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30.11.03

Guimarães Rosa 

"O senhor... Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão".

Martha Medeiros... 

O Medo do Amor 24 de novembro de 2003 Medo de amar? Parece absurdo, com tantos outros medos que temos que enfrentar: medo da violência, medo da inadimplência, e a não menos temida solidão, que é o que nos faz buscar relacionamentos. Mas absurdo ou não, o medo de amar se instala entre as nossas vértebras e a gente sabe por quê. O amor, tão nobre, tão denso, tão intenso, acaba. Rasga a gente por dentro, faz um corte profundo que vai do peito até a virilha, o amor se encerra bruscamente porque de repente uma terceira pessoa surgiu ou simplesmente porque não há mais interesse ou atração, sei lá, vá saber o que interrompe um sentimento, é mistério indecifrável. Mas o amor termina, mal-agradecido, termina, e termina só de um lado, nunca se encerra em dois corações ao mesmo tempo, desacelera um antes do outro, e vai um pouco de dor pra cada canto. Dói em quem tomou a iniciativa de romper, porque romper não é fácil, quebrar rotinas é sempre traumático. Além do amor existe a amizade que permanece e a presença com que se acostuma, romper um amor não é bobagem, é fato de grande responsabilidade, é uma ferida que se abre no corpo do outro, no afeto do outro, e em si próprio, ainda que com menos gravidade. E ter o amor rejeitado, nem se fala, é fratura exposta, definhamos em público, encolhemos a alma, quase desejamos uma violência qualquer vinda da rua para esquecermos dessa violência vinda do tempo gasto e vivido, esse assalto em que nos roubaram tudo, o amor e o que vem com ele, confiança e estabilidade. Sem o amor, nada resta, a crença se desfaz, o romantismo perde o sentido, músicas idiotas nos fazem chorar dentro do carro. Passa a dor do amor, vem a trégua, o coração limpo de novo, os olhos novamente secos, a boca vazia. Nada de bom está acontecendo, mas também nada de ruim. Um novo amor? Nem pensar. Medo, respondemos. Que corajosos somos nós, que apesar de um medo tão justificado, amamos outra vez e todas as vezes que o amor nos chama, fingindo um pouco de resistência mas sabendo que para sempre é impossível recusá-lo.

23.11.03

Ola !! Como Vai ? 

Sinal Fechado (Paulinho da Viola) Olá, como vai Eu vou indo e você, tudo bem? Tudo bem, eu vou indo, correndo Pegar meu lugar no futuro, e você? Tudo bem, eu vou indo em busca De um sono tranqüilo, quem sabe? Quanto tempo... Pois é, quanto tempo... Me perdoe a pressa É a alma dos nossos negócios... Qual, não tem de que Eu também só ando a cem Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí Pra semana, prometo, talvez Nos vejamos, quem sabe? Quanto tempo... Pois é, quanto tempo... Tanto coisa que eu tinha a dizer Mas eu sumi na poeira das ruas Eu também tenho algo a dizer Mas me foge a lembrança Por favor, telefone, eu preciso Beber alguma coisa rapidamente Pra semana... O sinal... Eu procuro você... Vai abrir!!! Vai abrir!!! Eu prometo, não esqueço, não esqueço Por favor, não esqueça Adeus... Adeus...

20.11.03

Celebração 

Hum! Deus fará Absurdos Contanto que a vida Seja assim Sim Um altar Onde a gente celebre Tudo o que Ele consentir Estrela Gilberto Gil

Relendo meu Blog :) 

"A alegria íntima de quem se levanta cedo, faz exercícios e chega na hora certa aos compromissos assumidos é algo que não pode ser subestimado. Sentimo-nos fortes quando conseguimos nos controlar – coisa muito difícil. Sentimos que vencemos a batalha mais árdua: a interior. A auto-estima cresce."

Mônica Salmaso 

Estou descobrindo a Mônica..., fui num show dela nesta ultima sexta e adorei... segue algumas letras que gostei do CD dela... Canto em Qualquer Canto (Ná Ozzetti e Itamar Assumpção) Vim cantar sobre essa terra Antes de mais nada, aviso Trago facão, paixão crua E bons rocks no arquivo Tem gente que pira e berra Eu já canto, pio e silvo Se fosse minha essa rua O pé de ypê tava vivo Pro topo daquela serra Vamos nós dois, vídeo e livros Vou ficar na minha e sua Isso é mais que bom motivo Gorjearei pela terra Para dar e ter alívio Gorjeando eu fico nua Entre o choro e o riso Pintassilga, pomba, melroa Águia lá do paraíso Passarim, mundo da lua Quando não trino, não sirvo Caso a bela com a fera Canto porque é preciso Porque esta vida é árdua Pra não perder o juízo Senhorinha (Guinga e Paulo César Pinheiro) Senhorinha Moça de fazenda antiga, prenda minha Gosta de passear de chapéu, sombrinha Como quem fugiu de uma modinha Sinhazinha No balanço da cadeira de palhinha Gosta de trançar seu retrós de linha Como quem parece que adivinha (amor) Será que ela quer casar Será que eu vou casar com ela Será que vai ser numa capela De casa de andorinha Princesinha Moça dos contos de amor da carochinha Gosta de brincar de fada-madrinha Como quem quer ser minha rainha Sinhá mocinha Com seu brinco e seu colar de água-marinha Gosta de me olhar da casa vizinha Como quem me quer na camarinha (amor) Será que eu vou subir no altar Será que irei nos braços dela Será que vai ser essa donzela A musa desse trovador Ó prenda minha Ó meu amor Se torne a minha senhorinha Valsinha. (Vinicius de Moraes/ Chico Buarque). Um dia ele chegou tão diferente Do seu jeito de sempre chegar, Olhou-a dum jeito muito mais quente Do que sempre costumava olhar, E não maldisse a vida tanto Quanto era seu jeito de sempre falar, E nem deixou-a só num canto, Pra seu grande espanto Convidou-a pra rodar. Então ela se fez bonita Como há muito tempo não queria ousar, Com seu vestido decotado, Cheirando a guardado de tanto esperar. Depois os dois deram-se os braços Como há muito tempo não se usava dar E cheios de ternura e graça Foram para a praça E começaram a se abraçar. E ali dançaram tanta dança Que a vizinhança toda despertou E foi tanta felicidade Que toda a cidade se iluminou. E foram tantos beijos loucos, Tantos gritos roucos Como não se ouvia mais, Que o mundo compreendeu E o dia amanheceu Em paz. Ps Se alguem se interessar achei uma analise desta letra http://www.mundocultural.com.br/analise/valsinha.PDF

14.11.03

Complicado.... Alo?? Alguem no governo pra ouvir isso ??? 

Em foco: Gustavo Franco Precariedade tributária "Melhor não confundir informalidade com ilegalidade, sendo esse um pequeno tributo que o vício paga à virtude" Os economistas de esquerda usam muito a expressão "precariedade" para se referir às relações de trabalho que não estão totalmente de acordo com as leis trabalhistas: carteira assinada, encargos, benefícios, garantias e formalidades atendidas. À precariedade levada ao limite se dá o nome de "informalidade", uma distorção antiga e conhecida no mundo do trabalho e decorrente, como é bem sabido, do alto custo do emprego dito formal quando visto do ponto de vista dos empregadores. Tenho certeza de que isso não é novidade para o leitor. O que é menos observado é que o mesmo fenômeno vem ocorrendo crescentemente no tocante a tributos. Com a passagem do tempo, nosso sistema tributário adquiriu tal complexidade, e tamanho peso, especialmente quando se trata de impostos sobre o faturamento, que aumenta a cada "pacote" o tamanho da "precariedade" tributária. Mais e mais empresas, especialmente pequenas e médias, desistem ou não conseguem mais manter uma vida tributária livre de alguma "precariedade" e, em grau variável, experimentam o que já foi descrito pelo economista Pedro Bodin como uma "favelização tributária"¹. Tudo começa com uma empresa sem fôlego, ou iniciante, que faz um "puxadinho tributário" aqui, outro lá, seja porque errou, seja porque estava necessitada, seja porque um pacote tributário a pegou de través, e, como a concorrência faz igual ou pior, percebe que não há condição de competir e simultaneamente manter comportamento exemplar diante do Fisco. O casebre vira barraco, que logo traz outro e mais outro, e subitamente se criou uma favelinha, uma pequena comunidade "precária", na verdade muitas delas, em toda parte. Parece reproduzir-se no mundo dos tributos o mesmo que se passa no mundo do trabalho: um setor "formal", integrado por poucas e grandes empresas com capacidade para viver em paz com o Fisco, pois têm a escala para suportar os custos fixos elevados de sua "administração tributária", e o resto, a imensa maioria, congregando empresas que, em grau variável, têm "pendências", dificuldades, má vontade, ou que, depois do primeiro erro, não conseguem mais retornar à virtude em matéria de impostos. O fato é que essa situação estaria a indicar que algo de muito errado se passa com nosso sistema tributário. No mundo do trabalho, a precariedade é amplamente tolerada, inclusive admitida explicitamente em estatísticas do IBGE que nos dizem que mais de um terço do emprego é "informal" e outro tanto é "por conta própria", ou seja, uns 60% de "trabalho precário", proporção que é muito maior no setor de serviços, em que está a maior parte do emprego. No mundo do trabalho, o poder público tem pouca capacidade de interferir quando as partes concordam em constituir uma relação de trabalho "precária". Ambas fazem economia, o trabalhador abre mão de direitos e recebe um emprego que de outra forma não existiria, e os encargos não são pagos. Se o governo interferir, vai multar a empresa, gerar um problema na Justiça do Trabalho e destruir postos de trabalho. Melhor não confundir informalidade com ilegalidade, sendo esse um pequeno tributo que o vício paga à virtude. No mundo dos tributos, o poder público é bem mais diretamente prejudicado quando se constituem relações "precárias" no setor privado, pois a resultante é perda de arrecadação. O Fisco não pode deixar de interferir e, ao fazê-lo, praticamente extingue as empresas transgressoras. A pequena empresa informal e lucrativa precisa ficar "abaixo do radar" e está condenada a não crescer, porque se o fizer se tornará visível e vulnerável. Cresce a favela e desaparece a média empresa. O sistema precisaria caminhar para uma simplificação não menos que brutal, mudar sua natureza, mas infelizmente não é essa a filosofia da chamada "reforma tributária", e menos ainda do "pacote" mais recente, que modificou a Cofins, que avança de forma notável no sentido de favelizar o setor de serviços, em que estão dois terços do emprego. ¹"Favelização da indústria", O Estado de S. Paulo, 2/5/03.

10.11.03

Cafe com queijo 

Uma peça maravilhosa, que volta e meia apresentam em Campinas, é imperdivel.... CAFÉ COM QUEIJO Café com queijo ralado: bebida típica oferecida às visitas por Dona Angélica e Seu Justino, moradores da pequena cidade de Paranã - Tocantins. Aguçando o sabor da bebida e daquele encontro inusitado, Seu Justino pegou sua empoeirada sanfona (há anos guardada) e de seu fole furado fez soarem versos como “Deus fez o orvalho, a lágrima das flores...”, enquanto Dona Angélica humildemente nos revelava sua tristeza pela perda de diversos filhos, ao longo de uma vida de lutas e sofrimentos. Diferentes contextos, tons, músicas, temperos, mas a mesma força, guiaram as experiências vividas pelos atores em suas andanças nos estados de Goiás, Tocantins, Minas Gerais, Amazonas, Pará e São Paulo: Seu Mata-Onça nos ensina a curar a malária através de uma receita caseira; Dona Maria Fernandes mostra a dor da perda da identidade de seu povo, os índios dessanos; Seu Teotônio revela sua solidão através de suas alegrias; Dona Maroquinha mora “sozinha e Deus Nossa Senhora” na pequena casa de bonecas perto da Igreja de Sto. Ângelo; além de muitos, muitos outros encontros. Quem são essas pessoas que têm a força das grandes árvores seculares, cobertas de musgos, espirrando vida e sabedoria por todos os poros? Por que eles nos arrebatam e nos transportam a outros tempos e espaços perdidos dentro de nós mesmos? Como uma imensa colcha de retalhos, “Café com Queijo” reúne vivências e faces de pessoas que nos colocam defronte a diversas realidades contidas em um mesmo Brasil. Elas contam, cantam e encantam-nos com suas histórias.

6.11.03

Dave Mattews - The stone 

I've this creeping Suspicion that things are not as they seem Reassure me Why do I feel as if I'm in too deep I've been praying For some way to show them I'm not what they see Yes I have done wrong But what I did I thought needed be done I swear Unholy day If I leave now I might get away This weighs on me As heavy as stone and as blue as I go I was just wondering if you'd come along To hold up my head when my head won't hold on I'll do the same if the same's what you want If not I'll go I will go alone I'm a long way From that fool's mistake and now forever pay No, run I will run and I'll be ok I was just wondering if you'd come along To hold up my head when my head won't hold on I'll do the same if the same's what you want If not I'll go I will go alone I need so To stay in your arms see you smile hold you close And it weighs on me As heavy as stone and a bone chilling cold I was just wondering if you'd come along Tell me you will

Viva o Bush !!!! :) 

Diogo Mainardi A boa surra americana "O fato mais relevante para os iraquianos é o fim de Saddam Hussein. É o que de melhor poderia ter acontecido a eles. Até a resistência contra os americanos é boa para o Iraque. É dali que surgirá sua nova classe dirigente" Os iraquianos tiveram sorte. Só um presidente suicida como Bush poderia ter entrado numa guerra dessas. A guerra foi ruim para os americanos e boa para os iraquianos. Exatamente do mesmo jeito que a Guerra das Malvinas foi boa para os argentinos. Podem falar mal de Bush. Podem falar mal da Thatcher. Porcos imperialistas? Claro. Arrogantes? Certamente. Criminosos? E daí? O que importa é que os Estados Unidos deram uma surra no Iraque, assim como a Inglaterra deu uma surra na Argentina. E, com a surra, Iraque e Argentina conseguiram enterrar suas sangrentas ditaduras militares. Ponto para Bush. Ponto para a Thatcher. Estátuas para eles. Estátuas em Bagdá e em Buenos Aires, não em Washington ou em Londres. O argumento é um pouco simplista, concordo. Ignora o sofrimento de quem perdeu seus familiares. Ignora as mentiras de Bush. Ignora os interesses das companhias que financiaram sua campanha eleitoral. Considerando todos os fatores, porém, o fato mais relevante para os iraquianos é o fim de Saddam Hussein. É o que de melhor poderia ter acontecido a eles. Até a resistência armada contra os americanos é boa para o Iraque. É dali que surgirá sua nova classe dirigente. Como na Argélia. Cada recruta americano que morre sedimenta um pouco mais a nação. Espero que Bush seja reeleito e cumpra seu dever de reconstruir o que ajudou a destruir, ainda que isso aumente o buraco financeiro americano. O Partido Democrata é bastante ambíguo nesse ponto. A maioria de seus deputados quer dar um calote no Iraque, embora quase todos tenham apoiado a guerra. Os eleitores não aceitam que o dinheiro de seus impostos seja aplicado em escolas e centrais elétricas de um país estrangeiro. Como assim? Destruíram? Agora reconstruam. Minha previsão é que Bush será reeleito no ano que vem e, por causa do elevado custo da aventura iraquiana, sairá da Casa Branca em 2008 como o presidente mais impopular da história....

Da pra entender ??? 

O Muro da Vergonha o retorno Ironia das ironias: é por iniciativa de Israel, com o apoio dos EUA, que o sinistro adereço volta à cena A Assembléia-Geral das Nações Unidas aprovou na semana passada, por 144 votos a 4, resolução que condena Israel pela iniciativa de construir um muro separando seu território dos territórios palestinos. Primeiro aspecto a destacar é o resultado da votação, 144 contra 4 – placar de jogo entre time de basquete americano e o Íbis, o clube pernambucano que, se tem o pior time de futebol do mundo, conforme alardeia, há de ter também o pior time de basquete. Segundo aspecto é a identidade dos quatro que votaram contra. Entre eles estavam, naturalmente, o próprio Israel e seu aliado e patrocinador, os Estados Unidos. Os outros dois chamam mais a atenção: Ilhas Marshall e Micronésia. Sim, nada menos que as portentosas Ilhas Marshall (população: 52 mil habitantes) e Micronésia (população: 540 mil habitantes). O fato de Israel e EUA não terem encontrado para a ocasião outros aliados senão os governos de Dalap-Uliga-Darrit (a capital das Ilhas Marshall) e de Palikir (capital da Micronésia) diz algo da popularidade de sua causa. Terceiro aspecto da questão é o valor efetivo da resolução, que o leitor já sabe qual é: zero. O vice-primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, ao lhe perguntarem se seu país cumpriria a determinação da assembléia-geral, respondeu: "Vocês têm senso de humor..." Claro que Israel continuará a construir o muro. Uma resolução da assembléia-geral desse teor, para ser efetiva, precisaria ser aprovada pelo Conselho de Segurança. Ora, no Conselho de Segurança os EUA têm poder de veto. Mesmo que, por absurdo, os americanos deixassem a resolução passar, ainda assim, pode-se apostar, Israel não obedeceria. Resoluções do Conselho contra Israel foram desobedecidas no passado. E assim, até onde a vista alcança, pode-se prever um futuro sem impedimentos ao muro concebido por esse campeão da truculência, entre os líderes contemporâneos, que é o primeiro-ministro israelense Ariel Sharon – um muro cuja construção avança, de concreto em alguns pontos, em outros substituído por cercas de arame farpado, freqüentemente invadindo o que em tese é território palestino, às vezes separando as pessoas do hospital mais próximo, outras seu lugar de residência do local de trabalho. Logo Israel foi fazer um muro, e logo os EUA foram apoiá-lo nessa empreitada! Eis aí uma escandalosa ironia da história. Muro é algo associado a gueto – o espaço delimitado onde, como bois num curral, os judeus eram confinados, em diferentes cidades, por imposição do anti-semitismo que reinou ao longo de tantos séculos de estupidez. Quem viu o mais recente filme de Roman Polanski, O Pianista, teve noção viva do que era o gueto, expressão mais física possível de discriminação e sede de crueldades inomináveis – bem como do muro que o continha. Há algo de indecoroso no fato de a idéia de muro, a sombria idéia de muro, que não pode deixar de estar presente nos recônditos mais sofridos da memória judaica, ter sido assacada como solução para os atuais problemas israelenses. Para quem ache forte demais o "indecoroso", desconte-se para "mau gosto". É no mínimo de mau gosto um líder judeu usar, contra outro povo, o recurso do confinamento, do isolamento, da proibição de passagem, da exclusão. Quanto aos EUA, comecemos por relativizar sua posição. Não é que apóiem abertamente o muro. O presidente George W. Bush já fez restrições à iniciativa. Mas, como sempre, quando se trata de Israel, as condenações americanas expressam-se de modo tão suave que soam antes a encorajamento. Na votação na assembléia da ONU, a empreitada israelense na prática acabou por receber o aval do governo americano. Eis então os EUA investidos da condição de defensores de um muro, eles que, até outro dia, e ao longo de todos os anos da Guerra Fria, foram o adversário número 1 do mais célebre muro então existente, o de Berlim, também chamado de Muro da Vergonha. "Ponham abaixo esse muro", dizia o presidente Ronald Reagan. Antes dele, e num dos momentos em que a Guerra Fria ameaçou virar guerra de verdade, talvez nuclear, envolvendo as duas superpotências do período, o presidente John Kennedy organizou uma ponte aérea para tirar Berlim do sufoco. Ironia suprema, os EUA agora são a favor de um muro. Restam duas constatações. A primeira é que muros, além de ignominiosos, não resolvem. O de Berlim veio abaixo como castelo de cartas. Muito antes a China construíra toda uma muralha e nem por isso deixou de ser um dos países mais invadidos e vilipendiados do mundo. A segunda constatação é que nem os israelenses acabarão com os palestinos nem os palestinos com os israelenses. Tampouco um conseguirá obrigar o outro a mudar para longe. Os dois estão condenados a conviver, e mais dia menos dia terão de se acertar para que isso transcorra de forma pacífica. Por que então não começar logo? Por que não erguer pontes, abrir portas e rasgar janelas, em vez de investir nesse mais sinistro dos adereços arquitetônicos, que é o muro?

3.11.03


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