27.1.04
Assistam... não recomendado para fãs holywoodianos...
Dogville
(Dogville, Dinamarca, Suécia, França, Noruega, Holanda, 2003)
sobre o filme
por Rubens Ewald Filho
O filme é assumidamente uma experiência, uma fita fora dos padrões tradicionais. Basicamente seria uma espécie de teatro filmado, só que com um roteiro original do diretor. Por sinal uma história excelente passada nos EUA, país que ele não conhece nem pretende conhecer, mesmo assim está situando a ação lá, numa cidadezinha das Montanhas Rochosas. Aliás, sua intenção é prosseguir sua experiência com mais dois filmes, se possível com o mesmo elenco, continuando a contar histórias semelhantes. A idéia foi rodar tudo em estúdio, onde foi montado um grande praticável, onde existe uma rua central de uma cidade chamada Dogville. Não há casas, apenas marcas no chão e alguns objetos de cena. Ou seja, tudo é muito radical, estilizado. Mas o curioso é que depois de certo tempo a gente até esquece que não tem as paredes e os objetos, acaba-se centrando no excelente elenco (poucos tem o que fazer, Lauren Bacall é dona de uma loja, o sueco Stella Skarsgard, um plantador de maçãs casado com Patricia Clarkson, Ben Gazzara é um cego, James Caan é o pai da heroína, Chloe Sevigny uma rival dela e assim por diante).
Mas a fita foi escrita especialmente para Nicole Kidman (que aos 36 anos continua linda e apareceu na entrevista coletiva com um charmoso óculos). Linda e boa atriz a danada. Ela faz tudo com enorme sinceridade e ajuda a segurar um projeto extremamente ousado. Ela faz a heroína, que é uma moça em fuga, perseguida pela polícia e o FBI, que consegue se refugiar numa cidadezinha com a ajuda de um rapaz (o inglês Paul Bettany, a figura imaginária de ''Uma Mente Brilhante''). A princípio eles são relutantes em aceitá-la (a fita é toda dividida em capítulos e cenas com interrupções, que acentuam ainda mais o lado teatral). Mas quando passa a lhes prestar serviços, vão mudando de idéia. Até quando mudam de idéia e passam a se aproveitar dela, de todas as maneiras, por vezes brutais (todos os homens a violentam com regularidade).
Como em outros filmes de Trier (''Ondas do Destino'' e ''Dançando no Escuro'') a mulher é uma vítima da sociedade e da maldade dos homens. Aliás, o filme dá uma visão pessimista (ou realista) do ser humano, que é maldoso, egoísta, estúpido e grosseiro. Ou brutal em seu egoísmo. Isso torna o filme penoso de se assistir. Confesso que estava me fazendo mal. Mas felizmente dessa vez, Trier permite que a personagem dê uma volta por cima, de uma forma satisfatória para a platéia (que não posso contar, logicamente, mas é um roteiro bem formulado e inteligente). O filme parece imbatível. Diretor famoso e importante, projeto original e ousado, elenco fantástico, Nicole maravilhosa (além de tudo a atriz do momento depois do Oscar).
16.1.04
Ninguem mais coça bicho de pé...
Vero
Natan Marques e Murilo Antunes
O que se vê é vero,
o teu sabor eu quero.
Mas nem só beleza eu vi.
O que se vê é vero,
o teu sabor eu quero.
Mas nem só beleza eu vi.
Vi cidades degradadas,
pessoas desamparadas
nas grades da solidão.
Fogo nos campos, nas matas.
Queima de arquivo nas praças.
Chovia nas ruas do meu coração.
O que se vê é vero,
o teu sabor eu quero.
Mas nem só beleza eu vi.
O que se vê é vero,
o teu sabor eu quero.
Mas nem só beleza eu vi.
Vi cidades turbulentas,
chacinas sanguinolentas.
Pensei que morava nas terras do mal.
Choro dos filhos, maldades.
Fora dos trilhos, cidades.
Pensei que sonhava e que tudo era real.
O que se vê é vero,
o teu sabor eu quero.
E a tua beleza eu vi.
O que se vê é vero,
o teu sabor eu quero.
E a tua beleza eu vi.
Vi uma estrela luzindo.
A minha porta bateu,
querendo me namorar.
Lua cheia clareava,
imaginei que sonhava
e era tudo real.
Ninguém mais coça bixo de pé.
Nem ninguém caça mais arrasta pé.
Vida é assim, é o que é.
Ninguem mais coça bicho de pé.
Nem ninguém mais caça arrasta pé.
Vida é assim... é o que é.
10.1.04
Ideia Muito Boa...
ATIVISMO
Guerrilha antipublicidade invade Metrô em Paris
Um forte movimento contra a propaganda está tomando de assalto os anúncios no Metrô parisiense, fazendo uma defesa do espaço público contra a mercantilização da vida. Sarcástica, inventiva e muito eficaz graças à Internet, essa guerrilha urbana sem líder pode se estender para outros países.
Selma Schnabel - 5/1/2004
Paris - No Metrô parisiense, grandes cruzes negras cobrem as marcas e os visuais publicitários. Desenhos, colagens, grafites e pichações recobrem inteiramente os aliciadores anúncios de Natal : “a publicidade é uma droga pesada”, “sirva-se, consuma, pague”, “mercadoria por toda parte, poesia em nenhuma”...Inicialmente pontuais, essas operações de contrapropaganda tornaram-se uma ação regular das noites de sexta-feira, em uma quinzena de estações do Metrô de Paris, convocadas pelo “Stopub”, um coletivo de organizações. Aquelas e aqueles que lutam atualmente contra o desmonte do serviço público na França – artistas, profissionais da saúde, professores e pesquisadores – recebem o reforço, nas noites de sexta, de centenas de “guerrilheiros urbanos” armados de sprays, latas de tinta e cartazes feitos em casa.
O objetivo é recobrir o máximo de cartazes publicitários em um movimento que reivindica a defesa do espaço e do tempo contra a invasão da propaganda. “Em face ao endurecimento da ofensiva capitalista, nós declaramos publicamente guerra contra esse novo tipo de totalitarismo e atacamos seu principal combustível: a publicidade”, anuncia um texto do “Stopub” que acusa a publicidade de invadir “nossos espaços públicos, a rua, a televisão, nossas roupas e nossos muros” e propõe a retomada do espaço público “através de um gesto coletivo e alegre de protesto”.
Um feliz bordel
Sexta-feira, 19 de dezembro, 19 horas. É a última operação antipub antes do Natal. De 400 a 500 ativistas se distribuem em 16 pontos de Paris, atendendo a uma convocação que circulou pela Internet. Duas semanas antes, eram mais de mil a se movimentar pelo subsolo da cidade. Denis, jornalista, cola dólares nos olhos de personagens de cartazes publicitários; Yves, técnico teatral, cola cartazes desejando “Feliz Bordel!” (contrapondo-se ao “Feliz Natal!” publicitário); Marc, engenheiro, se deixa inspirar por sua lata de tinta preta, e Emily por seu “branco de Espanha” - uma mistura de calcário e água – “para facilitar o trabalho daqueles que vão limpar as paredes depois”. Emily, que passa três horas por dia no Metrô, exulta : “eu esperava esse movimento há muito tempo; a publicidade desresponsabiliza as pessoas e as entorpece; em 1968, eles autorizaram o crédito e depois as pessoas permaneceram tranqüilas...é claro que elas não vão abandonar tudo isso assim, com dez anos de propaganda sobre as costas!”
Jovem decoradora, Emily age como franco-atiradora ao lado de Marie, ainda estudante. Em cinco minutos, elas redecoram uma estação de Metrô sob o olhar estupefato dos usuários da linha, em sua maioria já conquistados pela publicidade. “A pub é uma extorsão”, comenta um velho argelino, encorajando a ação das duas. Uma mulher as cumprimenta espontaneamente: “Bravo, continuem ! Minha filha tem 13 anos e luta para comprar roupas sem marca...Eles deveriam nos pagar para vestir roupas de marca e não o contrário; servimos de muro de propaganda, contra nossa vontade!” Às vezes, é a incompreensão que domina, como no caso de uma mulher da região das Antilhas para quem os “antipubs” zombam de sua “razão de viver”, ela que “vive para a publicidade e faz o que a publicidade lhe diz”. “Madame, não esqueça que é você que paga a publicidade”, responde Denis, pedagogo.
Movimentando cerca de 200 bilhões de euros em 2000, a publicidade custa a cada francês cerca de 500 euros por ano. “Ela se assemelha assim a um imposto estabelecido pelas empresas, com o qual elas compram seu espaço de expressão”, prossegue Denis, apoiando-se nas teses de dois dos mais antigos grupos desse movimento – Resistência à Agressão Publicitária (RAP) e Caçadores de Pub.
“Uma mídia ao nosso alcance, simples e gratuita”
Diante da amplitude e do forte impacto midiático desse movimento de jovens pichadores, a repressão policial e judiciária não tardou. No dia 28 de novembro, a polícia efetuou mais de uma centena de prisões na tentativa de reprimir uma ação que reuniu cerca de mil pessoas em várias estações do Metrô parisiense. O risco máximo é uma multa de 62 euros. Quanto à Justiça francesa, no dia 1° de dezembro, ela condenou o servidor de Internet alternativo “Ouvaton” a revelar o nome dos fundadores do site “Stopub” O objetivo era identificá-los e obrigá-los, sob pena de pesada multa, a fechar o site. “Descentralizar esse tipo de ação tornou-se imperativo”, explica Denis, jornalista e membro de um coletivo recém-criado que pretende “prolongar a guerrilha iniciada por “Stopub” tornando inaprisionável e mais eficaz a expressão contra a pub”.
Como? Graças à Internet e às impressoras. A idéia é criar um site - lejournaldesmurs.org (o jornal dos muros) está em via de construção -, que centralize a criação e difusão de mensagens intervindo na publicidade ou permitindo uma expressão crítica do sistema. Menos comandos, menos prisões, cada internauta poderá, de maneira autônoma e ativa, enviar e carregar mensagens, imprimindo-as em suas casas e colando-as, na manhã seguinte, quando partem para seus trabalhos.
“Não pretendemos mudar o sistema, mas a emergência de uma mídia alternativa particular está a caminho”, conclama o manifesto desse grupo que se proclama “a-pub”, “pois ela não nos interessa, ou interessa muito pouco”. O objetivo é, portanto, a retomada da palavra sobre os muros e paredes, “única mídia ao nosso alcance, simples e gratuita”. Uma democratização da mídia urgente e necessária que vem encontrando eco internacional a julgar pelas mensagens que chegam do mundo inteiro no site do “Stopub” e que permitem prever o surgimento, em breve, de sites gêmeos ao journaldesmurs.org no Chile e, quem sabe, no Brasil.
O manifesto do “journaldesmurs.org”, disponível também em português, pode ser pedido pelo e-mail denis_la_pub@no-log.fr. Mais informações sobre o movimento antipub nos seguintes endereços:
www.stopub.tk
www.bap.propagande.org
www.antipub.net
www.adbusters.org
e, em breve, www.lejournaldesmurs.org