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11.11.05

Atendendo a pedidos, meu amigo Jean solta mais uma da série Lenine, mto boa... 

No semestre passado, ao escrever um terceiro texto sobre as músicas de Lenine, disse que aquele seria o último para, assim, não aborrecer o leitor com variações sobre um mesmo tema. Entretanto, como aconteceu justamente o oposto do que esperava, resolvi então dar-me a liberdade de voltar mais uma vez ao assunto – até mesmo porque uma boa obra de arte sempre proporciona um novo aprendizado quando é revisitada. Mas, desta vez, me ocuparei com uma canção da qual não havia ainda tratado: “Todos os Caminhos”, também do novo CD “Incité”, a qual começa assim: “Eu já me perguntei se o tempo poderá realizar meus sonhos e desejos”. Como se vê, logo de início nos é apresentado uma curiosa construção poética na qual o poder de realizar os sonhos e desejos é entregue ao tempo. Trata-se de um interessante rearranjo de uma reflexão adulta com a qual inevitavelmente iremos nos deparar em algum momento da vida - quando, com base no que já conseguimos e no preço que isso nos custou, olharemos para o horizonte que temos à frente e nos perguntaremos: “será que ainda conseguirei realizar tudo que sonhei ou seria mais prudente reconhecer os meus limites e contentar-me com o que já conquistei?” Nos versos seguintes, o autor expressa as raízes do seu questionamento: “Será que eu já nem sei por onde procurar ou todos os caminhos dão no mesmo? O certo é que eu não sei o que virá.” Note-se, portanto, que – no contexto da canção – não se trata de uma reflexão puramente abstrata, pois os versos dão a entender que o autor/agente procurou os caminhos mas que esses conduziram a resultados que fizeram-no questionar sua capacidade de escolhaconduzindo-o à seguinte conclusão: “o certo é que eu não sei o que virá”. Trata-se de uma frase que eoncontra eco em outras músicas do mesmo álbum “Incité” - como, por exemplo, nas canções: ”ninguém faz idéia” e “virou areia”, o que demonstra a unidade artística presente neste último disco do cantor. Além disso, tratam-se de versos que ecoam também apreensões humanas milenares sobre as incertezas sobre o futuro pessoal. Digo milenares porque a encontramos também em livros bíblicos: nos Evangelhos, nas cartas escritas pelos discípulos, nos textos do rei Salomão, etc. Sabe-se que uma preocupação demasiada em garantir um futuro tranqüilo pode levar uma pessoa à avareza e a um comportamento materialista centrado somente em si. Sobre este perigo, Cristo nos advertiu no conhecido “Sermão do Monte”. Esta, porém, não parece ser a questão da música de Lenine. A questão, alí, parece estar vinculada com os desejos do coração e com a limitação de recursos – sobretudo o tempo – para realizá-los. Salmos, que é um livro poético, diz algo bastante consolador sobre esse assunto: “Agrada-te do Senhor, e ele realizará os desejos do teu coração”. [Salmos 37:4] No entanto, os versos da canção de Lenine parecem conduzir nossa reflexão para um outro texto bíblico – referente a um discurso de Cristo onde, curiosamente, um tema análogo foi, por Ele, colocado: “Pois qual de vós, pretendendo construir uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e verificar se tem os meios para a concluir? Para não suceder que, tendo lançado os alicerces e não a podendo acabar, todos os que a virem zombem dele, dizendo: este homem começou a construir e não pôde acabar.” [Lucas 14:28-30] Cristo tomou como exemplo um homem que pretendia construir uma torre – e, na continuação do texto, fala também de um rei que estava indo para uma batalha. Mas, obviamente, a “torre” é uma metáfora de uma outra coisa que pode, por exemplo, ser compreendida com os “sonhos e desejos” da música de Lenine, ou seja, com algo que diz respeito às maiores realizações das nossas vidas. O autor da música parece estar, portanto, ponderando este mesmo tipo de questão e nos ensinando, talvez, que uma reflexão semelhante pode ser um dos caminhos não somente para se lidar com as incertezas do futuro como, também, para meditar nas lições que nosso passado, isto é, que a nossa história tem a nos ensinar. Aliás, sobre esse assunto, valeria a pena constatar as lições apreendidas pelo autor na continuação desta música...

7.11.05

Texto da Adriele, uma amiga, Mto Bomm 

Algumas pessoas questionam a minha fé, e eu sei que torcem o nariz para as escolhas que eu fiz nesta vida, julgando aquilo que elas não conhecem. Então hoje eu quis escrever sobre isso, sobre a minha invisível fé. Sim eu tenho fé, só que ela não é igual à daqueles que professam a Deus aos quatros ventos mas destroem, apóiam ou se omitem diante do massacre de milhares de pessoas apenas para garantir vantagens financeiras como as patéticas guerras do Iraque e do Afeganistão, todas articuladas em nome de Deus. A minha fé também não é igual à daqueles que dizem buscar a cura para doenças com a finalidade de salvar vidas, mas na verdade só buscam o lucro (aliás, àqueles que se importam, e não assistiram, não deixem de assistir ao filme O Jardineiro Fiel é um tapa na cara da omissão de todos nós). Ela também é diferente da crença daqueles que professam viver pela fé, viver para Deus e amar a Jesus sobre todas as coisas, mas que após receberem dádivas divinas como, por exemplo, a oportunidade de cursar boas faculdades públicas, se omitem por capricho não devolvendo à sociedade aquilo que lhes foi oferecido, ou então usam os conhecimentos apreendidos para se beneficiarem entrando para a indústria do lucro apenas para satisfazer suas ganâncias pessoais ao invés de prestar retribuição à sociedade com algo que beneficie a coletividade, retribuem sim, com mais desigualdades, miséria e sofrimento daqueles que não tiveram as mesmas oportunidades. Acho que não é preciso ser doutor para saber do que estou falando, estou falando dos médicos, advogados, políticos, pastores, padres, professores entre outros indivíduos que prestam serviços públicos e atendem a população como se fosse lixo, escória, trapos humanos, vidas baratas e inúteis, gente mal cheirosa que seria melhor se não existissem. Atitudes de descaso ou omissão que deveriam ser consideradas crimes, mas se assim fosse não teria lugar para tanta gente no sistema carcerário – aliás, já não tem. Não, eu não quero uma fé igual a esta, e se isto for se declarar atéia, desviada, profana ou qualquer um destes jargões “evangeliquezes” que eu ouvi durante toda a minha vida, então é tudo isso que eu sou, e eu repudio e desprezo este tipo de fé dogmática e ritualística, eu desprezo este tipo de amor ao próximo, que se preocupa em catequizar pessoas mas não cuidar delas ou de seu sofrimento, que privilegia futilidades e caprichos em detrimento do próximo, que não tem consciência da sua responsabilidade social, ambiental e humana. Até os animais “irracionais” são mais humanos, eles só matam quando são ameaçados ou para se alimentar, eles não matam por ganância, por descaso ou por prazer. Mas, apesar de tudo isso eu ainda tenho fé no ser humano. Fé naqueles que admiro por não darem lugar a hipocrisia. Fé naqueles que fazem ou estão buscando fazer alguma coisa porque lá no fundo se importam. Fé naquelas pessoas que deram ou dão sua contribuição para melhorar este mundo ainda que só um pouquinho, ainda que timidamente, no escuro onde ninguém vê, plantando sementes que podem frutificar no futuro, trabalhando para diminuia a discriminação, a desigualdade....nestes sim eu vejo Deus, nestes sim eu vejo o amor divino que eu quero ter, e por ironia do destino alguns são estigmatizados como apóstatas como eu. Esta sim é a fé que me move e que me alimenta, que me faz acreditar que ainda há esperança neste mundo, que me faz crer que ainda é possível haver vida digna, igualdade, liberdade e fraternidade apesar da hipocrisia. Quanto as minhas escolhas, eu não me arrependo de ter errado, pois foi com estes erros que eu aprendi e me tornei quem eu sou e apesar de tudo, admitir escolhas erradas ao menos me faz mais honesta. Eu me arrependo sim, de ter me omitido, de ter fechado meus olhos para tudo isso de podre que sempre esteve na minha frente, eu me arrependo de ter me alienado, de não ter amado ao meu próximo como manda a minha fé. A fé que eu tenho. E hoje então eu faço minha oração, a este Deus tão diferente dos deuses que vejo por ai, eu oro a ele que proteja a minha fé para que não se contamine com a fé dos invejosos, oportunistas, acomodados e medíocres, eu peço a Ele que perdoe a minha falta de fé nestes sujeitos e que coloque no meu caminho uma causa, ainda que pequena, mas que no fim da minha vida me permita olhar para trás e ter a sensação de que a minha vida valeu a pena. Adriele Goulart

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