5.8.02
Pássaro Encantado
Era uma vez uma menina que tinha como seu melhor amigo, um Pássaro Encantado. Ele era encantado
por duas razões. Primeiro porque ele não vivia em gaiolas. Vivia solto. Vinha quando queria. Vinha
porque amava. Segundo, porque sempre que voltava suas penas tinham cores diferentes, as cores dos
lugares por onde tinha voado. Certa vez voltou com penas imaculadamente brancas, e ele contou
estórias de montanhas cobertas de neve. Outra vez suas penas estavam vermelhas, e ele contou
estórias de desertos incendiados pelo sol. Era grande a felicidade quando estavam juntos. Mas sempre
chegava o momento quando o pássaro dizia: "Tenho de partir." A menina chorava e implorava: "Por
favor não vá fico tão triste. Terei saudades e vou chorar..."
"Eu também terei saudades", dizia o pássaro. "Eu também vou chorar. Mas vou lhe contar um segredo:
eu só sou encantado por causa da saudade que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu
não for não haverá saudade. E eu deixarei de ser o Pássaro Encantado e você deixará de me amar."
E partia. A menina sozinha, chorava. E foi numa noite de saudade que ela teve a idéia: "Se o Pássaro
não puder partir, ele ficará. Se ele ficar, seremos felizes para sempre. E para ele não partir basta que eu
o prenda numa gaiola."
Assim aconteceu. A menina comprou uma gaiola de prata, a mais linda.
Quando o pássaro voltou eles se abraçaram, ele contou estórias e adormeceu. A menina,
aproveitando-se do seu sono, o engaiolou. Quando o pássaro acordou ele deu um grito de dor.
"Ah! Menina...que é isso que você fez? Quebrou-se o encanto. Minhas penas ficarão feias e eu me
esquecerei das estórias. Sem a saudade o amor irá embora..."
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por acostumar.
Mas não foi isso que aconteceu. Caíram suas plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis
das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar. Também a menina
se entristeceu.
Não era aquele o pássaro que ela amava. E de noite chorava pensando naquilo que havia feito com seu
amigo...
Até que não mais agüentou. Abriu a porta da gaiola. "Pode ir, Pássaro", ela disse." Volte quando você
quiser..."
"Obrigado, menina", disse o Pássaro. "Irei e voltarei quando ficar encantado de novo. E você sabe:
ficarei encantado de novo, quando a saudade voltar dentro de mim e dentro de você!
Rubem