo de chefia. Tudo que lhe dá segurança ao mesmo tempo lhe escraviza. Viver sem laços igualmente pode nos reter. Uma vida mundana, sem dependentes pra sustentar, o céu como limite: prisão também. Você se condena a passar o resto da vida sem experimentar a delícia de uma vida amorosa estável, o conforto de um endereço certo e a imortalidade alcançada através de um filho. Se nem a estabilidade e a instabilidade nos tornam livres, aceitemos que poder escolher a própria prisão já é, em si, uma vitória. Nós é que decidimos quando seremos capturados e para onde seremos levados. É uma opção consciente. Não nos obrigaram a nada, não nos trancafiaram num sanatório ou num presídio real, entre quatro paredes. Nosso crime é estar vivo e nossa sentença é branda, visto que outros, ao cometerem o mesmo crime que nós - nascer - foram trancafiados em lugares chamados analfabetismo, miséria, exclusão. Brindemos: temos todos, cela especial.
AMORES PLATÔNICOS 05 de junho de 2000 Todos os adultos do mundo já tiveram ao menos um amor platônico. O aluno pela professora, a professora pelo vocalista da banda, o vocalista pela vizinha do terceiro andar, a vizinha pelo chefe casado, o chefe pela cunhada. É o poético Maria que amava Jorge que amava Suzana que amava Luiz que amava Fátima que não amava ninguém. Tá assim, ó. Muitos deles estão sozinhos até hoje. Outros estão acompanhados, mas cultivam um amor secreto, o que os faz sentir sozinhos também. Só não está sozinho quem está apaixonado e sendo plenamente correspondido. O resto vai passar a semana dos namorados praticando seu esporte favorito: fantasiar. Ninguém escolhe vivenciar um amor platônico, mas quando isso acontece, muitos, sem perceber, apegam-se a ele, pois é um amor idealizado, romântico, sofrido, que nos faz sentir heróicos por suportá-lo apesar de todas as dificuldades. O platonismo nos torna vítimas de um amor impossível, e há quem goste de desempenhar este papel, pois ele atrai a piedade dos outros ao mesmo tempo que nos isenta de ir à luta. É difícil medir o quanto há de amor verdadeiro e o quanto há de autoflagelo em alimentar um sentimento não retribuído. O amor precisa ser uma via de mão dupla. Ele sobrevive através do dar e do receber. Amar sem ser amado é uma coisa que acontece todos os dias em todos os lugares, mas a manutenção deste amor depende da pessoa que ama: ou ela tenta escapar desta armadilha, abrindo espaço para que um amor mais concreto e saudável venha preenchê-la, ou ela morre de esperança. A vida é curta e não merecemos dedicar tanto tempo a um amor que não se realizará jamais. Os românticos dirão que é melhor um amor vivenciado unilateralmente do que amor nenhum. No meu dicionário, isto é falta de auto-estima. São pessoas que dão de comer a fantasmas: ficam olhando fotos, provocando encontros "casuais" e sonhando com cenas perfeitamente plausíveis em uma novela mexicana, mas não na vida real. Se o alvo da nossa paixão está disponível e tem uma vaga noção da nossa existência, tudo bem tentar realizar este amor, pois ele é viável. Já o amor platônico é, por definição, estéril. Só gera solidão.
AS RAZÕES QUE O AMOR DESCONHECE 13 de julho de 1998 Você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes do Woody Allen, do Hal Hartley e do Tarantino, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem o seu valor. É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettuccine ao pesto é imbatível. Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desses, criatura, por que diabo está sem namorado? Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados. Não funciona assim. Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não-fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. Costuma ser despertado mais pelas flechas do Cupido do que por uma ficha limpa. Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai ligar e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário, ele adora o Planet Hemp, que você não suporta. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado, mas você não consegue despachá-lo. Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita de boca, ele adora animais, ele escreve poemas. Por que você ama esse cara? Não pergunte pra mim. Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou murchar, você levou-a para conhecer sua mãe e ela foi de blusa transparente. Você gosta de rock e ela de MPB, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina o Natal e ela detesta o Ano-Novo, nem no ódio vocês combinam. Então? Então que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome. Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são referências, só. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo o que o amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos tem às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó. Mas só o seu amor consegue ser do jeito que ele é.
BEIJAR BEM 25 de março de 2002 Ok: a gente quer encontrar alguém bonito, inteligente e espirituoso, alguém que não seja muito exibido nem vaidoso demais, que tenha um papo cativante e esteja parado na nossa. Mas e se beijar mal? Sem chance. Tem que beijar bem, tanto eles quanto elas. Quando escuto alguém dizendo que Fulano beija bem e Sicrano beija mal, quase volto a acreditar em histórias da carochinha. Beijo é a sorte de duas bocas entrarem em comunhão. Pode um Rafael beijar uma Ana e ser uma explosão vulcânica, e o mesmo Rafael beijar uma Cristina e ser um encontro labial de dar sono. Pessoas não beijam bem ou mal: casais se beijam bem ou mal. Há sempre dois envolvidos. A definição de um beijo bom é que pode ser questionável, mas quem está no meio do entrevero quase sempre reconhece o ósculo sublime. Beijo bom é beijo decidido, mesmo que a decisão seja levá-lo devagar ao longe. Beijo bom é beijo molhado, em que os beijadores doam tudo o que há para doar na cavidade bucal, sem assepsia, entrega absoluta. Beijo bom é beijo sem pressa, que não foi condenado pelos ponteiros do relógio, que se perde em labirintos escuros já que, é bom lembrar, estamos de olhos fechados. Existe beijo ruim? Existe. Beijo sem alma, beijo educado demais, beijo cheio de cuidados, beijo curto, beijo seco. Mas uma coisa é certa: precisa dois para torná-lo frio ou torná-lo quente. Todo mundo pode beijar bem, basta nossa boca encontrar com quem.
Frisson cerebral A beleza feminina causa, sim, reações primitivas nos homens Karina Pastore Ao ser indagado por que os homens cultuam a beleza física, Aristóteles abandonou momentaneamente a retórica e mostrou o seu lado borracheiro – houvesse, é claro, borracheiros na Antiguidade. "Só um cego faria essa pergunta", disse ele. Basta uma olhadela na foto de Gisele Bündchen aí ao lado para perceber a conexão entre filosofia grega e borracharia brasileira. E – aqui está a novidade – entre filosofia grega, borracharia brasileira e ciência americana. Não se acanhe, prezado leitor, em devorar com os olhos a modelo gaúcha. Essa sua compulsão é pura química cerebral. Pesquisadores da Universidade Harvard mapearam a atividade do sistema nervoso central de homens heterossexuais, de 21 a 35 anos, e descobriram que a visão de uma mulher atraente causa frisson em algumas das áreas mais primitivas do cérebro. Principalmente no núcleo acumbens e na amígdala, responsáveis por funções como a manutenção da temperatura do corpo e da pressão arterial e por determinadas sensações de prazer. Do ponto de vista cerebral (masculino heterossexual, enfatize-se), uma mulher bonita causa as mesmas reações da cocaína em cocainômanos e da aposta em dinheiro em jogadores inveterados. Enfim, a beleza tem efeito parecido ao do vício, com a vantagem de não fazer mal. Publicado na revista americana Neuron, uma das mais importantes no campo da neurologia, o estudo de Harvard também analisou a resposta do cérebro de homens heterossexuais a mulheres feias e homens bonitos. Em ambos os casos, a região que se manifestou mais intensamente foi a ligada aos sentimentos de aversão. A explicação é que as feiosas não têm atributos evolucionários suficientes e que os bonitões, nas profundezas cerebrais mais recônditas, representam uma ameaça na disputa por uma parceira ideal – é melhor tê-los longe do que perto. Por atributos evolucionários, que Gisele Bündchen tem de sobra, entenda-se características como o maxilar delicado, o queixo pequeno, os olhos grandes em relação ao comprimento do rosto, os lábios carnudos e as maçãs da face salientes. Tudo isso indica que o organismo da mulher tem baixos níveis de hormônios masculinos e abundância de estrógenos, os hormônios sexuais femininos. Gisele, portanto, é bonita porque exibe as qualidades de uma boa reprodutora. A diferença de medidas entre cintura e quadris também é um dado importante para uma boa avaliação por parte do macho reprodutor. O melhor é que a cintura da mulher tenha, em média, de seis a oito décimos do tamanho dos quadris. Essa proporção, segundo a psicóloga americana Nancy Etcoff, pesquisadora de Harvard e autora do livro A Lei do Mais Belo, é apreciada no mundo todo, independentemente dos padrões deste ou daquele país. Motivo biológico: sinaliza boa saúde e fertilidade. Ah, sim, Gisele tem 59 centímetros de cintura e 89 de quadris. Proporção de 0,66. O estudo americano é interessante porque prova que a beleza é uma categoria que está longe de ser definida apenas culturalmente. Nesse aspecto, ele bate de frente em certas teorias conspiratórias. Uma delas é que o belo não passa de uma invenção dos manda-chuvas da indústria de cosméticos, da moda, do cinema e da televisão. Dessa maneira, eles imporiam um rodízio de padrões estéticos, para faturar cada vez mais alto. As feministas mais coléricas chegam a dizer até que a beleza é uma forma encontrada pelos homens para subjugar as mulheres. "A beleza é um sistema monetário, assim como o ouro. É o último e o melhor sistema de crenças que mantém a dominação masculina intacta", lê-se em O Mito da Beleza, da americana Naomi Wolf. É impressionante a capacidade de fantasiar dessas pessoas que acham que feiúra, sim, é fundamental. Ciência americana, borracharia brasileira e filosofia grega nelas.
Disciplina e Educação De repente, no melhor do sono, toca o despertador. É hora de levantar para ir à escola ou ao trabalho. Não é raro que, exatamente neste instante, se trave uma batalha importantíssima. De um lado, o sono, a preguiça, o desejo de continuar deitado sonhando com todo tipo de situações gostosas. De outro, a noção do dever, da obrigação, do compromisso assumido. A vontade mostra uma direção; a razão aponta o oposto. Disciplina, na minha opinião, é a capacidade que permite à razão ser mais forte e vencer nossas vontades e nossa preguiça. É porque desenvolvemos essa qualidade que conseguimos fazer exercícios maçantes todos os dias na mesma hora; que evitamos comidas com muitas calorias ou prejudiciais à saúde; que nos faz abrir mão de coisas materiais para poupar e atingir um objetivo maior. Pessoas disciplinadas conseguem estudar quando, na verdade, estavam com vontade de assistir à televisão ou bater papo com os amigos. Não resta a menor dúvida: os disciplinados terão maiores chances de sucesso nas atividades às quais se dedicarem. Entre talento e disciplina, é melhor ter os dois. Porém, a longo prazo, esta última é mais importante. Mas precisa ser conquistada. É verdade que há pessoas que aceitam melhor as contrariedades. Essa capacidade de aceitação aumenta à medida que se desenvolvem a linguagem e o raciocínio lógico. Ambos nos ajudam a compreender por que nossas vontades nem sempre podem ser satisfeitas. Aprendemos a suportar melhor a dor. A principal tarefa da educação, especialmente durante os primeiros anos de vida, seja desenvolver a razão e suas forças com o intuito de sermos capazes de "domesticar" nossas vontades. Uma visão equivocada da psicologia nos levou, nas últimas décadas, a privilegiar o livre exercício do desejo. O papel da razão – freio limitador dos impulsos – foi encarado como algo repressivo e negativo. Além disso, os pais, com medo de traumatizar os filhos e de perder o amor deles, têm fugido da tarefa, às vezes desagradável, de estabelecer limites e estimular as crianças a usar com eficiência a razão para dirigir suas vidas. Na educação infantil, essa é a tarefa número um dos pais. Ao aprender a utilizar a razão em benefício próprio, a criança e depois o adulto experimentam enorme satisfação quando se sentem disciplinados. Sim, porque é nestes momentos que nos consideramos animais mais sofisticados, que definimos com propriedade de racionais. A alegria íntima de quem se levanta cedo, faz exercícios e chega na hora certa aos compromissos assumidos é algo que não pode ser subestimado. Sentimo-nos fortes quando conseguimos nos controlar – coisa muito difícil. Sentimos que vencemos a batalha mais árdua: a interior. A auto-estima cresce. E para que nossos filhos experimentem todas essas sensações tão boas, devemos lhes ensinar, desde cedo, a abrir mão de suas vontades, sempre que a razão assim achar conveniente e útil.
ELEGIA AO PRIMEIRO AMIGO Vinícius de Moraes Seguramente não sou eu Ou antes: não é o ser que eu sou, sem finalidade e sem história. É antes uma vontade indizível de te falar docemente De te lembrar tanta aventura vivida, tanto meandro de ternura Neste momento de solidão e desmesurado perigo em que me encontro Talvez seja o menino que um dia escreveu um soneto para o dia de teus anos E te confessava um terrível pudor de amar, e que chorava às escondidas Porque via em muitos dúvidas sobre uma inteligência que ele estimava genial. Seguramente não é a minha forma: A forma que uma tarde, na montanha, entrevi, e que me fez tão tristemente temer minha própria poesia. É apenas um prenuncio do mistério Um suspiro da morte íntima, ainda não desencantada... Vim para ser lembrado Para ser tocado de emoção, para chorar Vim para ouvir o mar contigo Como no tempo em que o sonho da mulher nos alucinava, e nós Encontrávamos força para sorrir à luz fantástica da manhã. Nossos olhos enegreciam lentamente de dor Nossos corpos duros e insensíveis Caminhavam léguas – e éramos o mesmo afeto Para aquele que, entre nós, ferido de beleza Aquele de rosto de pedra De mãos assassinas e corpo hermético de mártir Nos criava e nos destruía à sombra convulsa do mar. Pouco importa que tenha passado, e agora Eu te possa ver subindo e descendo os frios vales Onde nunca mais irei, eu Que muita vez neles me perdi para afrontar o medo da treva... Trazes ao teu braço a companheira dolorosa A que te deste como quem se dá ao abismo, e para quem cantas o teu desespero um grande pássaro sem ar. Tão bem te conheço, meu irmão; no entanto Quem és, amigo, tu que inventaste a angústia E abrigaste em ti todo o patético? Não sei o que tenho de te falar assim: sei Que te amo de uma poderosa ternura que nada pede nem dá Imediata e silenciosa; sei que poderias morrer E eu nada diria de grave; decerto Foi a primavera temporã que desceu sobre o meu quarto de mendigo Com seu azul de outono, seu cheiro de rosas e de velhos livros... Pensar-te agora na velha estrada me dá tanta saudade de mim mesmo Me renova tanta coisa, me traz à lembrança tanto instante vivido: Tudo isso que vais hoje revelar à tua amiga, e que nós descobrimos numa incomparável aventura Que é como se me voltasse aos olhos a inocência com que um dia dormi nos braços de uma mulher que queria me matar. Evidentemente (e eu tenho pudor ainda de dizê-lo) Quero um bem enorme a vocês dois, acho vocês formidáveis Fosse tudo para dar em desastre no fim, o que não vejo possível (Vá lá por conta da necessária gentileza...) No entanto, delicadamente, me desprenderei da vossa companhia, deixar-me-ei ficar para trás, para trás... Existo também; de algum lugar Uma mulher me vê viver; de noite, às vezes Escuto vozes ermas Que me chamam para o silêncio. Sofro O horror dos espaços O pânico do infinito O tédio das beatitudes. Sinto Refazerem-se em mim mãos que decepei de meus braços Que viveram sexos nauseabundos, seios em putrefação. Ah, meu irmão, muito sofro! de algum lugar, na sombra Uma mulher me vê viver... – perdi o meio da vida E o equilíbrio da luz; sou como um pântano ao luar. Falarei baixo Para não perturbar tua amiga adormecida. Serei delicado. Sou muito delicado. Morro de delicadeza. Tudo me merece um olhar. Trago Nos dedos um constante afago para afagar; na boca Um constante beijo para beijar; meus olhos Acarinham sem ver; minha barba é delicada na pele das mulheres. Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha palma Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre um corpo de adúltera. Na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas delicado e atento Se me entendiam, abandono-as delicadamente, desprendendo-me delas com uma doçura de água Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim Desprende esse fluido que as envolve de maneira irremissível Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher Mas com singular delicadeza. Não sou bom Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado Porque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida Como um lobo. Se não fosse delicado Já não seria mais. Ninguém me injuria Porque sou delicado; também não conheço o dom da injúria. Meu comércio com os homens é leal e delicado; prezo ao absurdo A liberdade alheia; não existe Ser mais delicado que eu; sou um místico da delicadeza Sou um mártir da delicadeza; sou Um monstro de delicadeza. Seguramente não sou eu: É a tarde, talvez, assim parada Me impedindo de pensar. Ah, meu amigo Quisera poder dizer-te tudo; no entanto Preciso desprender-me de toda lembrança; de algum lugar Uma mulher me vê viver, que me chama; devo Segui-la, porque tal é o meu destino. Seguirei Todas as mulheres em meu caminho, de tal forma Que ele seja, em sua rota, uma dispersão de pegadas Para o alto, e não me reste de tudo, ao fim Senão o sentimento desta missão e o consolo de saber Que fui amante, e que entre a mulher e eu alguma coisa existe Maior que o amor e a carne, um secreto acordo, uma promessa De socorro, de compreensão e de fidelidade para a vida.
Homem Ele tem a coragem de enfrentar sua experiência honestamente. Portanto, sente a tristeza de viver num mundo decaído, e a solidão de viver numa comunidade-imperfeita. Mas sua tristeza e solidão geram somente uma ira santa, do tipo que desperta compaixão pelas pessoas, enquanto permanece ofendida pelo pecado. O homem liberado não é abusivo; é um HOMEM MANSO, não fraco, um homem, cujo poder, é controlado para propósitos bons. Quando suas famílias se desfazem ou seus negócios desmoronam, os homens viris - assim como os pouco viris - são tentados a explodir em vingança ou refugiar-se no alívio. Mas não fazem nem uma coisa nem outra. Eles são atraídos pela oportunidade de demonstrar algo bom, de refletir o sempre esperançoso movimento de Deus. Eles se movem através das tribulações com uma presença que os outros, mais do que eles próprios podem notar. Os homens viris são seduzidos pelo gozo da liberdade, pela oportunidade desimpedida de seguir o chamado da masculinidade. O homem viril não é viciado; ele trata o corpo com, severidade, para evitar o perigo de submeter-se a um poder alheio. Ele luta pesado contra seu desejo implacável de prazer. Ele se move de acordo com um plano. É um HOMEM DECIDIDO que sabe o que faz e o que pode contribuir para o propósito pelo qual está vivendo

10.6.02

Discurso de Nizan Guanaes na formatura da FAAP Dizem que conselho só se dá a quem pede. E, se vocês me convidaram para paraninfo, sou tentado a acreditar que tenho sua licença para dar alguns. Portanto, apesar da minha pouca autoridade para dar conselhos a quem quer que seja, aqui vão alguns, que julgo valiosos. Não paute sua vida, nem sua carreira, pelo dinheiro. Ame seu ofício com todo coração. Persiga fazer o melhor. Seja fascinado pelo realizar, que o dinheiro virá como conseqüência. Quem pensa só em dinheiro não consegue sequer ser nem um grande bandido, nem um grande canalha. Napoleão não invadiu a Europa por dinheiro. Hitler não matou 6 milhões de judeus por dinheiro. Michelangelo não passou 16 anos pintando a Capela Sistina por dinheiro. E, geralmente, os que só pensam nele não o ganham. Porque são incapazes de sonhar. E tudo que fica pronto na vida foi construído antes, na alma. A propósito disso, lembro-me uma passagem extraordinária, que descreve o diálogo entre uma freira americana cuidando de leprosos no Pacífico e um milionário texano. O milionário, vendo-a tratar daqueles leprosos, disse: "Freira, eu não faria isso por dinheiro nenhum no mundo." E ela responde: "Eu também não, meu filho". Não estou fazendo com isso nenhuma apologia à pobreza, muito pelo contrário. Digo apenas que pensar em realizar tem trazido mais fortuna do que pensar em fortuna. Meu segundo conselho: pense no seu País. Porque, principalmente hoje, pensar em todos é a melhor maneira de pensar em si. Afinal é difícil viver numa nação onde a maioria morre de fome e a minoria morre de medo. O caos político gera uma queda de padrão de vida generalizada. Os pobres vivem como bichos, e uma elite brega, sem cultura e sem refinamento, não chega viver como homens. Roubam, mas vivem uma vida digna de Odorico Paraguassu. Que era ficção, mas hoje é realidade, na pessoa de Geraldo Bulhões, Denilma e Rosângela, sua concubina. Meu terceiro conselho vem diretamente da Bíblia: seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito. É exatamente isso que está escrito na carta de Laudiceia: seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito. É preferível o erro à omissão. O fracasso, ao tédio. O escândalo, ao vazio. Porque já vi grandes livros e filmes sobre a tristeza, a tragédia, o fracasso. Mas ninguém narra o ócio, a acomodação, o não fazer, o remanso. Colabore com seu biógrafo. Faça, erre, tente, falhe, lute. Mas, por favor, não jogue fora, se acomodando, a extraordinária oportunidade de ter vivido. Tendo consciência de que, cada homem foi feito para fazer história. Que todo homem é um milagre e traz em si uma revolução. Que é mais do que sexo ou dinheiro. Você foi criado, para construir pirâmides e versos, descobrir continentes e mundos, e caminhar sempre, com um saco de interrogações na mão e uma caixa de possibilidades na outra. Não use Rider, não dê férias a seus pés. Não sente-se e passe a ser analista da vida alheia, espectador do mundo, comentarista do cotidiano, dessas pessoas que vivem a dizer: eu não disse!, eu sabia! Toda família tem um tio batalhador e bem de vida. E, durante o almoço de domingo, tem que agüentar aquele outro tio muito inteligente e fracassado contar tudo que ele faria, se fizesse alguma coisa. Chega dos poetas não publicados. Empresários de mesa de bar. Pessoas que fazem coisas fantásticas toda sexta de noite, todo sábado e domingo, mas que na segunda não sabem concretizar o que falam. Porque não sabem ansear, não sabem perder a pose, porque não sabem recomeçar. Porque não sabem trabalhar. Eu digo: trabalhem, trabalhem, trabalhem. De 8 às 12, de 12 às 8 e mais se for preciso. Trabalho não mata. Ocupa o tempo. Evita o ócio, que é a morada do demônio, e constrói prodígios. Trabalhe! Muitos de seus colegas dirão que você está perdendo sua vida, porque você vai trabalhar enquanto eles veraneiam. Porque você vai trabalhar, enquanto eles vão ao mesmo bar da semana anterior, conversar as mesmas conversas, mas o tempo, que é mesmo o senhor da razão, vai bendizer o fruto do seu esforço, e só o trabalho lhe leva a conhecer pessoas e mundos que os acomodados não conhecerão. E isso se chama sucesso

4.6.02

To apaixonado por esta letra.... esta musica é do Cd novo do Lenine... recomendo, vale apena compra-lo Abraços Ecos do ão Lenine e Carlos Renó Rebenta na febem rebelião / um vem com um refém e um facão / a mãe aflita grita logo: não! / e gruda as mãos na grade do portão / aqui no caos total do cu do mundo cão / tal a pobreza, tal a podridão / que assim nosso destino e direção / são um enigma, uma interrogação / e se nos cabe apenas decepção, / colapso, lapso, rapto, corrupção? / e mais desgraça, mais degradação? / concentração, má distribuição? / então a nossa contribuição / não é senão canção, consolação? Não haverá então mais solução? / não, não, não, não, não / pra transcender a densa dimensão / da mágoa imensa e tão-somente então / passar além da dor, da condição / de inferno e céu, nossa contradição / nós temos que fazer com precisão / entre projeto e sonho a distinção / para sonhar enfim sem ilusão / o sonho luminoso da razão / e se nos cabe só humilhação / impossibilidade de ascensão / um sentimento da desilusão / e fantasias de compensação? / e é só ruína tudo em construção? / e a vasta selva só devastação? / não haverá então mais salvação / não, não, não, não, não / porque não somos só intuição / nem só pé de chinelo, pé no chão / nós temos violência e perversão / mas temos o talento e a invenção / desejos de beleza em profusão / e idéias na cabeça coração / a singeleza e a sofisticação / o choro, a bossa, o samba e o violão / mas se nós temos planos, e eles são o fim da fome e da difamação / por que não pô-los logo em ação? / tal seja agora a inauguração da nova nossa civilização / tão singular igual ao nosso ão / e sejam belos, livres, luminosos / os nossos sonhos de nação.
Oi.. retirei este pedaço do texto do Lobão no site, mto bom !!http://www.bravonline.com.br/revista/bravo53/ensaio/index.php e o grifo é meu... "....Também tem aquela síndrome de forte apache, né? A gente compra o brinquedo, monta o brinquedo e… de repente, aquele vazio! O que fazer? Ora, comprar outro! E, evidentemente, botar fogo no forte apache para ensaiar, quem sabe, um dia, botar fogo num mendigo. É no consumir por consumir que nasce o vício, essa patologia contemporânea. E o vazio, hospedeiro do vício, é o que a nossa sociedade mais sabe produzir. MACONHA? SUCRILHOS! CROP DUSTERS! Vício de Internet, de televisão, de sexo, de religião, paraísos artificiais, shopping centers, felicidades químicas… Espíritos famintos! Essa é a mãe de todas as misérias! Mania de mania, apartheid social, psicopatia social, com açúcar, sem afeto. A grande doença é o vazio de querer encher o vazio sempre com coisas externas a sua existência, externas a você… COMPRE BATON! COMPRE BATON! Ter o Outro, comer o Outro, não enxergar o Outro....."
SENTIR-SE AMADO 18 de fevereiro de 2002 O cara diz que te ama, então tá. Ele te ama. Sua mulher diz que te ama, então assunto encerrado. Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas. Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se. A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização, apesar de não sonharmos com outra coisa: se o cara beija, transa e diz que me ama, tenha a santa paciência, vou querer que ele faça pacto de sangue também? Pactos. Acho que é isso. Não de sangue nem de nada que se possa ver e tocar. É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois. Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando. "Não seja tão severa consigo mesma, relaxe um pouco. Vou te trazer um cálice de vinho". Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou dois anos atrás, é vê-la tentar reconciliar você com seu pai, é ver como ela fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d´água. "Lembra que quando eu passei por isso você disse que eu estava dramatizando? Então, chegou sua vez de simplificar as coisas. Vem aqui, tira este sapato." Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido. Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta. Agora sente-se e escute: eu te amo não diz tudo
Stephen Kanitz O poder da validação "Validação permite que pessoas sejam aceitas pelo que realmente são, e não pelo que gostaríamos que fossem" Todo mundo é inseguro, sem exceção. Os superconfiantes simplesmente disfarçam melhor. Não escapam pais, professores, chefes nem colegas de trabalho. Afinal, ninguém é de ferro. Paulo Autran treme nas bases nos primeiros minutos de cada apresentação, mesmo que a peça já tenha sido encenada 500 vezes. Só depois da primeira risada, da primeira reação do público, é que o ator relaxa e parte tranqüilo para o resto do espetáculo. Eu, para ser absolutamente sincero, fico inseguro a cada artigo que escrevo e corro desesperado para ver os primeiros e-mails que chegam. Insegurança é o problema humano número 1. O mundo seria muito menos neurótico, louco e agitado se fôssemos todos um pouco menos inseguros. Trabalharíamos menos, curtiríamos mais a vida, levaríamos a vida mais na esportiva. Mas como reduzir essa insegurança? Alguns acreditam que estudando mais, ganhando mais, trabalhando mais resolveriam o problema. Ledo engano, por uma simples razão: segurança não depende da gente, depende dos outros. Está totalmente fora de nosso controle. Por isso segurança nunca é conquistada definitivamente, ela é sempre temporária, efêmera. Segurança depende de um processo que chamo de "validação", embora para os estatísticos o significado seja outro. Validação estatística significa certificar-se de que um dado ou informação é verdadeiro, mas eu uso esse termo para seres humanos. Validar alguém seria confirmar que essa pessoa existe, que ela é real, verdadeira, que ela tem valor. Todos nós precisamos ser validados pelos outros, constantemente. Alguém tem de dizer que você é bonito ou bonita, por mais bonito ou bonita que você seja. O autoconhecimento, tão decantado por filósofos, não resolve o problema. Ninguém pode autovalidar-se, por definição. Você sempre será um ninguém, a não ser que outros o validem como alguém. Validar o outro significa confirmá-lo, como dizer: "Você tem significado para mim". Validar é o que um namorado ou namorada faz quando lhe diz: "Gosto de você pelo que você é". Quem cunhou a frase "Por trás de um grande homem existe uma grande mulher" (e vice-versa) provavelmente estava pensando nesse poder de validação que só uma companheira amorosa e presente no dia-a-dia poderá dar. Um simples olhar, um sorriso, um singelo elogio são suficientes para você validar todo mundo. Estamos tão preocupados com a própria insegurança que não temos tempo para sair validando os outros. Estamos tão preocupados em mostrar que somos o "máximo" que esquecemos de dizer a nossos amigos, filhos e cônjuges que o "máximo" são eles. Puxamos o saco de quem não gostamos, esquecemos de validar aqueles que admiramos. Por falta de validação, criamos um mundo consumista, onde se valoriza o ter e não o ser. Por falta de validação, criamos um mundo onde todos querem mostrar-se ou dominar os outros em busca de poder. Validação permite que pessoas sejam aceitas pelo que realmente são, e não pelo que gostaríamos que fossem. Mas, justamente graças à validação, elas começarão a acreditar em si mesmas e crescerão para ser o que queremos. Se quisermos tornar o mundo menos inseguro e melhor, precisaremos treinar e exercitar uma nova competência: validar alguém todo dia. Um elogio certo, um sorriso, os parabéns na hora certa, uma salva de palmas, um beijo, um dedão para cima, um "valeu, cara, valeu". Você já validou alguém hoje? Então comece já, por mais inseguro que você esteja. Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)
Outro dia estava assistindo a uma apresentação da poeta Elisa Lucinda num sarau em Porto Alegre, onde ela, mais uma vez, hipnotizou a platéia com seu talento vulcânico e seu humor. Num certo momento, ela questionou a razão de os homens terem tanto receio de dizer "eu te amo". Parece que dizer "eu te amo" tem um prazo de validade que dispensa repetições. Elisa fez piada: a mulher diz para o marido "eu te amo, e você?" e ele responde: "O que é isso, mulher, já não disse no aniversário do teu sobrinho ano passado? Parece que bebe!". São de Elisa Lucinda os versos: "O euteamo é da dinâmica dos dias/é do melhoramento do amor/é do avanço dele/é verbo de consistência/é conjugação de alquimia/é do departamento das coisas eternas". Ou seja: se não nos basta ouvir uma única vez o barulho do mar, se nunca enjoamos do pôr-do-sol, por que o "eu te amo" teria que ser uma raridade em nossas vidas? Bem, há uma explicação. Você pode dizer que gosta de uma pessoa, até mesmo que a adora, e isto não configurar um compromisso. Mas amar é outra história. O amor não é um sentimento efêmero, semanal. Não ama-se e desama-se como quem troca de roupa. O amor tem o caráter de permanência. E num mundo de múltiplas possibilidades, de ofertas de amor em cada esquina, de ficação em festas e relacionamentos virtuais, quem vai querer se amarrar pela palavra? Pena. Porque as pessoas amam. Amam muito. Podem até ficar com outras, mas quase sempre amam verdadeiramente alguém. E não se revelam. Não revelam esse amor para quem o desconhece, e nem mesmo para quem está ali, todos os dias ao seu lado, porque amar parece sinal de fraqueza, olhe só como andam tortas as idéias. Amar cria raíz, sim. Cria, independente de ser verbalizado. Basta sentir o amor para que fiquemos dependentes dele, uma dependência boa, daquilo que nos faz sentir vivos. Dizê-lo em voz alta não nos acorrenta: ao contrário, nos liberta. Dizer "eu te amo" é presente pro amado. Como diz Elisa Lucinda, tudo na vida é novidade: comer, dormir, transar. Tudo é estréia, e amar, logicamente, também é sempre novo e passível de reconhecimento contínuo. Meninos, digam. Meninas, digam. Se é o que estão sentindo, digam.
O psiquiatra Paulo Rebelato, em entrevista para a revista gaúcha Red 32, disse que o máximo de liberdade que o ser humano pode aspirar é escolher a prisão na qual quer viver. Pode-se aceitar esta verdade com pessimismo ou otimismo, mas é impossível refutá-la. A liberdade é uma abstração. Liberdade não é uma calça velha, azul e desbotada, e sim, nudez total, nenhum comportamento para vestir. No entanto, a sociedade não nos deixa sair à rua sem um crachá de identificação pendurado no pescoço. Diga-me qual é a sua tribo e eu lhe direi qual é a sua clausura. São cativeiros bem mais agradáveis do que Carandiru: podemos pegar sol, ler livros, receber amigos, comer bons pratos, ouvir música, ou seja, uma cadeia à moda Luis Estevão, só que temos que advogar em causa própria e habeas corpus, nem pensar. O casamento pode ser uma prisão. E a maternidade, a pena máxima. Um emprego que rende um gordo salário trancafia você, o impede de chutar o balde e arriscar novos vôos. O mesmo se pode dizer de um cargo de chefia. Tudo que lhe dá segurança ao mesmo tempo lhe escraviza. Viver sem laços igualmente pode nos reter. Uma vida mundana, sem dependentes pra sustentar, o céu como limite: prisão também. Você se condena a passar o resto da vida sem experimentar a delícia de uma vida amorosa estável, o conforto de um endereço certo e a imortalidade alcançada através de um filho. Se nem a estabilidade e a instabilidade nos tornam livres, aceitemos que poder escolher a própria prisão já é, em si, uma vitória. Nós é que decidimos quando seremos capturados e para onde seremos levados. É uma opção consciente. Não nos obrigaram a nada, não nos trancafiaram num sanatório ou num presídio real, entre quatro paredes. Nosso crime é estar vivo e nossa sentença é branda, visto que outros, ao cometerem o mesmo crime que nós - nascer - foram trancafiados em lugares chamados analfabetismo, miséria, exclusão. Brindemos: temos todos, cela especial. Martha Medeiros....
O CENTRO DAS ATENÇÕES 23 de abril de 2001 Os cientistas estudam e pesquisam incansavelmente para descobrir a cura do câncer, a vacina para a Aids e tantas outras soluções que aplaquem as doenças que nos rondam. Enquanto isso, os psicanalistas tentam aliviar nossas doenças da alma, nossos solavancos do coração. Mas como nem todos têm condições de pagar umas visitas ao divã, tentam sozinhos descobrir a cura para este mal que já afligiu, aflige ou ainda irá afligir 100% da população: a dor-de-cotovelo. Como amor é assunto recorrente desta coluna, muitos acham que tenho a fórmula mágica para aniquilar as dores provocadas pela paixão. Tenho nada. Tenho são os meus palpites. E uma antena que capta frases, depoimentos, tudo o que possa ajudar. Um dia desses uma leitora me escreveu um e-mail simpático, dizendo que havia lido ou escutado em algum lugar uma coisa que ela achava que fazia sentido: “O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada, o tempo apenas tira o incurável do centro das atenções”. Faz, sim, todo o sentido. Na hora da saudade, da tristeza, do desamparo, é com ele que contamos: o tempo. Queremos dormir e acordar dez anos depois curados daquela idéia fixa que se instalou no peito, aquela obsessão por alguém que já partiu de nossas vidas. No entanto, tudo o que nos invadiu com intensidade, tudo o que foi realmente verdadeiro e vivenciado profundamente, não passa. Fica. Acomoda-se dentro da gente e de vez em quando cutuca, se mexe, nos faz lembrar da sua existência. O grande segredo é não se estressar com este inquilino incômodo, deixá-lo em paz no quartinho dos fundos e abrir espaço na casa para outros acontecimentos. Nossas atenções precisam ser redirecionadas. Ficar olhando antigas fotos, relendo antigas cartas ou lembrando antigas cenas é tirar a dor do quarto dos fundos e trazê-la para o meio da sala. Evite. O tempo só será generoso na medida que você usá-lo para fazer coisas mais produtivas: procurar amigos sumidos, praticar um esporte, retomar um projeto adiado, viajar. As atenções têm que estar voltadas para os lados e para frente. O quartinho dos fundos tem que ficar fechado uns tempos, a dor mantida em cativeiro, sem ser alimentada. Amores passados contentam-se com migalhas e sobrevivem muito: ajude-se, negando-lhe qualquer banquete. A fartura agora tem que ser de vida nova. Marta Medeiros
A SIMPLIFICAÇÃO DA VIDA (de Thomas Kelly - A Testament of Devotion - Nova Iorque: Harper and Brothers, 1941) O problema que examinaremos hoje carece de pouca introdução. Nossas vidas na cidade moderna tornam-se demasiado complexas e cheias. Mesmo as obrigações que consideramos absolutamente necessárias, aumentam a cada dia, e quando percebemos, já estamos sobrecarregados de reuniões, cansados e apressados, cumprindo ofegantes uma roda viva de compromissos. Somos muito ocupados para sermos boas esposas para nossos maridos, bons maridos para nossas esposas, bons pais para nossos filhos, e bons amigos para os nossos amigos, e não temos tempo algum para sermos amigos daqueles que não tem amigos. Mas se nos retiramos desses compromissos para passarmos algumas horas com a família, as responsabilidades da cidadania sussurram no nosso ouvido e perturbam o nosso sossego. As escolas dos nosso filhos exigem o nosso interesse, os problemas da comunidade merecem nossa atenção; as questões mais amplas da nação e do mundo pesam sobre nós. Nosso status profissional, obrigações sociais, participação em tal ou qual organização muito importante - tudo isso reivindica nosso tempo. Com uma finalidade frenética, tentamos cumprir o mínimo aceitável de compromissos, mas vivemos esgotados e exaustos. Reconhecemos e lamentamos o fato de que nossa vida está se esvaindo, dando-nos tão pouco da Paz, gozo e serenidade que pensamos que deverá proporcionar a uma alma superior. Os momentos para as profundezas do silêncio do coração parecem tão raros. Com uma tristeza culposa adiamos para a semana que vem aquela vida mais profunda de serenidade inabalável na Santa Presença, onde sabemos que está o nosso verdadeiro lar, porque esta semana está muito cheia. Mas não devemos desperdiçar tempo numa mera descrição do problema. E, embora todos gostemos de ter piedade de nós mesmos, não devemos ficar apenas lamentando a pobreza da nossa vida causada pela superabundância de oportunidades. Nem tão pouco devemos nos agarrar apressadamente a uma solução, num impulso de fazer com que, hoje pelo menos, tenhamos algum progresso a mostrar. Podar e aparar é preciso, mas não com precipitação, antes de procedermos a um exame da árvore que podamos, do ambiente em que ela vive, e da seiva que a alimenta. Sugiro, em primeiro lugar, que estamos dando uma explicação falsa da complexidade de nossas vidas. Culpamos o ambiente complexo. Nossa vida complexa, dizemos, é devido ao mundo complexo em que vivemos, que nos proporciona mais estímulos por hora que os nossos avós recebiam por dia. Essa explicação em termos de ordem exterior nos leva às vezes a ansiar pela vida de uma tranqüila ilha do Pacífico, ou então pela existência lenta e bucólica dos nosso bisavós. Mas posso assegurar-lhe: experimentei por um ano a vida de uma ilha do Pacífico, e descobri que os ocidentais levam para lá a mesma existência impulsiva e febril que já possuíam. A complexidade do nosso programa não é devido à complexidade do nosso ambiente, e nem à simplificação da vida seguirá a simplificação do ambiente. Confesso que sofri terrivelmente naquele ano no Havai, porque em alguns aspectos o ambiente era simples demais. Nós ocidentais tendemos a pensar que nossos problemas são externos, ambientais. Não somos experimentados na vida interior, onde estão as verdadeiras raízes do nosso problema. Quero sugerir que a real explicação para a complexidade do nosso programa seja interior e não exterior. As distrações exteriores dos nossos interesses refletem a falta interior de integração das nossas vidas. Queremos ser vários egos ao mesmo tempo, sem que todos esses egos estejam organizados por uma única e soberana Vida dentro de nós. Todos nós temos a tendência de ser, não um único ego, mas todo um comitê de egos. Há o ego cívico, o ego paterno, o ego financeiro, o ego religioso, o ego profissional, e ego literário. E cada um desses egos, por sua vez é um franco individualista, não cooperando, mas votando aos berros em si mesmo quando chega a hora da votação. Muitas vezes seguimos o método eleitoral para chegar a uma rápida decisão entre as nossas vozes interiores conflitantes. É como se tivéssemos um presidente do comitê, que não integra os muitos egos, mas apenas conta os votos e deixa minorias descontentes. As reclamações de cada ego deixam de ser feitas. Se aceitamos servir na comissão de uma obra social, continuamos sentir remorso por não podermos também ensinar na Igreja. Não somos integrados: somos angustiados. Sentimos o clamor de muitas obrigações e tentamos cumpri-las todas. E, no entanto, somos infelizes, receosos, tensos e oprimidos, com medo de sermos superficiais. Pois, desde além das margens da vida vem um sussurro, um apelo indistinto, um presságio de uma vida rica que estamos deixando escapar. Contorcidos pelo ritmo louco dos nossos afazeres, somos ainda por cima incomodados por uma inquietação interior, pois não deixamos de receber intimações da existência de um estilo de vida muito mais rico e profundo do que toda nossa pressa, uma vida de serenidade, paz e poder. Ah! Se pudéssemos descobrir o silêncio que é a fonte do som! Conhecermos algumas pessoas que parecem ter descoberto esse Centro profundo, onde os clamores insistentes da vida são integrados, onde o “não”, tanto quanto o “sim” podem ser ditos com confiança. Já vimos vidas assim, integradas, tranqüilas no meio de decisões difíceis, vida alegres, vigorosas, positivas. Não são pessoas preguiçosas ou vadias, nem obviamente absortas em profundas meditações; estão carregando um fardo tão pesado quanto o nosso, mas com um passo leve, sem abatimento nem irritação. Sua vida cotidiana é cercada por uma auréola de infinita paz, poder e júbilo. Nós somos tão tensos e inquietos; eles tão equilibrados e em paz. Se a sociedade de Amigos (os Quakers) tem algo a dizer, é principalmente nesta área. A vida deve ser vivida a partir de um Centro, o Centro Divino. Cada um de nós é capaz de viver uma vida de estupendo poder e paz e serenidade, de integração e confiança e multiplicidade simplificada sob uma condição: que realmente queiramos isto. Há em todos nós um abismo divino, cum Centro infinito, um coração, uma Vida que fala em nós e através de nós para o mundo. Todos já ouvimos este sussurro Santo. As vezes, seguimos o sussurro, e produz-se em nós um espantoso equilíbrio de vida, uma estupenda eficácia. Mas muitos de nós atendemos a esta voz apenas esporadicamente. Só de vez em quando submetemo-nos à sua santa orientação. Não temos considerado esta coisa santa em nós como a coisa mais preciosa do mundo. Não temos aberto mão de tudo mais, para atendermos a ela somente. Repito: a maioria de nós não tem abandonado todas as outras coisas para poder atender ao Santo que está em nós. John Woolman (alfaiate Quacker do século XVIII, cujo diário é um clássico da espiritualidade) o fez. Ele resolveu organizar seus afazeres exteriores de tal modo que pudesse estar, a cada momento, atento àquela voz. Simplificou sua vida à base de sua relação com o Centro divino. Nada mais valia tanto quanto a atenção à Raiz de todo viver que ele descobria dentro de si mesmo. E a descoberta Quacker é justamente esta: os sussurros de orientação, amor e presença divinos, mais preciosos que o céu e terra. John Woolman nunca permitiu que as exigências do seu negócio ultrapassassem suas necessidades reais. Quando vinham muitos clientes, ele os mandava para outro lugar, para comerciantes e alfaiates mais necessitados. Sua vida exterior tornou-se simplificada à base de uma integração interior. Descobriu que podemos ser homens e mulheres guiados pelo céu, e se rendeu completamente, sem reservas àquela orientação, tornado-se aquecido e próximo ao Centro. Eu disse que sua vida exterior tornou-se simplificada, e usei de propósito a voz passiva. Ele não precisou lutar e renunciar e se esforçar para alcançar a simplicidade. Ele rendeu-se ao Centro, e sua vida tornou-se simples. Era sinótico; tinha singeleza de visão. “Se o teu olho for singelo, todo o corpo ser cheio de luz”. Seus muitos egos integravam-se num só ego verdadeiro, cujo único objetivo era de andar humildemente na presença, orientação e vontade de Deus. Nada de derrota eleitoral de uma minoria de egos descontentes. Era como se houvesse nele um presidente que no silêncio solene da interioridade, percebia o consenso da reunião. Eu direi que o método Quacker de conduzir as reuniões administrativas aplica-se também, individualmente às nossas vidas interiores. O Santo observava, na vida interior de John Woolman, como fez Jesus quando observou as pessoas colocando suas ofertas na tesouraria. E debaixo do olhar silencioso daquele que é Santo estamos todos, quer o saibamos, quer não. No centro, no abismo onde habita o Eterno no fundo do nosso ser nossos programas, doações e oferenda de tarefas realizadas estão sendo constantemente reavaliadas. Não conseguíamos dizer “não” a eles, porque pareciam tão importantes. Mas se centrarmo-nos e vivermos no Silencio que é mais precioso do que a vida, e levarmos o nosso programa para os lugares silenciosos do coração, com abertura total, prontos a fazer ou renunciar segundo a Sua direção, muitas das coisas que fazemos perderão a sua importância. Eu gostaria de testificar isso, como experiência pessoal, fruto da graça. Essa reavaliação daquilo que fazemos ou tentamos fazer, é feita para nós, e aí sabemos o que fazer e que deixar de fazer. Quero falar com muita intimidade a seriedade a respeito daquele que é mais precioso do que a vida. Será que você realmente deseja viver sua vida, cada momento dela, na presença dele? Você o almeja, suspira por Ele? Ama sua presença? Cada gota do seu sangue o ama? Cada suspiro é uma oração, um louvor a Ele? Você canta e dança dentro de si mesmo, enquanto se regozija no amor dele? Está decidido a ser dele, e somente dele, andando a cada momento em santa obediência? Sei que estou falando como um evangelista dos velhos tempos, mas não posso me conter, nem posso ser correto e convencional. Já vivemos tempo demais sendo corretos e reprimidos. O gogo do amor de Deus, de nosso a mor a Deus e do amor dele a nós está queimando forte. “Amarás ao Senhor teu Deus com todo teu coração, alma, mente e força”. Amamos mesmo, de verdade? Das nossas mentes sai um fluxo de amor em direção a Deus, sempre, o dia todo? Intercalamos o nosso trabalho com orações e louvores a Ele? Vivemos firmes na paz de Deus, uma paz no fundo de nossa alma, onde não há mais tensão e Deus já é vencedor sobre o mundo e sobre nossas fraquezas? Esta vida, esta paz contínua, duradoura e infalível, este poder sereno, esta conquista interior sobre nós mesmos e conquista exterior sobre o mundo - tudo isso é para nós. É uma vida livre de tensão, ansiedade e pressa, porque algo da Paciência Cósmica de Deus nos é dado. Será que nossas vidas são inabaláveis, porque estamos plantados bem na rocha, enraizados e arraigados no amor de Deus? Este é o primeiro e o maior mandamento. Você quer viver numa presença divina tão estupenda que a vida seja transformada e transfigurada e transmudada em paz, poder, glória e milagre? Se quiser, pode. Mas se você disser que não tem tempo para descer aos silêncios recriadores, só posso responder: Então você não quer realmente, você ainda não ama a Deus sobre tudo mais no mundo, com todo seu coração, alma, mente e força. Porque, exceção feita a tempos de doença na família e quando os filhos são pequenos, quando estamos sob grandes pressões, acabamos descobrindo tempo para aquilo que realmente queremos fazer. Desejo ser drástico e impiedoso em desmascara qualquer fingimento na questão da devoção e singeleza de amor a Deus. Mas devo confessar que não leva tempo, nem complica seu programa. Tenho descoberto que uma vida de sussurros de adoração, de louvor e de oração pode permear o dia. É possível ter um dia muito cheio, no sentido exterior, e mesmo assim estar continuamente na Santa Presença. Precisamos, isto sim, e uma tranqüila meia hora ou hora de leitura e reflexão. Mas podemos levar os silêncios recriadores dentro de nós, quase o tempo todo. Com alegria leio o irmão Lawrence (irmão leigo francês do século XVIII), na sua “Prática da Presença de Deus”. No final da quarta conversação, diz-se dele: “Nunca estava apressado nem ocioso, mas fazia tudo a seu tempo, com uma serenidade ininterrupta e espírito tranqüilo”. A hora de negócios, diz ele, para mim não difere da hora de oração, e no barulho e tinido de minha cozinha, com várias pessoas pedindo coisas ao mesmo tempo, possuo a Deus com a mesma tranqüilidade, como se estivesse ajoelhado recebendo o sacramento. “A verdadeira razão de não recolhermo-nos, não centrarmo-nos, não é falta de tempo; em muitos de nós, ao que me parece, é a falta de um prazer entusiasta nele, de um profundo amor dirigido a Ele em todo momento do dia e da noite. Deve ficar claro que estou falando de um estilo revolucionário de viver. A religião não é algo que acrescentamos às nossas outras tarefas, assim tornando ainda mais complexas as nossas vidas. A vida com Deus é o Centro da Vida, e tudo mais é remoldado e integrado de acordo. É isso que dá singeleza de visão. O mais importante não é estar sempre passando copos de á grua fria para um mundo sedento. É possível estarmos tão ocupados tentando cumprir o segundo grande mandamento, “Amarás a teu próximo como a ti mesmo”, que ficamos sub-desenvolvidos na nossa devoção a Deus. Mas, temos que amar a Deus tanto quanto ao próximo. Estas coisas deveríamos fazer sem deixar a outra pela metade. Há um estilo de vida tão oculto com Cristo em Deus que, em meio dos afazeres do dia, podemos elevar interiormente breves orações de louvor, sussurros de adoração e amor ao além que está dentro de nós. Ninguém precisa saber. É possível viver um estado quase contínuo de oração silenciosa, orações com respeito a Deus ou com respeito a pessoas e empreendimento que estão no nosso coração. Nada de pressa; é uma vida indizível e cheia de glória, um mundo interior de glória, um mundo interior de esplendor o qual, embora indignos, podemos viver. Alguns de vocês o conhecem e vivem nele; outros ardentemente o desejam; pode ser seu. Deste centro Santo vêm os encargos da vida. Nossa comunhão com Deus desemboca numa preocupação mundial. Não podemos guardar o amor de Deus só para nós mesmos. Transborda, nos aviva, nos faz ver novamente as necessidades do mundo. Amamos as pessoas e ficamos aflitos de vê-las cegas quando poderiam estar acordados e vivendo sacrificialmente; aceitando os bens do mundo como seu direito quando, na realidade, lhes foram apenas confiados temporariamente. “A maior necessidade dos homens não é comida, roupa e abrigo, embora todas estas coisas sejam importantes. É Deus. Equivocamo-nos quanto à natureza da pobreza, achando que é econômica. Não, é pobreza de alma, da privação da paz recriadora de Deus. Nossos esquemas de salvação econômica não atingem as necessidade mais profundas. São importantes, mas constituem num segundo passo no caminho da reconstrução mundial. O primeiro passo é um vida santa, transformada e radiante da glória de Deus. Este amor pelas pessoas é quase tão estupendo quanto o amor a Deus. Queremos ajudar as pessoas porque temos pena delas, ou porque realmente as amamos? O mundo precisa de algo mais profundo do que a pena, precisa de amor. (Quão banal esta frase, mas quão verdadeira!) Mas no nosso amor às pessoas, seremos apressados englobando todos os homens e tarefas na nossa preocupação amorosa? Não, esta é a função de Deus. Mas ele, operando em nós, divide a sua preocupação vasta e dá a cada um de nós a porção devida. Esta se torna a nossa tarefa. A vida do Centro é uma vida dirigida do céu. Boa parte da nossa aceitação de uma multidão de obrigações é devido à nossa incapacidade de dizer “não”. Vemos que uma tarefa precisa ser feita e não há ninguém para fazê-la. Calculamos o nosso tempo e decidimos que talvez dê para incluí-la. Mas a decisão parte da cabeça, não do santuário da alma. Quando dizemos “sim” ou “não” nessa base, temos que dar razões, para nós mesmos e para os outros. Mas quando dizemos “sim” ou “não” à base da orientação interior e sussurros de incentivo do Centro, ou então à base da ausência de qualquer “elevação” interior da vida para nos encorajar, não temos razões para dar, menos uma - a vontade de Deus como nós a discernimos. Aí começamos a viver sob a orientação divina. E tenho descoberto que Ele nunca nos guia a viver num frenesi intolerável. a paciência, pois Deus está operando no mundo. Não trabalhamos sozinhos no mundo. Tentando terminar desesperadamente uma obra para ofertar a Deus. A vida do Centro é de paz e poder. É simples. É serena. É triunfante. É radiante. Não ocupa tempo algum, mas ocupa o nosso tempo todo. Renova nossos programas. Não precisamos ficar frenéticos; ele é o timoneiro. E quando termina o nosso pequeno dia, deitamos em paz, pois tudo vai bem. Curitiba, verão de 1997.

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