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2.2.03

você em equilíbrio -------------------------------------------------------------------------------- Seja feliz fora do trabalho Quer mais qualidade de vida? Então, siga o conselho do pensador Domenico de Masi: pare de reclamar do trabalho e use melhor seu tempo livre POR Dalen Jacomino O mercado atravessa um período de muitos solavancos, mas o italiano Domenico de Masi continua firme em suas convicções. Para ele, o grande trunfo do ser humano está no bom aproveitamento do tempo livre -- não no trabalho. "A empresa, por sua própria natureza, é uma instituição total, onívora, que gostaria de absorver o trabalhador o tempo todo. Se pudesse, o faria dormir no emprego. É uma necessidade psicológica, semelhante à que liga a vítima ao seu carrasco", afirma o pensador italiano. O futuro, segundo de Masi, está nas mãos de quem souber se libertar da idéia de trabalho tradicional. Livrar-se da pura execução para se envolver na criação e na inovação. "No primeiro caso, as regras são o limite. No segundo, as regras representam um desafio." Como fazer isso? Domenico de Masi aponta algumas saídas na entrevista a seguir (apesar de, também para ele, essa ser uma questão ainda em desenvolvimento). O excesso de trabalho é cada vez mais comum nas empresas. O que está acontecendo? Para milhões de trabalhadores operacionais, com horário contratual fixo, a carga horária é rigidamente respeitada. E, caso trabalhem uma hora a mais, os profissionais são pagos. Para outros trabalhadores, gerentes, líderes, profissionais liberais e artistas, o horário é elástico. Se precisarem trabalhar além do contratado, não recebem nada como extra. Na verdade, esses trabalhadores intelectuais se comportam de dois modos completamente distintos. Nos países anglo-saxões, como Escandinávia e Alemanha, a maioria sai pontualmente do emprego e volta para casa ao completar suas oito horas diárias. Nos países latinos, como Itália, Espanha, Portugal, Brasil e Argentina, eles, na sua maioria homens, trabalham até tarde da noite, às vezes de dez a 12 horas por dia. Não é uma exigência objetiva do trabalho; é uma exigência subjetiva de permanecer o máximo de tempo possível longe de casa. O homem latino deixa toda a gestão da família a cargo da mulher. Em geral, é menos interessado na educação dos filhos, odeia a vida doméstica. Portanto, o que o prende por tantas horas no trabalho não é o amor à sua atividade propriamente dita, mas o ódio às atividades domésticas. Afinal, por que um gerente brasileiro ou italiano precisa de mais tempo que um alemão ou americano para fazer a mesma tarefa? É porque ele é mais estúpido? Não. Simplesmente, o gerente latino organiza sua jornada de modo a espalhar em dez horas aquilo que faria em cinco. Quando não há nada melhor a fazer, ele organiza uma reunião inútil para perder tempo. Esse prolongamento é danoso tanto para a empresa como para o gerente porque reduz sua criatividade, aumenta o custo dos serviços (telefone, ar-condicionado) e impede o funcionário de cultivar amizades, atividades sociais, família. Isola esse funcionário da sociedade e o reduz a um homem unidimensional. Mas o fato é que hoje em dia esses profissionais estão bastante insatisfeitos... No Brasil, reclama-se do excesso de trabalho porque os brasileiros têm mente sã. Não estão alienados. Não querem apenas poder e dinheiro. Ainda têm a necessidade de introspecção, amizade, amor, alegria e bom convívio. E isso é muito bom. Essa insatisfação também está aumentando na América e na Europa. O próximo passo nesse processo é transformar essa insatisfação em um projeto, em um novo modelo adaptado às necessidades dessa sociedade pós-industrial. Tem de ser um modelo capaz de distribuir melhor poder, dinheiro, trabalho e conhecimento. Há uma relação direta entre as horas trabalhadas pelos funcionários e os resultados obtidos pela empresa no fim do mês? Há muitas pesquisas sobre essa relação. Eu mesmo conduzi uma avaliação dentro de uma grande empresa metal-mecânica italiana. Depois de quatro a cinco horas de trabalho, se há uma atividade intensa, o rendimento intelectual se reduz e a produção diminui drasticamente. Mas as empresas, sobretudo as latinas, preferem prender o gerente no escritório de dez a 12 horas por dia e renunciar a seu rendimento. O que interessa à empresa é a presença física, a fidelidade, a exclusividade. Eu chamo isso de "síndrome de Clinton" porque imagino que ele tinha vontade de prender a (estagiária) Monica (Levinsky) no escritório da Casa Branca o maior tempo possível. "Taylor concebe a fórmula E = P ÷ H, que quer dizer: eficiência (E) é igual a produção (P), dividida pelas horas de trabalho (H). O grande desafio do século 21 é como aumentar a produção reduzindo as horas de trabalho." Esse trecho é de seu livro Ócio Criativo. Há outra solução para reduzir as horas de trabalho que não seja com investimento em tecnologia? Para o trabalho criativo e flexível há uma fórmula diferente: E = I * O. Isto é, a eficiência produtiva de novas idéias em termos de quantidade e qualidade (E), que é o que interessa às empresas pós-industriais, é proporcional à quantidade e à qualidade das idéias produzidas dentro da companhia (I) multiplicada pelas horas de ócio criativo (O) necessárias para produzi-las. Em outras palavras: uma empresa vai tanto melhor quanto mais seus trabalhadores produzem idéias se divertindo. Na fórmula apresentada por Taylor, não estava incluída a felicidade dos trabalhadores. Na minha equação, ela é essencial para multiplicar a eficiência da companhia. E onde está a fonte de inspiração? O tempo livre oferece, sobretudo, ilimitadas possibilidades de introspecção, de jogo, de convívio, de amizade, de amor e de aventura. É difícil entender por que o prazer ligado ao trabalho deveria acabar com a alegria e a satisfação do tempo livre. E a criatividade? A criatividade está muito mais ligada à capacidade de acolher e de elaborar estímulos do que aos recursos disponíveis. As condições ideais, na minha opinião, são ainda aquelas descritas por Platão em O Banquete: comodidade, um grupo de amigos criativos, paixão pela beleza e pela verdade, tempo à disposição. No final das contas, a felicidade consiste também em não se ter prazos para cumprir. Em época de crise, as pessoas nas empresas se desdobram. Empenham-se para não perder o emprego. O senhor acredita que essa é a melhor estratégia para o profissional num momento crítico? Faz 64 anos que escuto que estamos em crise. Todo ano meu país produz 2% ou 3% a mais de PIB e continua repetindo que está em crise. Quando essa crise vai acabar? Esse senso permanente de crise, difundido pelos jornais econômicos e pelas escolas de negócios, é uma arma a mais nas mãos dos diretores. Com isso, eles têm seus funcionários presos pelo medo. Um trabalhador que se sente em crise, que teme ser mandado embora, trabalha mais, não reivindica aumentos nem maior autonomia. A difusão e a gestão do medo de uma crise é a arma de manipulação mais potente que existe atualmente. Qual deve ser a postura do profissional que está vivendo esse turbilhão? O profissional que vê a cada dia diminuir essas suas necessidades legítimas deve aprender que o american way of life é capaz de criar riqueza, mas não é capaz de distribuí-la devidamente. No entanto, um profissional sozinho não pode fazer nada. No passado, o operário sozinho também não podia fazer muita coisa. Depois que ganharam consciência de que estavam sendo extremamente explorados, eles entenderam que deviam organizar-se. Desse modo, conseguiram impor respeito. Atualmente, os trabalhadores intelectuais passam pelo mesmo problema: precisam aprender a desenvolver essa consciência de que são explorados, de que precisam se unir e se organizar para obter o respeito de seus próprios líderes. A tragédia do trabalhador intelectual está em sua inconsciência e em sua individualidade. O teletrabalho é uma opção que o senhor coloca como facilitadora da vida do profissional. Mas já existem várias pessoas que não se adaptaram ao esquema. Elas se sentem sozinhas, desorganizadas. Qual seria a solução para essas pessoas? Hoje, todo mundo realiza trabalho a distância e não se dá conta. Todos os que falam ao telefone sobre trabalho na estrada, nos restaurantes, nos aeroportos e nos carros realizam teletrabalho. Mas as empresas, que usufruem dessa total disponibilidade de seus funcionários, não querem reconhecer isso contratualmente. Desse modo, estão pagando a esses gerentes pelas oito horas que ficam no escritório. Na realidade, eles estão trabalhando de dez a 12 horas. Hoje, as companhias aproveitam muito mais dos trabalhadores intelectuais do que dos não-intelectuais, pois eles são educados a não se lamentar, a não se rebelar e a não se organizar.

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