2.3.03
A DIFÍCIL ARTE DE SABER AMAR
Artur da Távola
Se tudo fosse: - "Eu te amo. Você me ama?" Resposta: "Amo".
Pronto! Seria simples. E foram felizes para o resto da vida.
Quando tal diálogo acontece e duas pessoas percebem que se
amam, aí a dúvida e a confusão não terminam. Começam!
Não está disposto na lei da vida que duas pessoas que se
amam, saibam amar. O normal é as duas não saberem. Raro é
as duas saberem. O habitual é uma saber e aguentar o rojão
pela outra.
Saber amar! Quanta gente prefere viver com alguém que sabe
amar, mesmo que não o ame! Quanto amor pode brotar da
relação com quem sabe amar! Quem sabe amar, pode até
realizar o milagre de acabar recebendo o amor de quem não o
ama, ou ama e não sabe.
Saber amar é conhecer o amor como forma de arte. O amor é
apenas um sentimento, enquanto que saber amar é uma
criação, visão estética do amor. Tanto é flor na hora certa, como
presente fora de hora. Saber amar implica conhecer sabedorias
que o amor não sabe, como esperar, deixar fluir, não invadir as
dúvidas do outro, não abafar nem impedir que a outra parte
supere a fossa, a angústia ou a dor que a oprime.
Quem ama desama junto. Quem sabe amar, por conhecer a
medida exata dos orgulhos que valorizam o amor, suporta tal
sentimento, desde que seja passageiro, é claro. Quem ama,
quando cansa, pode voltar a amar. Quem sabe amar quando
desliga é para sempre. É mais fácil afrontar a quem ama do que
a quem sabe amar. Este, conhece tanto a importância do seu
sentimento, que quando o retira, machucado, incompreendido
ou ferido de morte, é para sempre.
Cuidado com quem ama! Mas cuidado maior com quem sabe
amar! Quem perde um amor perde menos do que quem perde
alguém que sabe amar.
Saber amar não é depender. Não é ser servil. Não é viver
agradando. não é fazer o que o outro quer. Saber amar é ter as
reações certas, de compreensão e crítica; é ocupar todo o seu
lugar no espaço e no tempo do sentimento e da emoção do
outro. Saber amar é até saber desistir.
Saber amar é aquela parte que, partindo do amor, procura (até
encontrar) a parte do outro que um dia saberá amar. E a
encontrando tem paciência, afeto e tolerância. A menos que
descubra que ela não merece. Porque saber amar é também ter
a coragem das renúncias, bravura raramente presente em
quem, apenas, ama.