30.5.05
Mto Bom...
A queda! As últimas horas de Hitler
Por Marcelo Forlani
5/5/2005
Dizem por aí, que A queda! As últimas horas de Hitler (Der Untergang, 2004) é um filme que humaniza o ditador alemão. Logo na primeira cena, uma fila de jovens chega ao Quartel General de Hitler, conhecido como Toca do Lobo, em Rastenburg, na Prússia Oriental. Na narração em "off", tirada do documentário Eu fui a secretária de Hitler (2002), Traudl Junge conta que estava ali para uma entrevista de emprego para secretária pessoal do Führer e que se motivava mais pela curiosidade de conhecê-lo do que por qualquer razão política. A jovem de Munique, que à época tinha seus 22 anos, é escolhida e vai para a sala fazer um teste. Nervosa, não consegue datilografar uma só palavra corretamente. Ao perceber que algo estava errado, Adolf sugere "vamos tentar mais uma vez".
Este é um dos famigerados lados humanos do ditador alemão mostrados no longa-metragem de Oliver Hirschbiegel (A experiência). Mas os bons tratos com as figuras mais próximas, inclua na lista Eva Braun, os Goebbels e a cadela pastor-alemão Blondie, se alternam com ataques furiosos contra seus generais, que o estão fazendo perder a guerra. A cegueira de quem não consegue, ou não quer, ver a iminente derrota também não deixa de ser outra característica bem humana, a vaidade. Assim, fica difícil criticar o filme por "humanizar" Hitler, afinal, apesar de todas as atrocidades cometidas pelo regime nazista, seu líder era um ser humano, que como qualquer pessoa se alimentava, se emocionava, e, como sabemos, errava.
Os últimos dias
O foco principal do filme são os últimos dias antes da queda de Berlim para os russos. Mais especificamente entre o 56º aniversário de Hitler, em 20 de abril de 1945, até seu suicídio, no dia 30 do mesmo mês. Já confinado em um bunker, o líder nazista demonstra sinais de fadiga e nervosismo pela iminente derrota. E aqui o trabalho de Bruno Ganz se destaca. O ótima interpretação do ator suíço ajuda a nos fazer esquecer que embora o filme seja baseado em fatos e depoimentos reais, é uma obra ficcional.
Assim, o longa adquire ares de documentário. A diferença é que em vez de ter na tela um entrevistado falando para a câmera, temos personagens que foram reais fazendo pequenas confissões, como Eva Braun (Juliane Köhler) dizendo que costuma chutar a cadela do Führer quando ele não está por perto. Há também um distanciamento da ficção pela quase inexistência de trilha sonora. Em uma das cenas mais dramáticas, Magda Goebbels (Corinna Harfouch) dá adeus a seus filhos ao som do estourar das cápsulas de cianureto.
Em paralelo ao que acontecia neste mundo subterrâneo que era o refúgio de Hitler, o longa também mostra o que acontecia na superfície. Crianças defendiam um líder que não queria ver ninguém vivo ao final da guerra, grupos de militares matavam civis que se recusavam a pegar as armas e enfrentar o exército vermelho, e orgias com os já haviam jogado a toalha aconteciam em casarões berlinenses. Tais fatos não estão na tela para acrescentar algo à história pessoal de Hitler. Eles são parte de algo maior, a História.
Respondendo aos que simplificam A Queda! As últimas horas de Hitler dizendo que é um filme que humaniza um dos maiores assassinos que já pisou na Terra, vale dizer que o longa é muito mais um retrato de Berlim naqueles últimos dias de domínio nazista. Algo feito para quem gosta mais dos meios do que dos fins. E neste caso, sabemos desde o começo que, mesmo com a queda do nazismo, não é o que pode ser chamado de final feliz.
Texto de um amigão... Viva Jean...
Vivo
.
Eu não sei a quem pertence a idéia de que o ser humano é um ser inacabado e que,
conseqüentemente, a vida é a bigorna na qual forja-se seu espírito. De qualquer
maneira, foi uma supresa muito agradável reencontrar esse pensamento numa recente
música de Lenine.
Tudo começou quando este cantor e compositor escolheu Campinas para iniciar a
turnê de seu novo disco. Comecei, então, a me “preparar psicológicamente” para o
show ouvindo algumas de suas músicas e lendo alguns artigos publicados em
revistas. Na hora do show, minha maior curiosidade era a de ouví-lo cantar aquelas
músicas que possuem uma letra assustadoramente grande e ao mesmo tempo poéticamente elaborada, ou seja, impossíveis de serem decoradas!
Lenine, apesar de ter uma obra pouco conhecida, se comparada com outros intérpretes contemporâneos da MPB, já possui vinte anos de carreira – a qual foi, por assim dizer, muito bem coroada com o convite que recebeu para se apresentar na “Cité de la Musique”, em Paris, onde gravou seu último CD.
Contudo, uma das coisas que mais impressiona no seu show, sobretudo para
aqueles que ainda não conhecem suas músicas, é a sua postura humilde e a maneira
respeitosa e afetiva como ele trata o público – chegando ao ponto de desejar um
“Deus lhes abençõe”, no final da apresentação, a exemplo do que faz Hermeto Pascoal.
A música de abertura do seu último CD (InCité) é a “Do It”, que parece ser um
longo poema concreto. É animada e, no show, dá até pra cantar, em coro, a última
linha de cada estrofe como: “se pediu aguenta”! Depois, vem a música cuja beleza
muito me chamou a atenção e que foi aquela a que fiz referência no início desse
texto. Ela se chama simplesmente “vivo”, e seus primeiros versos dizem o seguinte:
“precário provisório perecível
falível transitório transitivo
efêmero fugaz e passageiro
eis aqui um vivo”
“Eis aqui um vivo” ou, dito de outra forma: eis aqui as características de um ser
humano: precário e perecível como toda matéria viva que, com o tempo, se esvai;
efêmero e fugaz perto da idade do planeta em que vivemos; transitório e transitivo
como a nossa vida aqui na Terra. E como, aliás, foi a vida do próprio Cristo que,
próximo da sua morte, tinha consciência de que seu destino era “passar deste
mundo” para o encontro com Deus mas que, nem por isso, deixou de amar aqueles
que encontrou nesse mundo até o último momento:
“Antes da festa da páscoa, sabendo Jesus que era
chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, e
havendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os
até o fim.” [ João 13:1]
Curioso é a música de Lenine lembrar essas qualidades do ser
humano justamente no momento de sua carreira em que a fama
lhe alcança. Assim, a sua própria música é expressão da
maturidade com que ele parece encarar a fama – transitória e
perecível como, também, é a nossa vida.
Jean Carlo Faustino
Sociologia / UNICAMP
28.5.05
Sexo Sexo Sexo Sexo rs
Kinsey - Vamos Falar de Sexo
Por Rodrigo Cunha, 30/04/2005
É necessário cuidado redobrado ao assistir Kinsey - Vamos Falar de Sexo, mas não pelas cenas que o título nacional explorou erroneamente. Até porque, embora o filme ronde todo a volta do tema sexo, é muito menos explícito e chocante, nesse sentido, do que diversas outras obras, como, por exemplo, Os Idiotas ou Felicidade. É um título ambíguo, claramente procurando explorar o fato de brasileiro adorar falar sobre o tema. Só que aqui a sacanagem é séria e explorada de forma profunda, assim como o seu personagem principal - e real - fizera em uma sociedade conservadora e toda cheia de moralismos ridículos. Kinsey estudava o sexo, adorava fazê-lo, vê-lo e conversar sobre, mas sem nunca soar pervertido ou aproveitador.
Ele era um homem que estudava o ato, o que poderia dar mais prazer ao parceiro (a). Foi provavelmente o primeiro homem a assumir publicamente que o melhor era as pessoas se entregarem àquilo que lhes davam prazer, dane-se o que os outros poderiam pensar. Afinal, os padrões apresentados pela sociedade são inverossímeis e sem lógica alguma. Como, por exemplo, uma pessoa poderia ter sua fertilidade afetada simplesmente por fazer sexo oral com o parceiro fixo? Isso existia na época, e por estar um passo a frente de sua época e ter confrontado esses padrões tão conservadores, enfrentou a fúria de uma sociedade, enquanto recebeu agradecimentos de diversas outras pessoas, por tê-las feito mudar para melhor.
Doutorado em Biologia, o professor sempre amou a vida, e se especializou em catalogar diversas espécies de vespas. Juntou um milhão de amostras, porque acreditava que apenas com um largo número de fontes alguma estatística de pesquisa poderia ser confiável. Utilizou o mesmo pensamento com os seres humanos. Ao estudar o seu comportamento na cama, para escrever o livro "O Comportamento Sexual do Homem", Kinsey entrevistou milhares de pessoas para poder saber o que lhes dava prazer. E, mesmo estando nos anos 40, o resultado foi surpreendente.
O filme pode parecer ultrapassado, afinal, estamos em um período altamente liberal quanto à sexualidade, mas ainda cheio de preconceitos levantados, vejam só, por Kinsey há quase 70 anos! O fato de apresentar reações completamente opostas de algumas pessoas quanto ao assunto é o grande triunfo do filme. É como um personagem diz certo momento: "ele convence as pessoas a falar sinceramente porque as faz perceber que ele realmente tem interesse naquilo". É exatamente essa a sensação que temos ao assistir ao longa, de que Kinsey quer entender as pessoas, e não julgá-las.
Liam Neeson já fez trabalhos espetaculares no cinema, cada um mais diferente do outro. Já foi de um alemão que salvou judeus em pleno Holocausto até um Mestre Jedi, mas Kinsey traz um novo desafio para sua carreira. Isso porque, assim como quando foi lançado e mesmo diversos estigmas da sociedade já terem sido derrubados ao longo dos anos, o filme encontrou uma forte rejeição de grupos puritanos ao redor do mundo. Ignorando a repercussão que poderia ter, mesmo com fortes protestos, o ator aceitou de primeira o convite para o papel e, para variar, deu um show de interpretação do início ao fim.
Sua companheira de cena é Laura Linney, que interpreta a esposa do sexólogo. Ambos estiveram juntos em Simplesmente Amor, mas aqui o clima é totalmente diferente. O amor está no filme de forma poética, pois a todo o momento, ele parece ser um mero coadjuvante de todo o prazer que Kinsey parece querer levar as pessoas. Atenção quando digo que apenas 'parece'; ele tem uma importância muito maior do que pode parecer à primeira vista. Some a um surpreendente Chris O'Donnell (longe do mico que pagou em Batman), um inspirado John Lithgow (como o pai conservador de Kinsey) e o sempre excelente Dylan Baker, dessa vez em um papel menor do que está acostumado a fazer.
Não vá assisti-lo achando que serão duas horas de baixaria, porque não vai ser. Até mesmo Perto Demais é mais chocante que Kinsey - Vamos Falar de Sexo. Na verdade, este novo trabalho do diretor Bill Condon é um drama, bem lento, de tema desenvolvido e com humor afiado. Ao invés de se acomodar em mostrar, ele tenta entender. E o grande mérito é nos deixar totalmente por dentro de tudo o que os personagens pensam, porque agem de tal maneira e o resultado de tudo. Sem nunca soar absurdo ou falso, pode até estar chegando em uma época onde achamos saber tudo o que diz o filme. Não se engane.
A simplicidade é apenas aparente, porque logo após os créditos iniciais começarem a aparecer na tela, veremos que tudo é um emaranhado complexo de atitude, tesão e sentimento.
24.5.05
Tão bom qto Diarios de Motocicleta, qdo fala dos excluidos e qdo tenta retratar uma sociedade(no caso a japonesa) Recomendadíssimo, e levem lenços...
NINGUÉM PODE SABER
Por Angélica Bito
criticas@cineclick.com.br
Ao final de projeção de Ninguém Pode Saber, minha primeira conclusão foi que este é, provavelmente, um dos filmes mais tristes que já vi. Por ser tão belo, contemplativo e triste, o longa dirigido por Hirokazu Kore-eda (do maravilhoso Depois da Vida) cumpre a função de tocar o coração do espectador como poucos.
Trata-se da história de quatro crianças abandonadas pela mãe. O caso, não muito raro no Japão – ou mesmo em qualquer lugar do mundo –, toma ares especiais graças à direção intimista de Kore-eda. Akira (Yûya Yagira, melhor ator em Cannes) é o mais velho dos quatro. Tem doze anos. Seus irmãos são Kyoko (Ayu Kitaura), Shigeru (Hiei Kimura) e Yuki (Momoko Shimizu), todos de pais diferentes. Por criar seus filhos sozinha, Keiko (You) esconde de seus vizinhos os três mais novos para que não seja expulsa do apartamento que ocupam, como já aconteceu antes. Como a mãe passa o dia trabalhando, cabe a Akira a responsabilidade de zelar pelos irmãos e cuidar para que não sejam percebidos.
Mas o fato das crianças viverem escondidas não é o maior drama do filme. Ele começa quando a mãe não volta à noite, entregando um bilhete para Akira com a recomendação de que cuide de todos enquanto ela está fora. Deixando uma pequena quantia em dinheiro, Keiko abandona seus quatro filhos. O irmão mais velho segue cuidando dos mais novos, saindo sempre para fazer compras e cozinhando para as crianças. Aos 12 anos e responsável por mais três pequenas vidas, Akira só se contenta em ler mangás nas prateleiras das lojas e a observar os outros garotos brincando nas casas de diversões eletrônicas simplesmente porque não pode se dar ao luxo de gastar o dinheiro da família com isso. Aos poucos, as crianças têm de aprender na marra como sobreviver sem a mãe e sem dinheiro.
Kore-eda mostra de uma forma muito sutil e lúdica como as condições dessas crianças se degradam aos poucos. Com falta de pagamento, luz, água e gás são cortados. Sem limpeza, o apartamento se torna um verdadeiro chiqueiro. Sem água, as roupas e os cabelos das crianças estão cada vez mais sujos. Sem idade o suficiente para poder trabalhar, eles não têm mais como conseguir dinheiro e sobrevivem com a ajuda dos outros, especialmente da menina Saki (Hanae Kan). Aparentemente de família rica, prefere passar os dias ao lado das crianças a ficar em casa ou na escola.
As condições das crianças de Ninguém Pode Saber ficam cada vez piores com o avanço da película, mas não os laços afetivos que os une. Por mais que estejam comendo até papel de tanta fome, não perdem o controle nem esquecem de seus irmãos na hora de dividir alguma comida que conseguem, e isso é o mais belo no filme. Por mais que tenham sido criados por uma mulher evidentemente desequilibrada - que, muito mais imatura do que seus próprios filhos, os abandona por causa de um novo namorado -, continuam unidos, lutando pela sobrevivência. A pergunta é: como essa mulher consegue abandonar quatro filhos tão perfeitos que, mesmo nunca tendo freqüentado a escola e passando a maior parte do dia sozinhos, são tão educados?
É exatamente por isso que Ninguém Pode Saber é capaz de tocar tanto o coração do espectador. Pisando nesse tema, seria muito fácil fazer um daqueles enormes e chatos melodramas, mas a direção precisa de Kore-eda não deixa a peteca cair, mantendo a dignidade e a honestidade da produção à medida que seus acontecimentos caminham à tragédia. Dessa forma, é difícil segurar as lágrimas. As mais honestas possíveis.
16.5.05
Filmes Latinos...
Filmes latino americanos que tentam contruir uma identidade nossa, ao mesmo tempo que mostram as peculariedades de cada pais..., algo em comum ?? Claro que sim... nossos amigos de los estados unidos e suas “boas” influências pelo sul...
MARIA CHEIA DE GRAÇA - de Joshua Marston - 29/09/04
Os coringas do filme são dois: o primeiro é o seu roteiro. É indiscutivelmente um drama, mas seu ritmo é de thriller; o filme hipnotiza e te joga no meio da situação desesperadora. O segundo é a atriz Catalina Moreno.
Bernardo Krivochein (Rio)
O cinema independente americano tende a cair num buraco de filmes verborrágicos, cínicos e arrogantes volta-e-meia, mas são obras como "Maria cheia de graça" que mostram como esse cinema pode ser forte quando quer. Nada de "cowboys gays comendo pudim" aqui o drama de Maria Alvarez é sentido na pele do espectador.
Maria (uma surpreendente Catalina Moreno), uma garota de 17 anos, trabalha numa floricultura de uma cidadezinha na Colômbia. Seu salário sustenta a mãe, sua irmã e seu sobrinho recém-nascido. Querendo abrir suas asas e sentindo-se oprimida pela falta de perspectivas de sua vida, Maria desentende-se com seu chefe, larga o emprego, larga o namorado de quem está grávida e, ao ir para Bogotá, pega carona com um sujeito que lhe oferece o cargo de "mula".
Todo o processo que envolve a transformação de Maria em uma piñata de padê é filmado como um vídeo institucional, eu me lembro de tudo como um grande plano-seqüência. É de uma curiosidade gritante e de um envolvimento maior ainda. Há pouca (ou melhor: nenhuma) firula em termos de edição e fotografia, o diretor Joshua Marston ganha uma estrelinha por bom comportamento, mas ele tem completa noção da força da história - Marston ainda possui um enorme talento de colocar a câmera nos lugares exatos que ela precisa estar, conseguindo o efeito de um documentarista muito sortudo (todas as câmeras são na mão). O retrato do tráfico de drogas evita qualquer romantismo ou sensacionalismo, nos parecendo assustadoramente plausível.
O coringa de "Maria cheia de graça" são dois: o primeiro é o seu roteiro. É indiscutivelmente um drama, mas seu ritmo é de thriller; o filme hipnotiza e te joga no meio da situação desesperadora, fazendo com que admiremos a frieza e a inteligência com que Maria tenta resolver as merdas em que se mete. Eu tenho que louvar a seqüência do avião. É tamanha a tensão, a claustrofobia, eu tinha que lembrar de respirar de vez em quando. O pior é que a cena extende-se num crescendo. É onde Marston exercita seus músculos de diretor, onde Moreno mostra a que veio e onde o espectador mais se envolve. Chega a dar vontade de gritar, um momento memorável de suspense - e fora de um filme do gênero. As situações vão se acumulando e se atrapalhando, o roteiro as amarra muito bem, as saídas não são baratas ou implausíveis, sempre com um compromisso emocional que justifica as decisões tomadas pelos personagens.
E o segundo é o achado que é Catalina Moreno. Além de obviamente linda, Moreno transmite a rebeldia e a inocência da personagem sem apelações. Mais incrível é saber que Moreno é uma atriz sem nenhum treinamento, em seu primeiro papel no cinema, escolhida praticamente a esmo. Seu rosto reflete o rosto de tantas outras colombianas que se tornam "mulas", também escolhidas a esmo.
Em vários filmes, os protagonistas que buscam uma vida melhor entram numa caçada cega e sem limites para atingir os seus sonhos - imagine, por exemplo, "Scarface". Em "Maria cheia de graça", os personagens são movidos pelo instinto de sobrevivência, acabam pagando pelas decisões erradas, mas sempre as tomam conscientes das suas conseqüências. Não há demagogia, a questão do tráfico não é problematizada, criticada, não se torna a questão-mestre do filme, que poupa-se de fazer politicagens. É um drama humano sobre a busca de uma vida com perspectivas e de uma personagem que tem que fazer por onde. Eu conheço algumas pessoas que, crescidas em cidades pequenas, são consumidas pelo desejo de descobrir o mundo que eles sabem que existem e da migração para as cidades grandes, forçada pela mediocridade local. A luta de Maria é uma luta travada por todos, todos os dias. Nós sabemos que sempre há algo melhor além daqui.
"Maria Full of Grace" EUA/Colômbia, 2004. 101 mins. Direção: Joshua Marston. Estrelando: Catalina Moreno, Yenny Paolo Vega, Patricia Rae, Guilied Lopez, Osvaldo Plasencia, Orlando Tobon. Distribuidora: Fine Line Features. Site oficial: www.mariafullofgrace.com/
Vozes Inocentes
Sinopse
Chava é um garoto de 11 anos que é obrigado a se tornar "o homem da casa" por força das circunstâncias, já que o pai o abandonou em plena guerra civil.
Ao mesmo tempo em que o prazo para saber qual lado vai seguir, Chava procura emprego para ajudar a mãe em casa e ainda descobre o primeiro amor com um companheira de escola.
Crítica
Não é a toa que Vozes Inocentes foi o pré-selecionado mexicano ao Oscar de filme estrangeiro este ano, é um filme típicamente comovente, daqueles feitos sob medida para arrancar lágrima das platéias o que na maioria das vezes atrai o oscar, também é cheio de momentos e closes hollywoodianos, o que prejudica um pouco o andamento do filme, mas se considerarmos que ele foi dirigido por Luis Mandoki dos péssimos Encurralada(com Charlize Theron) e Olhar de Anjo(com Jeniffer Lopez) dá pra considerar esse filme, que fez de volta em seu país natal como uma forma de redenção.
Vozes Inocentes é baseado na história real do roteirista Oscar Torres, fala de um menino chamado Chava, que em meados de 1980 as vésperas de completar 12 anos será convocado pelo exército para ser um guerrilheiro. O filme apesar de mexicano conta uma história que aconteceu em El Salvador.
Assim como o chileno Machuca e o argentino Kamchatka, esse Vozes Inocentes usa do olhar de crianças para retratar a guerra e a revolução, o que na maioria das vezes acaba se tornando comovente, a maioria do público não resiste em ver uma criança sofrendo, mas o filme é tão sensacionalista que o uso das crianças não parece funcionar sempre, ainda que renda lá seus bons momentos, a atuação do menino Carlos Padilla, é um dos maiores trunfos do filme.
Acho que este é um filme que tem tudo para agradar o público em massa, porque tem elementos tão característicos de filmes sobre guerra que é o que o povo gosta realmente de ver, pra mim não houve nenhuma novidade, em certos momentos chegou a me lembrar o filme No Tempo das Borboletas que narra a ditadura da República Dominicana.
No elenco de conhecido mesmo só há o ator Daniel Gimenez Cacho, que assim como em A Má Educação interpreta um padre, aqui ao invés de pedófilo ele é revolucionário o que o leva a sofrer vários problemas, o ator que embora seja bem conhecido não chega a aparecer muito no filme, e nem tem algum momento notável, outra é a atriz Leonor Varela, que atuou em Blade 2, e interpreta a mãe do menino Chava.
Não digo que o filme seja sensacionalista porque em diversos momentos usa de cenas fortes, tiroteios, mortes e tudo mais, mas é que são artifícios já tão manjados e usados de maneiras tão convencionais, que talvez se o filme fosse um pouco mais "seco" ele pudesse ser melhor.
Não é de todo mau, vale porque é um dos poucos filmes que retrata esse período em El Salvador e porque é um mexicano que finalmente chega aos cinemas.
Cabra-cega
Por Marcelo Hessel
14/4/2005
Cabra-cega (2004) aborda a resistência armada contra a ditadura brasileira nos anos 60 e 70. O terceiro longa de Toni Venturi – o segundo a tratar de política, depois da estréia em O Velho (1997), documentário sobre o comunista Luiz Carlos Prestes (1898-1990) – se inicia ao som de MPB dos festivais, com imagens de arquivo.
Cavalaria passa, polícia esbraveja, indignados marcham. Em meio à correria, dá para ver no rosto das pessoas o orgulho de se opor ao regime. Mas algumas cenas resgatadas da TV Tupi, hoje de domínio público, mostram o corpo já sem vida de Ernesto “Che” Guevara (1928-1967) escarafunchado na Bolívia.
Assim, desde o primeiro momento a utopia da revolução popular entra em choque com a realidade da repressão. Esse é o conflito que permeará todo o filme - vencedor de cinco Candangos no Festival de Brasília de 2004, Melhor Filme - Júri Popular, Melhor Diretor, Melhor Ator (Leonardo Medeiros), Melhor Roteiro e Melhor Direção de Arte.
Na história, o militante Thiago (Medeiros), baleado no peito no dia em que viu a sua companheira e amada ser capturada pela polícia, precisa passar uns dias no “aparelho” de seu mentor, Mateus (Jonas Bloch). Lá recupera as forças e aguarda novas diretrizes. Sozinho, fechado - e silencioso por medo de ser denunciado - no apartamento, lhe resta esperar. Mas ficar afastado da ação, ouvir notícias de camaradas mortos, começa a lhe fazer mal. No desespero Thiago refletirá sobre a sua vida e o seu engajamento.
Vitórias nossas
Cabra-Cega tem, nessa sua releitura da História recente, muito em comum com Quase dois irmãos (2004). O longa de Lucia Murat também confina um militante setentista de esquerda - neste caso, junto com presos comuns na Penitenciária da Ilha Grande - e o obriga a "parar para pensar". Entretanto, são propostas distintas. Toni Venturi não tem a ambição de Lucia, alça vôo mais modesto, mas por isso mesmo resulta mais coerente e conciso. Trata-se do típico pequeno grande filme.
Em um primeiro momento, esse thriller dramático parece querer aplicar uma lição de moral em Thiago. Um companheiro de aparelho, Pedro (Michel Bercovitch), por exemplo, participa de ações mas não deixa de viver a sua rotina acadêmica, muito menos a sexual - vivência que soa perda de tempo para o abnegado ferido. Aos poucos, porém, aprendemos a nos identificar (e a sofrer) com as angústias de Thiago. As suas mínimas vitórias no cárcere privado - descobrir o amor ou aquele LP do exilado Caetano, curtido com fone de ouvido para não chamar a atenção - passam a ser vitórias nossas também.
Ainda que o resto do elenco não se aprofunde tanto nos seus personagens como o talentoso Medeiros, ainda que o texto tenha resquícios de discursos, de diálogo "lido" - coisa que Venturi se preocupou em tentar limar, como nos relatou - a direção segura não perde o foco da narrativa. Desde o começo equilibra bem a crítica consciente à implosão dos aparelhos e o afago emocional naqueles que um dia perderam a vida ou sobreviveram em nome da liberdade do país.
Machuca
Niños da ditadura
Utilizando como pano de fundo os acontecimentos que antecederam o golpe militar chileno, Andrés Wood mistura ficção e realidade para contar a tocante história de amizade entre dois meninos separados pelas diferenças sociais no Chile dos anos 70. Assim é o filme Machuca, que apesar da premissa dramática, ainda apresenta alguns deliciosos momentos cômicos. Por Luiz Rebinski Junior.
Além da conhecida trajetória de ascensão e queda do político Salvador Allende, o período que antecedeu o golpe militar chileno de 11 de setembro de 1973, mostra-se, mesmo após três décadas, pródigo em revelar grandes histórias, ainda que fictícias. É o que mostra o cineasta Andrés Wood, diretor do longa-metragem Machuca.
Entre os anos 1970 e 1973, o Chile viveu um dos períodos mais conflitantes de sua recente história. Salvador Allende, primeiro governante de convicções marxistas a dirigir o país, tentava implementar um regime socialista e vislumbrava construir um "caminho chileno para o socialismo". Contudo, era pressionado pela extrema direita, que, com o apoio dos Estados Unidos, queria sua renúncia.
Allende assumiu a presidência e, logo em seguida, nacionalizou as minas de cobre, principal riqueza do país, que estavam nas mãos dos norte-americanos havia três décadas. Além disso, passou as minas de carvão e os serviços de telefonia para o controle do Estado, aumentou a intervenção nos bancos e efetivou a reforma agrária, desapropriando grandes extensões de terras agrícolas improdutivas e entregando-as aos camponeses. Tais medidas desagradam profundamente à parcela da população que, até então, controlava o país.
São destes fatos que Wood se apropria para narrar a história de Pedro Machuca e Gonzalo Infante, dois meninos da mesma idade, separados por um imenso abismo social. Machuca é um garoto pobre que mora em uma favela chilena. Graças à benevolência de um padre, afeito às idéias de Allende, consegue uma vaga no colégio Saint Patrick, destinado aos filhos da alta burguesia. Na nova escola, Pedro Machuca encontra, além da truculência dos colegas abastados, a amizade de Gonzalo Infante. Rejeitado pela maioria dos meninos, Machuca vê em Gonzalo um companheiro pouco preocupado com a diferença social que os separa. Do mesmo modo, Gonzalo, menino solitário e que testemunha as traições da própria mãe, encontra no carinho de Machuca o alento para sua infelicidade.
Embalados por uma eficiente trilha sonora, Machuca e seu mais novo amigo descobrem juntos o sentimento de liberdade em um país sitiado. Gonzalo Infante carrega Machuca para todo lugar e lhe apresenta tudo aquilo que o dinheiro pode comprar e que o amiguinho pobre certamente não teria acesso. Por sua vez, Machuca mostra ao colega todo o companheirismo e a dedicação que, diferentemente dos bens materiais, o dinheiro não pode comprar. Na favela, além da fidelidade de Machuca, o menino rico encontra o amor. Silvana, irmã mais velha de Pedro, é uma garota politizada que vive fazendo troça do burguesinho com quem o irmão está andando. No primeiro momento a moça desdenha Gonzalo, mas aos poucos vai cedendo e acaba por iniciar o garoto nas relações amorosas.
Em meio a todas as descobertas dos impúberes rapazes, o caos circunda a cidade. Passeatas pró e contra o governo Allende pipocam a toda hora na capital do país.
Drama e humor
Apesar do tom dramático da película, Machuca consegue ser cômico. As cenas das passeatas, em que a família do personagem principal vende bandeirinhas chilenas, rendem boas risadas. Quando em uma destas manifestações, Gonzalo pergunta o que é um direitista, à queima-roupa a rebelde Silvana responde: “um rico ignorante como tu”.
A inocência dos garotos frente às disparidades sociais do país toca o espectador. Os meninos estão alheios às disputas políticas. Só sabem o que sentem. Gonzalo tem consciência de que é rico e que por isso é discriminado; Machuca, que é pobre e que quer outra vida, mais digna.
O filme poderia se transformar em um imenso clichê ao retratar a história de crianças de classes distintas, unidas pelo sentimento de amizade. Não é o que acontece. Os fatos históricos dão a credibilidade necessária à película. O cineasta consegue passar toda angustia dos chilenos que viveram os conflitos sociais na década de 70 através do olhar inocente de Pedro Machuca. O garoto da favela, com suas roupas puídas [o menino passa o filme todo com a mesma blusa surrada], observa com curiosidade os fatos que se desdobram.
É especialmente interessante ver como o diretor retrata uma sociedade rachada ao meio pela política. Para muitos, Allende significava a esperança de uma vida melhor e uma sociedade mais justa. Já para a classe abastada, o político de Valparaíso era um comunista, cujo único objetivo era levar o país à bancarrota.
Wood não entra no mérito da questão a respeito da morte de Salvador Allende [assassinato, para muitos]. Apenas usa como pano de fundo para seu filme uma história que tornou-se um verdadeiro fantasma para os cidadãos chilenos. O golpe militar encabeçado por Augusto Pinochet, da mesma forma como o nosso março de 1964, ainda rende boas [ou más, dependendo do ponto de vista] histórias. Assim como o final da história real [o suicídio de Allende], o desfecho da película de Wood não é nada feliz. Surpreendendo o público, e desapontando os que esperavam um final romântico e suave, o diretor encerra o filme de forma forte, deixando para o próprio espectador a reflexão dos fatos.
Em tempos de ascensão de governantes assumidamente socialistas na América Latina, Machuca, assim como o hermano Diários de Motocicleta, se não é um filme engajado e propositadamente rebelde, é pelo menos um ótimo pretexto para falar sobre o que Chávez, Lula, Kirchner e Vasquez – filhos bastardos da ditadura que dominou o continente nos idos de 70 e que lutaram contra os regimes despóticos – estão fazendo. E mais: qual seria o legado do herói Allende, caso não tivesse se matado com um tiro de fuzil? A revolução bolivariana vingaria?