30.10.03
Mto Bom...
Simplesmente Martha
(Bella Martha / Mostly Martha, Itália, Alemanha, Áustria, Suíça, 2001)
sobre o filme
por Rubens Ewald Filho
Anunciaram esta semana que devem fazer uma refilmagem americana deste ''Simplesmente Martha'', uma fita alemã que fez boa carreira no circuito de arte americano e ganhou alguns prêmios em Festivais (melhor filme em Créteil, melhor ator Europeu para Castelitto, Martina Gedek melhor atriz alemã). Mas periga de passar desapercebida, ainda mais numa época onde todos estão interessados mais no Oscar e em fitas maiores.
Uma pena, porque tem o potencial de ser um sucesso na linha de ''O Filho da Noiva''. Eu vi o filme em Nova York, quando ainda não tinha ouvido falar dele. Mas tinha a atração de ser uma fita sobre comida, que sempre dão certo. É sobre Martha, uma cozinheira chef alemã de Colônia, totalmente obcecada pelo trabalho. Quando a irmã morre num acidente ela tem que cuidar da sobrinha pequena que atrapalha sua vida, enquanto que no serviço entra um outro chef italiano que a princípio ela rejeita, mas acaba sendo conquistada. É só isso, os problemas com a garota que caem no banal e perto do melodramático (ela foge porque tem um pai também italiano que nunca conheceu), mas a parte do romance com o outro chef é simpática e divertida. Ainda que no ritmo e no clima do cinema europeu, mais lento, mais discreto e menos óbvio que o similar americano. Quem gosta de diversão sofisticada, mas acessível, é uma boa pedida.
29.10.03
Assim fica difícil !!!
Financial Times
Montar um negócio sai mais caro em país pobre do que em rico
Martin Wolf
Sob a pressão de ideólogos neoliberais, os governos de países em desenvolvimento optaram por regimes reguladores simpáticos ao mercado. É isso o que parece dizer o senso comum. Mas trata-se de uma tolice. Regulamentações irrelevantes dos negócios continuam sendo bem mais onerosas nos países pobres do que nos ricos.
Se você abrir um negócio na Austrália, Dinamarca, Canadá, Nova Zelândia, Cingapura, Suécia, Reino Unido ou Estados Unidos, ele vai lhe custar 1% do salário médio anual do país, ou menos. Na Austrália, o seu negócio poderá estar montado e funcionando em apenas dois dias. No Brasil, serão necessários 152 dias, na Indonésia, 168, e no paupérrimo Haiti, 203. Na Etiópia e no Níger, o preço da abertura de um negócio é mais de quatro vezes superior à renda per capita. E esse custo está totalmente desvinculado do investimento que terá que ser feito no negócio em si.
Será que você quer gerenciar os seus empregados? Nesse caso, não vá para a empobrecida Serra Leoa, que concede aos trabalhadores as férias anuais mais generosas, com 39 dias. A República do Congo (Brazzaville), 35 dias; a Etiópia, 33, o Chade, a Costa do Marfim e o Níger, 32. E a regulamentação do emprego - a flexibilidade para contratar e demitir e a liberdade para negociar as condições empregatícias - é menos severa na Áustria, Dinamarca, Hong Kong, Malásia, Nova Zelândia, Cingapura, Reino Unido e Estados Unidos. Ela é mais severa no Brasil, México, Panamá, Paraguai, Peru, Venezuela, Angola, Belarus, Moçambique e Portugal.
E você deseja contar com garantias de que vai ser pago por um cliente recalcitrante? Na Guatemala serão necessários 19 procedimentos, que vão levar 1.460 dias. Garantir o cumprimento do mesmo contrato levará apenas sete dias na Tunísia, 39 na Holanda e 50 na Nova Zelândia e em Cingapura. Na Áustria, Holanda, Reino Unido, Estados Unidos, Taiwan, Brasil e Jordânia os custos para isso serão insignificantes. Na República Democrática do Congo, Costa do Marfim, Índia e Filipinas, os custos para garantir o pagamento ficarão próximos à renda per capita anual. Na Indonésia, esse valor superará o dobro da renda per capita anual.
Precisa de crédito? Na maioria dos países em desenvolvimento, você vai experimentar frustração e, provavelmente, rejeição, a menos que tenha amigos influentes. Por que é tão difícil obter crédito nesses países? Uma explicação é a falta de informação sobre crédito compartilhado. Um obstáculo mais importante é a ausência de proteção legal para os credores. Imagine, por exemplo, que você deseja receber um empréstimo não pago na forma de equipamentos. Na Alemanha, Irlanda, Tunísia e Estados Unidos, o processo leva uma semana. No Brasil e no Chile pode chegar a quatro anos.
Até lá, o empresário vai a falência. No Canadá, Irlanda, Japão, Noruega e Cingapura, o processo leva no máximo um ano. No Brasil, Chade e Índia, pode ser necessária uma década.
Todos esses exemplos fascinantes foram retirados do primeiro de uma série de estudos conduzidos pelo Banco Mundial*. Ao invés de utilizar as típicas equipes de especialistas ou as pesquisas junto às empresas, o estudo se baseou na avaliação detalhada das regulamentações e leis de 133 países, lançando mão de exemplos hipotéticos. Para citar apenas um deles, os pesquisadores perguntaram aos especialistas locais o que seria necessário para garantir o pagamento atrasado no valor da metade da renda per capita do país em questão. Eles especificaram ainda a localização e as características dos litigantes, a solução buscada e os méritos do processo. Dessa forma, o estudo gerou uma avaliação internacionalmente comparável dos regimes reguladores.
No geral, a análise chegou a três conclusões. Primeiro, que a regulamentação dos negócios varia bastante de país para país. Segundo, que os países ricos implementam regulamentações de forma mais consistente e apropriada do que as nações pobres. Terceiro, que regulamentações mal elaboradas implicam em resultados muito ruins.
A variação do grau de intrusão e do preço dos regimes reguladores não é determinada apenas pela riqueza do país, por mais importante que seja este fator. A origem do sistema legal também é fundamental. Os sistemas nórdicos e inglês impõem um peso regulador menor, enquanto que o socialista e o francês um maior, sendo que a Alemanha se encontra em posição intermediária. É de se esperar que o pior regime regulador do mundo seja encontrado em um país francófono pobre.
Os custos decorrentes das regulamentações desnecessárias são muitos: uma grande proporção de negócios operando às margens do sistema legal; a base fiscal é menor; a corrupção é mais alta; o desemprego é maior; e a produtividade mais baixa. Na Bolívia, por exemplo, uma das economias mais regulamentadas do mundo, cerca de 82% das atividades empresariais ocorrem no setor informal. Em vários países em desenvolvimento é praticamente impossível para uma empresa operar legalmente com sucesso.
Alguns economistas argumentam que os países em desenvolvimento deveriam impor mais regulamentação, porque os seus mercados são mais imperfeitos do que os dos países ricos. Isso é bobagem. Primeiro, grande parte da regulamentação é mal direcionada. Isso faz com que o preço fique proibitivo para a abertura de um negócio, para o ajustamento do tamanho da força de trabalho, para o julgamento dos devedores e para a abertura de um processo de falência. Além do mais, as instituições do governo são normalmente ainda mais imperfeitas do que os mercados que deveriam supervisionar.
Os países em desenvolvimento precisam concentrar os seus recursos limitados sobre as questões fundamentais. O mais importante é definir e proteger os direitos de propriedade e salvaguardar os cidadãos contra danos causados por outros cidadãos e pelo próprio Estado. Além do mais, há sólida evidência de que, quanto mais intensas forem as intervenções reguladoras, mais frágeis serão essas proteções essenciais. Conforme ressalta o estudo do Banco Mundial: "Ao invés de despender recursos com regulamentações caras (e muitas vezes ineficientes), os bons governos canalizam as suas energias para a tarefa de aumentar a prosperidade".
De forma geral, as regulamentações deveriam ser reduzidas àquilo que é essencial, eficaz e facilmente implementável. Os próprios mercados promoveriam grande parte das regulamentações, contanto que fossem competitivos. Os governos precisam também utilizar tecnologia moderna para garantir a eficiência daquilo que fazem.
Os analistas e elaboradores de políticas públicas têm prestado muito pouca atenção no cerne daquilo que faz os negócios funcionarem: a capacidade de iniciar e fechar um empreendimento, garantir créditos, exigir pagamentos e gerenciar a força de trabalho. Sob todos esses aspectos, o ambiente em vários países em desenvolvimento é calamitoso. Os países menos capazes de suportar o peso de regulamentações irritantes e mal direcionadas são os que mais sofrem com elas. Isso é um escândalo e uma tragédia.
* "Doing Business in 2004: Understanding Regulation (World Bank and Oxford University Press, 2004).
Tradução: Danilo Fonseca
Quase...
(Luis Fernando Verissimo)
Ainda pior que a convicção do não, a incerteza do talvez é a desilusão de um "quase". É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.
Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.
Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.
A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.
Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são.
Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.
Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência, porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.
Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.
Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você.
Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.
25.10.03
Vai um amor a distancia ai ??
Amor Interestadual
O amor anda muito fácil. Não que eu tenha comprovado isso, mas é a única explicação que me vem na cabeça. Eu não cheguei aos vinte, mas ainda sou do tempo em que as preocupações eram em relação à aceitação, ciúmes, traição, insegurança, convívio, sexo... Mas pensando bem, a humanidade deve ter evoluído e se adaptado ao meio mais uma vez. Agora que tudo transcorre tranqüilamente(??!!), precisamos de algo para ocupar nossa mente, nosso coração. Algo intenso, forte, que realmente perturbe nossas noites de sono (Noites? Quem sofre com isso, não dorme necessariamente à noite) e nos leve à terapia. Que nos tire a fome e o dinheiro... A necessidade de renovação foi tanta que chegamos ao cúmulo de nos apaixonarmos por pessoas distantes. A distância... essa é a mais nova mania do amor.
Qual a graça de cair de joelhos pelo seu vizinho? A minha alma gêmea não precisa ser o menino que também usa All Stars e ouve Rancid na Osvaldo, ela pode ser o cabeludo canadense que me conta sobre suas caminhadas nas montanhas nos horários de folga. E por que não? O Canadá fica somente no outro hemisfério, não é tão longe assim... Isso é sério, pode, realmente, ser ele... mas não é necessário.
Amor a distância virou uma febre. Uma febre egoísta ainda por cima. Nas minha férias de inverno eu programava idas pra Gramado, com uma cambada de amigos. Agora tenho amigos em cada parte do Brasil, com seus respectivos namorados, namoradas... também tenho amigos de algumas partes do Brasil encontrando seus namorados e namoradas aqui em POA, mas...
Ah, é essa droga de internet. Agora todos somos brasilienses, todos nós viramos pessoas modernas. Nossos pais também. Já podemos viajar de avião e ônibus sem a autorização por escrito deles. Aliás, será que eles sabem o que é que estamos indo fazer? Será que eles sabem que nossas instalações serão meros quartos de espeluncas no interior de estados subdesenvolvidos, com um banheiro coletivo no final do corredor? Ou será que eles gostariam de saber que ficaremos a mercê de estranhos: os pais do nosso correspondente. Aliás, uma pergunta importante: a pessoa que chega a despencar de um estado ao outro para encontrar alguém já vai certa de que terá o retorno afetivo esperado?
Eu sei de histórias e histórias... sei de ratinhos indefesos, perdidos nos meandros das ruas de Porto Alegre.. sozinhos, decepcionados, rejeitados... Sei de passeios felizes, alegres e saltitantes pelas galerias de São Paulo... E do que não sei, imagino: tardes lambuzadas de rapadura e pão de queijo em Minas - pateticamente felizes.
Mas o que eu sei, acima de tudo, é da viagem de volta pra casa... o final do happy happy weekend. O retorno às mensagens, os longos e-mails, as conversas encharcadas com o melhor amigo. As dúvidas, a fidelidade a um ser distante, punição e celibato aparentemente infundados - ou absurdamente justificados. A vontade de dizer "bem feito, eu avisei".
Na verdade, eu não sei na pele, de nada disso, não desse jeito. Mas não acredito que troque minhas dificuldades amorosas, aquelas corriqueiras, clichês, comuns, habituais, enfim, freqüentes e inevitáveis, por uma dose cavalar de saudade e alegria no reencontro. Não troco meus problemas e recalques "terrenos" por um motivo a mais para teclar ou abrir o ICQ de madrugada. Meus problemas relacionados ao amor estão longe da simplicidade - ou pelo menos, longe da solução - para que eu deseje ou permita que as coisas se compliquem ainda mais. Enfim, não troco de jeito nenhum a emoção de chegar na Osvaldo e ver que quem eu quero está lá, pronto para me dar um abraço gostoso e um beijo mesmo que inocente , pelo prazer noturno de um amor interestadual.
Gabriela Mühlbach
21.10.03
Humanos...
Human Behavior by Bjork
If you ever get close to a human
And human behaviour
Be ready to get confused
There's definitely no logic
To human behaviour
But yet so irristible
There's no map
To human behaviour
They're terribly moody
Then all of a sudden turn happy
But, oh, to get involved in the exchange
Of human emotions is ever so satisfying
There's no map
And a compass
Wouldn't help at all
Human behaviour
16.10.03
Anjos
O DISCRETO BATER DE ASAS DE ANJOS... - Rubem Alves
O Discreto Bater de Asas de Anjos...
O Victor é um adolescente. Arranjou um emprego no McDonalds. No McDonalds trabalham adolescentes. Antes de iniciar o seu trabalho eles são treinados. São treinados, primeiro, a cuidar do espaço em que trabalham: a ordem, a limpeza, os materiais - guardanapos, canudinhos, temperos, bandejas. É preciso não desperdiçar. Depois, são treinados a lidar com os clientes. Delicadeza. Atenção. Simpatia. Sorrisos. Boa vontade. Clientes não devem ser contrariados. Têm de se sentir em casa. Têm de sair satisfeitos. Se saírem contrariados, não voltarão. O Victor aprendeu bem as lições: começou o seu trabalho. Mas logo descobriu uma coisa que não estava de acordo com o aprendido: os adolescentes, fregueses, não cuidavam das coisas como eles, empregados, cuidavam. Tiravam punhados de canudinhos para brincar. Usavam mais guardanapos do que o necessário. Punham as bandejas dentro do lixo. Aí o Victor não conseguiu se comportar de acordo com as regras. Se ele e os seus colegas de trabalho obedeciam as regras, por que os clientes não deveriam obedecê-las? Por que sorrir e ser delicado com fregueses que não respeitavam as regras de educação e civilidade? E ficou claro para todo mundo, colegas e clientes, que o Victor não estava seguindo as lições... O chefe chamou o Victor. Lembrou-lhe o que lhe havia sido ensinado. O Victor não cedeu. Argumentou. Disse de forma clara o que estava sentindo. O que ele desejava era coerência. Aquela condescendência sorridente era uma má política educativa. Era injustiça. Os seus colegas de trabalho sentiam e pensavam o mesmo que ele. Mas eram mais flexíveis... Não reclamavam. Engoliam o comportamento não educado dos clientes-adolescentes com o sorriso prescrito. E o chefe, sorrindo, acabou por dar razão ao Victor. Qual a diferença que havia entre o Victor e os seus colegas? O Victor tem Síndrome de Down. O Edmar é um adolescente. Calado. Quase não fala. Arranjou um emprego como lavador de automóveis num lava-rápido. Emprego bom para ele porque não é necessário falar enquanto se lava um carro. Mas de repente, sem nenhuma explicação, o Edmar passou a se recusar a trabalhar. Ficava quieto num canto sem dar explicações. O Edmar, como o Victor, tem Síndrome de Down. A “Fundação Síndrome de Down“, que havia arranjado o emprego para o Edmar, foi informada do que estava acontecendo. Que tristeza! Um bom emprego - e parece que o Edmar ia jogar tudo fora. O caminho mais fácil seria simplesmente dizer: "Pena. Fracassamos. Não deu certo. Pessoas com Síndrome de Down são assim..." Mas a equipe encarregada da inclusão não aceitou essa solução. Tinha de haver uma razão para o estranho comportamento do Edmar. E como ele é calado e não explica as razões do que faz, uma das pessoas da equipe se empregou como lavadora de carros, no lava-rápido onde o Edmar trabalhava. E foi lá, ao lado do Edmar, que ela descobriu o nó da questão: o Edmar odiava o "pretinho" - aquele líquido que é usado nos pneus. Odiava porque o tal líquido grudava na mão, não havia jeito de lavar, e a mão ficava preta e feia. O Edmar não gostava que sua mão ficasse preta e feia. Todos os outros lavadores - sem Síndrome de Down - sentiam o mesmo que o Edmar sentia - também eles não gostavam de ver suas mãos pretas e sujas. Não gostavam mas não reclamavam. A solução? Despedir o Edmar? De jeito nenhum! A “lavadora“ pôs-se a campo, numa pesquisa: haverá um outro líquido que produza o mesmo resultado nos pneus e que não seja preto? Descobriu. Havia. E assim o Edmar voltou a realizar alegremente o seu trabalho com as mãos brancas. E, graças a ele, e ao trabalho da "lavadora", todos os outros puderam ter mãos limpas ao fim do dia de trabalho. Essa é uma surpreendente característica daqueles que têm Síndrome de Down: não aceitam aquilo que contraria o seu desejo e suas convicções. O Victor desejava coerência. Não iria engolir o comportamento não civilizado de ninguém. O Edmar queria ter suas mãos limpas. Não iria fazer uma coisa que sujasse suas mãos. Quem tem Síndrome de Down não consegue ser desonesto. Não consegue mentir. E é por isso que os adultos se sentem embaraçados pelo seu comportamento. Porque os adultos sabem fazer o jogo da mentira e do fingimento. Um adulto recebe um presente de aniversário que julga feio. Aí, com o presente feio nas mãos, ele olha para o presenteador e diz sorridente: "Mas que lindo!" Quem me contou foi o Elba Mantovaneli: ele deu um presente para a Andréa. Mas aquele presente não era o que ela queria! Ela não fingiu e nem se atrapalhou. Só disse, com um sorriso: "Vou dar o seu presente para o Fulano. Ele vai gostar..." As crianças normais, na escola, aprendem que elas têm de engolir jilós, mandioca crua e pedaços de nabo: coisas que não fazem sentido. Aprendem o que é “dígrafo“, “próclise“, “ênclise“, “mesóclise“, os “usos da partícula se“... Você ainda se lembra? Esqueceu? Mas teve de estudar e responder certo na prova. Esqueceu, por quê? Porque não fazia sentido. Fazer sentido: o que é isso? É simples. O corpo - sábio - carrega duas caixas na inteligência: a caixa de ferramentas e a caixa de brinquedos. Na caixa de ferramentas estão coisas que podem ser usadas. Não todas, evidentemente. Caso contrário a caixa teria o tamanho de um estádio de futebol. Seria pesada demais para ser carregada. Se vou cozinhar, na minha caixa de ferramentas deverão estar coisas necessárias para cozinhar. Mas não precisarei de machados e guindastes. Na outra caixa, de brinquedos, estão todas as coisas que dão prazer: pipas, flautas, estórias, piadas, jogos, brincadeiras, beijos, caquis... Se a coisa ensinada nem é ferramenta e nem é brinquedo, o corpo diz que não serve para nada. Não aprende. Esquece. As crianças "normais", havendo compreendido que os professores e diretores são mais fortes que elas, por ter o poder de reprovar, submetem-se. Engolem os jilós, as mandiocas cruas e os pedaços de nabo, porque terão de devolvê-los nas provas. Mas logo os vomitam pelo esquecimento. Não foi assim que aconteceu conosco? As crianças e adolescentes com Síndrome de Down simplesmente se recusam a aprender. Elas só aprendem aquilo que é expressão do seu desejo. Entrei numa sala, na "Fundação Síndrome de Down". Todos estavam concentradíssimos equacionando os elementos necessários para a produção de um cachorro quente. Certamente estavam planejando alguma festa... Numa folha estavam listados: salsicha, pão, vinagrete, mostarda... Entrei no jogo. "Esse cachorro quente de vocês não é de nada. Está faltando a coisa mais importante!" Eles me olharam espantados. Teriam se esquecido de algo? Seu cachorro quente estaria incompleto? Acrescentei: "Falta a pimenta!" Aí seus rostos se abriram num sorriso triunfante. Viraram a folha e me mostraram o que estava escrito na segunda folha: "pimenta". Aí, vocês adultos, vão dizer: "Que coisa mais boba estudar um cachorro quente!" Respondo que bobo mesmo é estudar dígrafo, usos da partícula se, os afluentes da margem esquerda do Amazonas e assistir o "Show do Milhão". Um cachorro quente, um prato de comida, uma sopa: que maravilhosos objetos de estudo. Já pensaram que num cachorro quente se encontra todo um mundo? Querem que eu explique? Não explicarei. Vocês, que se dizem normais e inteligentes, que tratem de pensar e concluir. A sabedoria das crianças e adolescentes com Síndrome de Down diz: "Dignas de serem sabidas são aquelas coisas que fazem sentido, que têm a ver com a minha vida e os meus desejos!" Mas isso é sabedoria para todo mundo, sabedoria fundamental que se encontra nas crianças e que vai sendo progressivamente perdida à medida que crescemos. E há o caso delicioso do Nilson que foi eleito "funcionário do mês" no McDonald‘s. E não o foi por condescendência, colher-de-chá... Foi por mérito. O Nilson é um elemento conciliador, amigo, que espalha amizade por onde quer que ande... Todos gostam dele e o querem como companheiro. É preciso devolver as pessoas com Síndrome de Down à vida comum de todos nós. Nós todos habitamos um mesmo mundo. Somos companheiros. É estúpido e injusto segregá-los em espaços e situações fechadas. Claro que vocês já leram a estória da Cinderela - também conhecida como "Gata Borralheira". Sua madrasta a havia segregado no "borralho" Não podia frequentar a sala. Todas as estórias são respostas a situações reais. Pois eu acho que, na vida real, a "Gata Borralheira" era uma adolescente com Síndrome de Down de quem mãe e irmãs se envergonhavam. Mas a estória dá uma reviravolta e mostra que ela tinha uma beleza que a madrasta e irmãs não possuíam. E eu sugiro que sua beleza está nessa inteligência infantil, absolutamente honesta, absolutamente comprometida com o desejo que nós, adultos, perdemos ao nos submeter ao jogo das hipocrisias sociais. Quem quiser saber mais poderá visitar a "Fundação Síndrome de Down", em Barão Geraldo. É uma instituição maravilhosa! E digo que me comovi ao observar o carinho, inteligência e persistência daqueles que lá trabalham. E andando pelos seus corredores e salas de repente senti que havia lágrimas nos meus olhos: lembrei-me do Guido Ivan de Carvalho que foi um dos seus idealizadores e construtores, juntamente com a Lenir, sua esposa. O Guido não está mais lá. Ficou encantado... Sugeri à Lenir que plantasse, para o Guido, uma árvore, no jardim da Fundação. Se vocês não sabem, na estória original da Cinderela não havia Fada Madrinha. Quem protegia a Cinderela era a sua mãe morta, que continuava a viver sob a forma de uma árvore... Pensando naquelas crianças e adolescentes lembrei-me de uma afirmação do apóstolo Paulo: "Deus escolheu as coisas tolas desse mundo para confundir os sábios " porque a loucura de Deus é mais sábia que a sabedoria dos homens...“ Quem sabe será possível ouvir, naqueles rostos sorridentes, um discreto bater de asas de anjos... Quando estive em Portugal, no ano passado, descobri, na Vila das Aves, a Escola da Ponte. Contei sobre ela no livro A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir, publicado pela Papirus. Pois uma das coisas que me surpreenderam naquela escola foi ver crianças com Síndrome de Down integradas com as outras crianças: eram suas companheiras, iguais a elas, sem que ninguém as tratasse como casos especiais. Retornei à Escola da Ponte, faz uns meses, com um grupo de educadores brasileiros. E eu andava distraído pelo jardim da escola quando ouvi um grito: "Rubem". Era o André, um deles... Maior e mais forte do que eu, correu para mim e me deu um abraço que me levantou do chão... O André se especializou em computadores e criou uma homepage através da qual se comunica com o mundo!
14.10.03
Foi mau... :)
Tradução de "Sorry to myself"
Artista: Alanis Morissette.
DESCULPAS A MIM MESMA
(sorry to myself)
Por atender a todas as minhas dúvidas tão seletivamente e
Por continuar adormecendo meu amor interminavelmente.
Por ajudar você e... a mim? - nem mesmo considerar.
Por espancar a mim mesma e me sobrecarregar.
A quem eu devo a maior desculpa?
Ninguém tem sido mais cruel do que eu mesma tenho sido pra mim.
Por deixar você decidir se de fato eu fui desagradável.
Pelo meu amor próprio ser tão vergonhosamente condicional
E por negar a mim mesma alguma maneira nos fazer compatíveis
E por tentar adaptar um retângulo dentro de uma bola.
E
A quem eu devo a maior desculpa?
Ninguém tem sido mais cruel do que eu mesma tenho sido pra mim.
Peço desculpas a mim mesma.
Minhas desculpas começam aqui antes de todo mundo.
Peço desculpas a mim mesma.
Por me tratar pior do que eu trataria qualquer um.
Por me culpar pela sua infelicidade
E por minha impaciência quando eu era perfeita onde estava.
Por ignorar todos os sinais aos quais eu não estava preparada
E me esperar estar no lugar que você quisesse que eu estivesse.
A quem eu devo a primeira desculpa?
Ninguém tem sido mais cruel do que eu mesma tenho sido pra mim.
E
Peço desculpas a mim mesma.
Minhas desculpas começam aqui antes de todo mundo.
Peço desculpas a mim mesma.
Por me tratar pior do que eu trataria qualquer um.
Bem, me pergunto qual crime é o maior?
Esquecer você ou esquecer a mim mesma...?
Eu tenho prestado atenção na sabedoria do último?
Eu teria naturalmente amado o primeiro...
Por ignorar vocês, minhas vozes mais altas.
Por sorrir enquanto minha luta era totalmente óbvia.
Por ser tão disassociada do meu corpo
E por não me deixar pôr pra fora quando alguma coisa não era a mais agradável.
A quem eu devo a primeira desculpa?
Ninguém tem sido mais cruel do que eu mesma tenho sido pra mim.
E
Peço desculpas a mim mesma.
Minhas desculpas começam aqui antes de todo mundo.
Peço desculpas a mim mesma.
Por me tratar pior do que eu trataria qualquer um.
Peço desculpas a mim mesma.
Minhas desculpas começam aqui antes de todo mundo.
Peço desculpas a mim mesma.
Por me tratar pior do que eu trataria qualquer um.
(Alanis Morissette)
(composta por: Alanis Morissette)
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SORRY TO MYSELF
For hearing all my doubts so selectively and
For continuing my numbing love endlessly
For helping you and... myself? - not even considering.
For beating myself up and overfunctioning.
To whom do I owe the biggest apology?
No one’s been crueler than I’ve been to me.
For letting you decide if I indeed was desirable.
For myself love being so embarassingly conditional.
And for denying myself to somehow make us compatible.
And for trying to fit a rectangle into a ball.
And
To whom do I owe the biggest apology?
No one’s been crueler than I’ve been to me.
I'm sorry to myself.
My apologies begin here before everybody else.
I'm sorry to myself.
For treating me worse than I would anybody else.
For blaming myself for your unhappiness
And for my impatience when I was perfect where I was.
Ignoring all the signs that I was not ready
And expecting myself to be where you wanted me to be.
To whom do I owe the first apology?
No one’s been crueler than I’ve been to me.
And
I’m sorry to myself.
My apologies begin here before everybody else.
I’m sorry to myself.
For treating me worse than I would anybody else.
Well, I wonder which crime is the biggest?
Forgetting you or forgetting myself...?
Had I heeded the wisdom of the latter?
I would’ve naturally loved the former...
For ignoring you, my highest voices.
For smiling when my strife was all too obvious.
For being so disassociated from my body
And for not letting go when it would’ve been the kindest thing.
To whom do I owe the biggest apology?
No one’s been crueler than I’ve been to me.
And
I’m sorry to myself.
My apologies begin here before everybody else.
I’m sorry to myself.
For treating me worse than I would anybody else.
I’m sorry to myself.
My apologies begin here before everybody else.
I’m sorry to myself.
For treating me worse than I would anybody else.
(Alanis Morissette)
(composta por: Alanis Morissette)
12.10.03
Alguem ai pode ajudar ??
China
O lado sombrio da China
No país que mais cresce, as mulheres são até vendidas como escravas sexuais
A China impressiona pela rapidez de seu crescimento econômico, o mais acelerado do mundo. Nos últimos 25 anos, 400 milhões de chineses passaram para o lado bom da linha de pobreza e se tornaram consumidores de produtos modernos. O desenvolvimento, contudo, é desigual. Dois terços do 1,3 bilhão de chineses vivem em áreas rurais muito pobres. Existe brutal diferença entre o modo como vive a população nas cidades e no campo – e isso é mais agudo no que se refere às mulheres, pelas quais a cultura chinesa tradicional não tem muita consideração. "A apenas duas horas de carro de uma grande cidade como Xangai, a vida chinesa segue como há 500 anos", disse a VEJA Xinran Hue, a escritora chinesa de maior sucesso no Ocidente e que hoje vive em Londres. "Em 1996 fui a uma aldeia numa das áreas mais pobres da China. Lá conheci uma família em que oito irmãs dividiam uma única roupa. Por causa da pobreza, elas faziam rodízio para usar uma calça e sair de casa." As mulheres daquela região não têm o direito de se alimentar como os homens. Só eles podem comer o pão típico do lugar, chamado mo, preparado com os melhores grãos. As mulheres e as crianças sobrevivem à base de um mingau ralo de trigo.
O que Xinran viu com os próprios olhos não é um fato isolado. Em um relatório recente sobre a China, o Banco Mundial surpreende-se por ter encontrado "evidências de que as garotas em áreas pobres obtêm menos assistência médica e alimentação menos nutritiva do que os garotos". Em algumas áreas rurais, a maior honra na vida de uma chinesa é reservada para quando ela dá à luz um filho. Nesse dia, ela recebe uma tigela de ovo com açúcar misturados em água quente. O mesmo privilégio não é dado no caso do nascimento de uma menina. A China é um dos raros países em que há menos mulheres do que homens, numa proporção de 118 para 100. A desproporção inusitada entre os sexos é a decorrência lógica de 4.000 anos de preferência por filhos. Desde os tempos de Confúcio, só os filhos podem oferecer sacrifícios aos espíritos domésticos, herdar o nome e a propriedade da família. Também é costume a entrega de um dote a cada uma das filhas por ocasião do casamento. Elas, que tradicionalmente deixam a casa dos pais quando se casam e vão viver com os sogros, foram por séculos consideradas um investimento sem retorno financeiro.
A política do filho único, instituída pelo governo comunista em 1979, transformou o infanticídio das meninas num fenômeno de proporções monumentais. Em certas províncias, morrem antes de completar 1 ano de idade 82 de cada 1.000 bebês femininos. A mortalidade entre meninos é de apenas 34 por 1.000. Em qualquer país, esses números teriam causado alarme entre as autoridades e os médicos. Na China, ninguém dá a mínima. O governo proibiu o uso de exames de ultra-som para determinar o sexo do feto, pois são usados para que a mãe possa se livrar das meninas antes mesmo que nasçam. Na prática, nada mudou. Um fenômeno decorrente da falta de mulheres é o seqüestro delas para ser vendidas como esposas. Em certos lugares, irmãos muito pobres compram uma única esposa e a compartilham, para garantir a continuidade da família. De acordo com dados oficiais, entre 1990 e 1998 a polícia libertou 65.000 mulheres casadas à força e mantidas como verdadeiras prisioneiras da família do marido.
Xinran Hue, cujo livro As Boas Mulheres da China reúne quinze histórias reais de miséria feminina no país, relata o caso de uma menina de 12 anos vendida como esposa a um velho aleijado de 60 anos e mantida acorrentada para evitar que fugisse. A escritora conseguiu que a polícia libertasse a garota, que tinha a cintura em carne viva devido ao atrito da corrente. Em lugar de agradecimentos, o que ouviu foi advertências. "Esse tipo de coisa acontece muito. Se todo mundo reagisse como a senhora, morreríamos de tanto trabalhar", disse um policial. "E, de toda forma, é um caso perdido. Esses camponeses vão fazer de tudo para conseguir uma mulher e gerar herdeiros." Não é sem motivo que a China se tornou o único país em que o número de mortes por suicídio é maior entre as mulheres. Com um quinto da população mundial, a China responde por 55% dos casos femininos. Na maioria dos países, as mulheres escolhem métodos pouco radicais – pílulas em lugar de armas –, e a maioria sobrevive. Já as chinesas ingerem pesticida, fácil de encontrar no campo, e quase sempre letal. Uma das causas para o suicídio feminino é a violência doméstica. Estima-se que atinja uma em cada três chinesas casadas – e isso ocorre tanto no campo quanto nas cidades modernas. Em casas tradicionais, não apenas o marido tem o direito de espancar a esposa. Ela também pode ser o saco de pancada da sogra e dos cunhados. No ano passado, o governo concedeu às chinesas o direito de pedir o divórcio sob alegação de sofrer maus-tratos em casa. Mesmo assim, a maioria não deixa o marido, pois o divórcio é um estigma nas famílias chinesas.
6.10.03
O que vc quer ser ???
Acabei de assistir Clube da Luta novamente...
A parte que mais me tocou no filme foi onde Tyler(Brad Pitt) põe a arma na cabeça de um carinha que trabalha numa loja de conveniencia e pergunta para ele o que ele quer ser...
La vai o roteiro desta parte...
Tomara que tenhamos todos excelentes cafés da manhã... :)
Tyler and Jack cross the parking lot, towards the convenience store. Jack wears a BACKPACK.
TYLER
Stop for a second.
JACK
Hey, what are we doing?
TYLER
Turn around.
JACK
What are we doing?
Tyler takes the BACKPACK, unzips it, searching contents.
TYLER
Homework assignment.
JACK
What kind of homework assignment?
Tyler takes out a HANDGUN, hands the backpack back.
TYLER
Human sacrifice.
JACK
Hey, is that a gun? Please, please tell me that's not a gun!
TYLER
It's a gun.
JACK
What are you doing?
TYLER
Meet me in the back.
JACK
No, no, don't fuck around.
TYLER
Meet me in the back.
Tyler goes inside the store and Jack runs back.
JACK
Fuck.
JACK (V.O.)
On a long enough time line, the survival rate for everyone drops to zero.
EXT. BEHIND THE CONVENIENCE STORE - MOMENTS LATER
THE BACK DOOR opens and Tyler brings the store's CLERK out at gunpoint, forces him to his knees. Jack is already there, freaked. Tyler points the gun at the Clerk's head.
JACK
What are you doing? Come on...
TYLER
(to the clerk)
Hands behind the back.
JACK
God!
TYLER
(to the clerk)
Give me your wallet.
The Clerk fumbles his wallet out of his pocket and Tyler snatches it. Tyler pulls out the DRIVER'S LICENSE.
TYLER
Raymond K. Hessel. 1320 SE Benning, apartment A. Small, cramped basement apartment, Raymond?
RAYMOND
How'd you know?
TYLER
Because they give shitty basement apartments letters instead of numbers. Raymond, you are going to die.
RAYMOND
No,...
Tyler rummages through the wallet.
TYLER
Is that your mom and dad? Mom and dad will have to call kindly dr. so-and-so to dig up your dental records, do you wanna know why? Because there won't be nothing left of your face.
RAYMOND
Oh...
JACK
Aw, come on!
Raymond begins to weep, shoulders heaving.
TYLER
An expired community student ID! What did you study, Raymond?
RAYMOND
S-s-s-stuff...
TYLER
Stuff? Where the mid-terms hard?
Tyler rams the gun barrel against Raymond's temple.
TYLER
I asked you what you studied.
RAYMOND
Biology, mostly.
TYLER
Why?
RAYMOND
I don't know...
TYLER
What did you wanted to be, Raymond K. Hessel?
Raymond weeps and says nothing. Tyler COCKS the gun. Raymond GASPS.
TYLER
The question, Raymond, is what did you want to be?
JACK
Answer, Raymond! Jesus!
RAYMOND
Veterinarian! Veterinarian!
TYLER
Animals.
RAYMOND
Yeah, animals and s-s-s....
TYLER
--Stuff, yeah I got that. That means you haave to get more schooling.
RAYMOND
Too much school.
TYLER
Would you rather be dead? Would you rather die? Here? On your knees? In the back of a convenient shop?
RAYMOND
Nooo!
Tyler UNLOCKS the gun, lowers it.
TYLER
I'm keeping your license. I'm going to check on you. I know where you live. If you aren't back in school and on your way to being a veterinarian in six weeks, you will be dead. Now run on home.
Tyler throws him his wallet. Raymond takes it, staggers to his feet and heads down an alleyway, running.
TYLER
Run, Forrest, run!
JACK
I feel ill.
TYLER
Imagine how he feels.
JACK
Come on, this isn't funny! That wasn't funny! What the fuck was the point of that?
TYLER
Tomorrow will be the most beautiful day in Raymond K. Hessel's life. His breakfast will taste better than any meal you and I have ever tasted.
Tyler throws the gun back to Jack and walks away.
2.10.03
Cinderela dos tempos modernos...
Cinderela para tempos modernos
Rubem Alves
Era uma vez um casal que era feliz sem ser rico. O pai era professor, gostava de brincar com as crianças e achava que ler era a coisa mais divertida do mundo. A mãe era artista e tocava flauta doce. Moravam numa casa modesta com um jardim na frente e um pomar nos fundos. Tinham uma filha chamada Bruna. Bruna desde pequena dormia ouvindo sua mãe tocar flauta e o seu pai contar estórias. Cresceu, assim, amando música e leitura, coisas que trazem alegria e tornam bonita a alma.
Ao lado de sua casa vivia um casal que era rico e infeliz. A mãe se chamava Monique. Era muito bonita e adorava aparecer nas colunas sociais. A beleza requer cuidados constantes. Monique, assim, gastava o seu tempo e o seu dinheiro com cabelereiros, manicures, clínicas de estética, spas, regimes, operações plásticas, lojas, perfumes e jóias. Suas duas filhas se chamavam Michelle e Brigitte, nomes franceses que, para ela, eram o máximo de elegância. Monique foi uma educadora bem sucedida, tanto assim que suas filhas em tudo se pareciam com ela. Gostavam de tudo que sua mãe gostava e gastavam tanto quanto sua mãe gastava. Com vidas assim socialmente intensas não lhes sobrava tempo para coisas de somenos importância que nada acrescentavam à sua beleza, tais como poesia e música. O pai era um homem solitário deixado num canto pois não conseguia conversar nem com sua mulher e nem com suas filhas. Refugiou-se numa edícula que fez construir no fundo do quintal. Ali se trancava e se dedicava à leitura e à música. O livro de que mais gostava era A Morte de Quincas Berro D’água, de Jorge Amado, porque julgava que ele e Quincas Berro D’água estavam ligados por um destino comum.
Aconteceu, entretanto, que a mãe de Bruna morreu. Não houve sepultamento porque ela pediu para ser cremada e suas cinzas foram soltas ao vento sobre o mar.
Na mesma ocasião o marido de Monique resolveu seguir o exemplo de Quincas Berro D’água. No dia da sua aposentadoria, que ele mantivera em segredo, voltou para casa do trabalho, foi para o seu quarto, pegou uma mala e nela colocou suas roupas. Encaminhou-se então sorrateiramente para porta da saída, no que foi visto por sua mulher e filhas. Elas começaram a esbravejar todas ao mesmo tempo pedindo explicações para aquele ato insólito: “Como se atreve a sair assim, sem permissão, carregando uma mala?” Ele as olhou em silêncio, lembrou-se de Quincas Berro D’água, ficou vermelho e soltou um urro que foi ouvido em todo o quarteirão: “Jararacas!” Com essa palavra serpentina saiu de casa e nunca mais foi visto.
Monique não sentiu a menor falta do marido. Sentiu mesmo um certo alívio. Mas mulher sem marido fica sempre numa situação embaraçosa em festas e jantares. Sem o marido era como se ela estivesse sem um sapato. Não ia socialmente bem. Por isso ela ficou logo de tocaia, à espera do momento oportuno para lançar o seu charme sobre o pai de Bruna, vizinho viúvo disponível. Ele seria o sapato que lhe faltava. E o impossível aconteceu. Roído pela tristeza, enfraquecido nos miolos, ele se apaixonou pela megera. Isso não é de se estranhar porque da mesma forma como os homens mais saudáveis podem, repentinamente, ficar gravemente doentes, os homens mais sábios podem, repentinamente, ter um surto de loucura. Contrariando os conselhos de Bruna que percebia o que estava acontecendo, seu pai se casou com Monique, em cuja casa foram morar, porque era muito maior.
Mas a felicidade durou pouco. Porque a felicidade depende da capacidade das pessoas de conversar longamente, mansamente, numa boa. Conversa é como frescobol, bola pra lá, bola pra cá. Bruna e o seu pai jogavam com livros, poesia, música, pintura, jardinagem. Mas Monique, Michelle e Brigitte só sabiam jogar com festas, vestidos e colunas sociais.
Bruna, então, era deixada nos cantos, sozinha. Passou a ser motivo de zombaria. Até que se cansou e tomou a decisão de se refugiar na edícula do fundo do quintal onde se dedicava a ler e a tocar flauta doce, de um jeito parecido ao da Gata Borralheira, que se refugiara na cozinha, longe da madrasta e suas filhas malvadas.
Vivia naquela cidade um empresário muito rico. Era viúvo e tinha um só filho que nascera cego. Seu pai, entristecido, deu-lhe um nome lindo, tirado de um antiqüíssimo mito grego. Era o nome de um sábio que era cego: Tirésias. Tirésias era um lindo jovem, corpo harmonioso, inteligente, culto e destinado a herdar a fortuna do pai. Seu pai se angustiava pensando que, com a sua morte, seu filho ficaria sozinho. Cego, ele precisava arranjar uma esposa que cuidasse dele. Com o que Tirésias concordava: “É certo, meu pai. Mas eu só me casarei com uma mulher com quem terei prazer em conversar até o fim dos meus dias, uma mulher que seja sensível e culta...”
Onde descobrir tal esposa para o seu filho? Ele teve, então, uma idéia: um baile! Tirésias dançava maravilhosamente! Flutuava no escuro! Dançando, tendo uma moça nos seus braços, eles conversariam... E, quem sabe, assim, ele descobriria a mulher com quem teria prazer em conversar pelo resto de sua vida!
Dito e feito. Anunciou-se o baile. Todas as jovens e suas mães se agitaram. As mães sonham sempre com um genro rico... Michelle e Brigitte fizeram vestidos novos, foram ao cabeleireiro, à manicure, escolheram jóias e perfumes. Quando viram Bruna, caíram na risada. Bruna usava um velho vestido que sua mãe lhe fizera. E ela mesma penteara o seu cabelo. “Você não tem vergonha? Está parecendo uma mendiga. Todos vão rir de você!” Bruna não disse nada. Não tinha nada para dizer.
O salão de bailes estava cheio de moças lindas e chiques. A orquestra começou a tocar. As mães, esperançosas, traziam suas filhas até Tirésias. Ele as tomava delicadamente, começava a dançar e lhes fazia uma única pergunta: “Fale-me sobre as coisas de que você mais gosta!”
As jovens, que só conheciam o mundo da visão, falavam de vestidos, viagens, festas, televisão... Tirésias pensava: “Não, não terei prazer em conversar com essa moça até o fim de minha vida...” Pedia licença, parava de dançar e começava a dançar com outra jovem. E a mesma coisa se repetia. Tirésias já havia perdido as esperanças quando chegou a vez de Bruna. “Fale-me sobre as coisas de que você mais gosta”, ele lhe disse. E ela começou a falar sobre livros, sobre poesia, sobre música... Tirésias ficou encantado. Não queria parar de dançar. Bruna ficou em silêncio. Tirésias então lhe disse: “Quando te vi amei-te já muito antes...” Esse é um verso de Fernando Pessoa, a mais linda declaração de amor jamais escrita! Bruna não deixou que ele terminasse. Completou o segundo verso: “Tornei a encontrar-te quando te achei...” O rosto de Tirésias se encheu de felicidade. Abriu-se num sorriso. Ah! Aquela moça conhecia o seu mundo! Com ela, ele poderia conversar pelo resto de sua vida!
Michelle e Brigitte, que observavam de longe, perceberam o que estava acontecendo e decidiram interferir. O relógio da igreja batia as doze badaladas: meia noite! As duas correram para Bruna e lhe contaram uma mentira: “Seu pai telefonou. Acabou de chegar de viagem. Está com dores no peito. Pode ser um enfarto. Pediu que você vá para levá-lo ao hospital...” Bruna não hesitou. Saiu correndo deixando Tirésias com os braços vazios...
O rosto de Tirésias se cobriu de tristeza. Havia deixado escapar o amor que sempre procurara. E nem mesmo o seu nome sabia. Como encontrá-la? Parou de dançar e saiu do salão. E com isso a festa acabou.
Na cama, sem dormir, ele pensava: “O que fazer para encontrá-la?” Até que uma maravilhosa idéia lhe ocorreu. Convidou todas as moças a que viessem conhecer o seu jardim. Foi um alvoroço geral! Quem sabe uma delas seria escolhida!
Tirésias as recebia, uma a uma, assentado num banco do jardim. Os jasmins estavam floridos. O perfume era delicioso! Quando elas se assentavam ele dizia uma única frase. E ficava em silêncio. As moças se sentiam perdidas, sem saber o que dizer. Começavam a tagarelar, dizendo tolices. Ele, então, delicadamente as despedia e pedia que uma outra entrasse. E a mesma coisa acontecia.
Até que chegou a vez de Bruna. Tirésias não a reconheceu. Não podia ver o seu rosto. Disse, então, a mesma frase que dissera para todas:
“Quando te vi, amei-te já muito antes...”
E Bruna completou: “Tornei a encontrar-te quando te achei...”
Não precisaram dizer palavra alguma. Abraçaram-se, rindo de felicidade. A busca chegara ao fim.
O casamento foi marcado e todas as moças, suas mães e pais foram convidados.
A festa foi maravilhosa, com música, danças, fontes luminosas, sinos, fogos de artifício, e coisas deliciosas de se beber e comer.
E todas as jovens receberam, como recordação, um presente de Tirésias: um livro, embrulhado e amarrado com uma fita amarela: Obra Poética de Fernando Pessoa, com uma dedicatória que dizia assim: “Esperamos, Bruna e eu, que você aprenda a gostar de poesia. Pois é da poesia que nasce o amor.”
Quanto a Tirésias e Bruna, viveram felizes muitos anos, até a velhice, conversando sempre alegremente sobre as coisas que tornam bela a vida... E mesmo depois de esgotados os fogos efêmeros do amor jovem, eles continuaram a se amar aquecidos pela chama suave da ternura, até o fim.