19.2.04
Cause I'm bigger than my body gives me credit for....
Someday someday....
John Mayer
Bigger than my body
This is a call to the color-blind
This is an IOU
I'm stranded behind a horizon line
Tried to be something true
Yes, I'm grounded
Got my wings clipped
I'm surrounded (by)
All this pavement
Guess I'll circle
While I'm waiting
For my fears to dry
Someday I'll fly
Someday I'll soar
Someday I'll be something much more
Cause I'm bigger than my body gives me credit for
Why is it not the time?
What is there more to learn?
I've shed this skin that I've been chipping at
And I've never quite returned
Yes, I'm grounded
Got my wings clipped
I'm surrounded (by)
All this pavement
Guess I'll circle
While I'm waiting
For my fears to dry
Someday I'll fly
Someday I'll soar
Someday I'll be something much more
Cause I'm bigger than my body gives me credit for
Cause I'm bigger than my body now
Maybe I'll tangle in the power lines
And it might be over in a second's time
But I'll glady go down in a flame
If the flame's what it takes to remember my name
Yes, I'm grounded
Got my wings clipped
I'm surrounded (by)
All this pavement
Guess I'll circle
While I'm waiting
For my fears to dry
Wait for my fears to dry
Someday I'll fly
Someday I'll soar
Someday I'll be something much more
Cause I'm bigger than my body
I'm bigger than my body
I'm bigger than my body now
14.2.04
Em Campinas nasceu a fotografia !!!
Bicentenário de Hercules Florence- o brasileiro que inventou a fotografia
O francês radicado no Brasil, Hercules Florence, inventou a fotografia 3 anos antes do que de Louis Daguerre e Joseph Nicéphore Niépce
Rafael Tonon
"Queira Deus que se possa imprimir com a luz”
Hercules Florence - 03 de julho de 1833
Em 1804, nascia em Nice, na França, exatamente no dia 29 de fevereiro daquele ano bissexto, Antoine Hercules Romuald Florence - ou Hercules Florence, que foi como o francês radicado no Brasil gravou seu nome na História por ter sido um dos pioneiros na invenção de uma descoberta que mudaria a vida da sociedade moderna: a fotografia.
Um inventor isolado
Foi na França que a fotografia desenvolveu-se e propagou-se como uma das principais descobertas da modernidade, através das pesquisas de Louis Daguerre e Joseph Nicéphore Niépce que, juntos, conseguiram criar o processo de revelação fotoquímica. Mas, enquanto na França a fotografia ganhava espaço e notoriedade através de Daguerre e Niépce, no Brasil, um francês de nascimento, mas brasileiro de mulher (duas), filhos (20), netos, bisnetos e tataranetos já havia intuído a possibilidade de fixar imagens em câmara-escura.
Hercules Florence, três anos antes de seus compatriotas, já era um inventor isolado – e ainda desconhecido - do processo fotográfico. Hoje, graças ao trabalho incansável e obstinado do jornalista e professor Boris Kossoy, Florence é considerado referência quando se fala na invenção da fotografia. Kossoy investiu, de 1972 a 1976, numa das mais ardorosas pesquisas e reconstituições de métodos, técnicas e processos já realizadas no Brasil para levar uma pessoa do anonimato ao pódio da história.
Florence descobriu isoladamente um processo de gravação através da luz, que batizou de Photografie, em 1832 - três anos antes de Daguerre. A ironia histórica, ocultada por 140 anos, é que o processo era mais eficiente do que o de Daguerre – como comprova a publicação detalhada do sistema da photografie na revista "A Phenix" de 26 de outubro de 1939 e reproduzido no Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, dois meses depois.
Hercules Florence ficou internacionalmente conhecido a partir da publicação do livro de Kossoy, "1833: a Descoberta Isolada da Fotografia no Brasil" (Editora Duas Cidades, 1980). O livro e o trabalho de Kossoy, incluindo a reprodução dos métodos registrados por Florence nos laboratórios do Rochester Institute of Technology, levaram ao reconhecimento internacional do pesquisador franco-brasileiro na descoberta da fotografia.
Mais que fotografia
A contribuição de Hercules Florence à ciência, às artes e à história não ficou apenas restrita às descobertas que precederam a fotografia tal qual conhecemos hoje. Desenhista, pintor, fotógrafo, tipógrafo, inventor, Florence integrou na Expedição Langsdorff como segundo desenhista, a pedido do Barão Heinrich von Langsdorff, por sua habilidade com os traços. Durante a Expedição, tornou-se também geógrafo da empreitada que seguiu do Rio de Janeiro à Amazônia a fim de desvendar o território brasileiro e, durante a viagem, encantou-se pelo canto dos pássaros. Na ocasião, concebeu um método para a transcrição do canto dos pássaros que ele batizou de Zoophonia.
Hercules Florence é também o responsável por diversas outras invenções, dentre elas a Polygraphia, um sistema de impressão simultânea de todas as cores primárias, em que a impressão é efetuada sem a utilização da prensa. Na área das artes visuais, Florence não se destacou apenas na fotografia, apesar de ter sido por ela que tenha ganhado notoriedade; era um exímio desenhista – o que o creditou a integrar a Expedição Langsdorff – e um pintor de talento. Através de desenhos e telas, Florence revelou-se pela qualidade e firmeza de seu traço e dons de observação e provou ser um documentarista dotado de grande talento e sensibilidade. Ele executou diversos desenhos para documentar os lugares por onde passou a expedição e os tipos humanos que encontrou, principalmente depois da morte de outro desenhista a ela ligado, Adrien Taunay.
Em 1825, em São Paulo, lutando com a escassez de meios e a falta de ferramentas apropriadas, executou trabalhos notáveis, entre os quais um retrato do futuro sogro, o médico Álvaro Machado, e outros retratos do então barão de Congonhas do Campo, do Dr. Nicolau Pereira de Campos.
A família Florence conserva ciosamente coleções de documentos originais do patriarca, incluindo obras inacabadas e inéditas. Entre elas, as aquarelas e os textos do que Florence intitula "Atlas pittoresque des ciels" ou "Traité des ciels, à la usage des jeunes paysagistes".
Florence morreu em deixando a seu país de adoção e a humanidade, um legado de realizações científicas, históricas, geográficas, artísticas, culturais, tecnológicas, agrícolas, comerciais e educacionais.
Cidadão brasileiro – e campineiro
Hercules Florence chegou ao Brasil em 1824, e durante quase 50 anos viveu na Vila de São Carlos, como era então conhecida a cidade de Campinas. Para o município mudou-se em 1830, após ter se casado com Maria Angélica de Vasconcellos.
Florence passou a dedicar-se ao comércio, abrindo uma loja de tecidos e tratando de negócios em Campinas. Foi na cidade que idealizou a poligrafia e fez, entre os anos de 1832 e 1836, experiências com fotografia. Em 1836, adquiriu, graças a Álvares Machado, uma tipografia completa, que foi a primeira que se tem registro a se instaurar em Campinas.
A partir dessa tipofrafia, Hercules Florence deu origem ao "O Paulista", primeiro jornal do interior da província de São Paulo. Mas foi só dois anos depois, no dia 10 de dezembro, que Florence teve licença da Câmara de São Carlos para montar uma tipografia na cidade, que foi intalada no largo da Matriz do Carmo. Em 1858, é impresso em sua litografia o Aurora Campineira, primeiro jornal de Campinas-SP. Nascia, então, a imprensa da cidade. Seu talento múltiplo atrai ainda a atenção do imperador Dom Pedro II, que esteve em Campinas em 1876 para visitá-lo.
Quatro anos após a morte de sua primeira esposa, Maria Angélica, Hercules Florence casou-se, em Campinas, com Carolina Krug, de religião protestante. Com Carolina, teve sete filhos. Vinte e cinco anos depois, no dia 27 de março, após ter dedicado a vida à sua descoberta da fotografia e ter vivido na tentativa de provar seu pioneirismo isolado nos processos fotoquímicos, Florence morreu em Campinas, cidade onde residiu por quarenta e nove anos e que escolheu para viver e constituir sua família. Foi sepultado no cemitério da Saudade (sepultura número 247), sem que conseguisse de fato comprovar suas descobertas.
As comemorações
Duzentos anos depois de seu nascimento, o nome de Hercules Florence continua a ser celebrado não só por seu pioneirismo nas descobertas fotoquímicas, mas também pelas suas diversas atividades que se descobriram através de documentos e manuscritos deixados por ele que dizem respeito à sua participação na Expedição Langsdorff - uma das maiores e mais profícuas expedições científicas realizadas no território brasileiro - e na criação e fundação da imprensa paulista - notadamente no interior do estado - entre outras realizações.
E é pela celebração da importância de Hercules Florence que sua família promove, a partir de fevereiro, a celebração do bicentenário de seu nascimento com eventos que se prolongarão por todo o ano de 2004, a fim de resgatar a memória de um dos principais nomes da arte e do desenvolvimento brasileiro. No dia 29, data exata da comemoração de seu nascimento, a família Florence vai reunir-se em um almoço a fim de descobrir parentes por todo o Brasil e reuni-los numa grande confraternização. Apesar da importância histórica de Hércules Florence, o evento será um encontro estritamente familiar, não havendo qualquer caráter político, mercadológico ou promocional envolvido.
De acordo com Antônio Francisco Florence, tataraneto de Hércules Florence e organizador do evento em tributo a ele, a idéia do evento é prestar uma homenagem singela ao fundador da família no Brasil e promover o encontro e o convívio entre seus descendentes. “Como seu descendente, entendo ser meu dever manter viva a memória desse artista e homem de ciência, típico representante do salto tecnológico havido no século XIX, e que antes de tudo era um homem apaixonado e deslumbrado pelo mundo em que vivia”, afirma.
A programação do almoço, que será realizado no Royal Palm Plaza Hotel, em Campinas (cidade onde Hércules viveu grande parte dos seus anos), contará com palestras, exposições, conferências e até uma apresentação musical – todas elas realizadas por descendentes de Hércules Florence. A única exceção é a conferência que será ministrada pelo professor Bóris Kossoy sobre a comprovação científica da descoberta da fotografia no Brasil por Hércules. “Kossoy, apesar de não ser da família, foi o principal entusiasta que deu publicidade aos feitos de Hércules Florence, impondo o reconhecimento de seu trabalho”, enfatiza Antônio Francisco.
Mais informações sobre a programação do evento promovido pela família podem ser encontradas no site www.hercules200.hpg.ig.com.br.
12.2.04
Tapa na cara...
Without Condition
Ginny Owens
You find this situation just a bit uncomfortable;
You'd rather stay far away from reality.
For you to understand would be clearly impossible;
So you shut your eyes and swear you can see.
Claiming there is a God, but does that mean anything?
So condescending to those that you don't understand;
Just too easy to make them your enemies.
Like an ostrich, you bury your head in the sand,
And then shout about all the things you believe.
But if there is a God, don't you think He can see
What you really mean? What you're doing?
Chorus:
You can't find the answers
Till you learn to question;
You won't appear stupid
Just ask for direction.
You're insecure and it clouds your perception
So stop and listen
And learn a lesson in love without condition.
So place all the souls that you know
in their own little box;
Quite convenient to handle them that way;
You're the only one you know who carries a cross
You don't care what they care about anyway.
And You talk to your God,
Prayin' for those who sin,
For their eyes to be opened.
Chorus:
You can't find the answers
Till you learn to question;
You won't appear stupid
Just ask for direction.
You're insecure and it clouds your perception
So stop and listen
And learn a lesson in love without condition.
9.2.04
e vc ??
Paulinho Moska
Um e Outro
Um fala,o outro escuta Um cala, o outro muta
Um grita, o outro olha Um habita, o outro desfolha
Um aperta, o outro solta Um liberta, o outro volta
Um salta, o outro pousa Um falta, o outro ousa
Entrar na fenda que nos separa da ponte que nos aproxima
Quem retirou a última pedra do muro que estávamos em cima?
Um atura, o outro devora Um mistura, o outro demora
Um corre, o outro estanca Um morre, o outro arranca
Um concorda, o outro sabe Um transborda, o outro cabe
Um chamusca, o outro congela Um busca, o outro revela
Entrar na fenda que nos separa da ponte que nos aproxima
Quem retirou a última pedra do muro que estávamos em cima?
Um existe, o outro permanece Um insiste, o outro acontece
Um estranha, o outro acostuma Um acompanha, o outro desarruma
Um agarra, o outro conquista Um esbarra, o outro despista
Um batalha, o outro entrega Um encalha o outro navega
Entrar na fenda que nos separa da ponte que nos aproxima
Quem retirou a última pedra do muro que estávamos em cima?
8.2.04
Conspiração ?? No Mínimo estranho...
E eu que achava que o Bush era um só um cristão equivocado, bem equivocado...
08/02/2004 - 13h55
Bush diz ser "presidente da guerra" e defende invasão do Iraque
da France Presse
"Tanto Bush como Kerry são formados pela Universidade de Yale e membros da sociedade secreta "Crânios e Ossos". "É algo tão secreto que não podemos falar sobre isso", disse. "
Olha o que eu achei na CBS....
(CBS) There are secrets that George W. Bush guards at least as carefully as any entrusted to a president.
He's forbidden to share these secrets even with the vice president -- secrets he has held ever since his days as an undergraduate at Yale.
In his senior year, Mr. Bush - like his father and his grandfather - belonged to Skull and Bones, an elite secret society that includes some of the most powerful men of the 20th century.
All Bonesmen, as they're called, are forbidden to reveal what goes on in their inner sanctum, the windowless building on the Yale campus that is called "The Tomb."
There are conspiracy theorists who see Skull and Bones behind everything that goes wrong, and occasionally even right in the world.
Apart from presidents, Bones has included cabinet officers, spies, Supreme Court justices, statesmen and captains of industry - and often their sons, and lately their daughters, too.
It’s a social and political network like no other. And they've responded to outsiders with utter silence – until an enterprising Yale graduate, Alexandra Robbins, managed to penetrate the wall of silence in her book, “Secrets of the Tomb.” Correspondent Morley Safer reports.
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”I spoke with about 100 members of Skull and Bones and they were members who were tired of the secrecy, and that's why they were willing to talk to me,” says Robbins. “But probably twice that number hung up on me, harassed me, or threatened me.”
Secret or not, Skull and Bones is as essential to Yale as the Whiffenpoofs, the tables down at a pub called Mory's, and the Yale mascot - that ever-slobbering bulldog.
Skull and Bones, with all its ritual and macabre relics, was founded in 1832 as a new world version of secret student societies that were common in Germany at the time. Since then, it has chosen or "tapped" only 15 senior students a year who become patriarchs when they graduate -- lifetime members of the ultimate old boys' club.
“Skull and Bones is so tiny. That's what makes this staggering,” says Robbins. “There are only 15 people a year, which means there are about 800 living members at any one time.”
But a lot of Bonesmen have gone on to positions of great power, which Robbins says is the main purpose of this secret society: to get as many members as possible into positions of power.
“They do have many individuals in influential positions,” says Robbins. “And that's why this is something that we need to know about.”
President Bush has tapped five fellow Bonesmen to join his administration. Most recently, he selected William Donaldson, Skull and Bones 1953, the head of the Securities and Exchange Commission. Like the President, he's taken the Bones oath of silence.
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Ron Rosenbaum, author and columnist for the New York Observer, has become obsessed with cracking that code of secrecy.
“I think there is a deep and legitimate distrust in America for power and privilege that are cloaked in secrecy. It's not supposed to be the way we do things,” says Rosenbaum. “We're supposed to do things out in the open in America. And so that any society or institution that hints that there is something hidden is, I think, a legitimate subject for investigation.”
His investigation is a 30-year obsession dating back to his days as a Yale classmate of George W. Bush. Rosenbaum, a self-described undergraduate nerd, was certainly not a contender for Bones. But he was fascinated by its weirdness.
“It's this sepulchral, tomblike, windowless, granite, sandstone bulk that you can't miss. And I lived next to it,” says Rosenbaum. “I had passed it all the time. And during the initiation rites, you could hear strange cries and whispers coming from the Skull and Bones tomb.”
Despite a lifetime of attempts to get inside, the best Rosenbaum could do was hide out on the ledge of a nearby building a few years ago to videotape a nocturnal initiation ceremony in the Tomb's courtyard.
“A woman holds a knife and pretends to slash the throat of another person lying down before them, and there's screaming and yelling at the neophytes,” he says.
Robbins says the cast of the initiation ritual is right out of Harry Potter meets Dracula: “There is a devil, a Don Quixote and a Pope who has one foot sheathed in a white monogrammed slipper resting on a stone skull. The initiates are led into the room one at a time. And once an initiate is inside, the Bonesmen shriek at him. Finally, the Bonesman is shoved to his knees in front of Don Quixote as the shrieking crowd falls silent. And Don Quixote lifts his sword and taps the Bonesman on his left shoulder and says, ‘By order of our order, I dub thee knight of Euloga.’"
It’s a lot of mumbo-jumbo, says Robbins, but it means a lot to the people who are in it.
“Prescott Bush, George W's grandfather, and a band of Bonesmen, robbed the grave of Geronimo, took the skull and some personal relics of the Apache Chief and brought them back to the tomb,” says Robbins. “There is still a glass case, Bonesmen tell me, within the tomb that displays a skull that they all refer to as Geronimo.”
“The preoccupation with bones, mortality, with coffins, lying in coffins, standing around coffins, all this sort of thing I think is designed to give them the sense that, and it's very true, life is short,” says Rosenbaum. “You can spend it, if you have a privileged background, enjoying yourself, contributing nothing, or you can spend it making a contribution.”
And plenty of Bonesmen have made a contribution, from William Howard Taft, the 27th President; Henry Luce, the founder of Time Magazine; and W. Averell Harriman, the diplomat and confidant of U.S. presidents.
“What's important about the undergraduate years of Skull and Bones, as opposed to fraternities, is that it imbues them with a kind of mission for moral leadership,” says Rosenbaum. “And it's something that they may ignore for 30 years of their life, as George W. Bush seemed to successfully ignore it for quite a long time. But he came back to it.”
Mr. Bush, like his father and grandfather before him, has refused to talk openly about Skull and Bones. But as a Bonesman, he was required to reveal his innermost secrets to his fellow Bones initiates.
“They're supposed to recount their entire sexual histories in sort of a dim, a dimly-lit cozy room. The other 14 members are sitting on plush couches, and the lights are dimmed,” says Robbins. “And there's a fire roaring. And the, this activity is supposed to last anywhere from between one to three hours.”
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What’s the point of this?
”I believe the point of the year in the tomb is to forge such a strong bond between these 15 new members that after they graduate, for them to betray Skull and Bones would mean they'd have to betray their fourteen closest friends,” says Robbins.
One can't help but make certain comparisons with the mafia, for example. Secret society, bonding, stakes may be a little higher in one than the other. But everybody knows everything about everybody, which is a form of protection.
“I think Skull and Bones has had slightly more success than the mafia in the sense that the leaders of the five families are all doing 100 years in jail, and the leaders of the Skull and Bones families are doing four and eight years in the White House,” says Rosenbaum.
Bones is not restricted to the Republican Party. Yet another Bonesman has his eye on the Oval Office: Senator John Kerry, Democrat, Skull & Bones 1966.
“It is fascinating isn't it? I mean, again, all the people say, ‘Oh, these societies don't matter. The Eastern Establishment is in decline.’ And you could not find two more quintessential Eastern establishment, privileged guys,” says Rosenbaum. “I remember when I was a nerdy scholarship student in the reserve book room at, at the Yale Library, and John Kerry, who at that point styled himself ‘John F. Kerry’ would walk in.”
“There was always a little buzz,” adds Rosenbaum. “Because even then he was seen to be destined for higher things. He was head of the Yale Political Union, and a tap for Skull and Bones was seen as the natural sequel to that.”
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David Brooks, a conservative commentator who has published a book on the social dynamics of the upwardly mobile, says that while Skull & Bones may be elite and secret, it's anything but exciting.
“My view of secret societies is they're like the first class cabin in airplanes. They're really impressive until you get into them, and then once you're there they're a little dull. So you hear all these conspiracy theories about Skull and Bones,” says Brooks.
“And to me, to be in one of these organizations, you have to have an incredibly high tolerance for tedium 'cause you're sittin' around talking, talking, and talking. You're not running the world, you're just gassing.”
Gassing or not, the best-connected white man's club in America has moved reluctantly into the 21st Century.
“Skull and Bones narrowly endorsed admitting women,” says Robbins. “The day before these women were supposed to be initiated, a group of Bonesmen, including William F. Buckley, obtained a court order to block the initiation claiming that letting women into the tomb would lead to date rape. Again more legal wrangling; finally it came down to another vote and women were admitted and initiated.”
But Skull & Bones now has women, and it’s become more multicultural.
“It has gays who got the SAT scores, it's got the gays who got the straight A's,” says Brooks. “It's got the blacks who are the president of the right associations. It's different criteria. More multicultural, but it's still an elite, selective institution.”
On balance, it may be bizarre, but on a certain perspective, does it provide something of value?
“You take these young strivers, you put them in this weird castle. They spill their guts with each other, fine. But they learn something beyond themselves. They learn a commitment to each other, they learn a commitment to the community,” says Brooks. “And maybe they inherit some of those old ideals of public service that are missing in a lot of other parts of the country.”
And is that relationship, in some cases, stronger that family or faith?
“Absolutely,” says Robbins. “You know, they say, they say the motto at Yale is, ‘For God, for country, and for Yale.’ At Bones, I would think it's ‘For Bones.'”
7.2.04
Pão Frances :)
Diogo Mainardi
Aldo, o magnífico
"Aldo Rebelo é tão nacionalista que luta, com
muita coragem, pela abolição do pão francês.
Ele apresentou um projeto de lei que obriga a
adição de farinha de raspa de mandioca à de trigo.
Com a modernidade de Rebelo, o futuro do governo
Lula está garantido"
Aldo Rebelo é um dos políticos mais admiráveis que o Brasil já teve. Sua nomeação para o ministério do governo Lula consagra uma carreira marcada pela defesa intransigente das cores nacionais. Ele ficou conhecido em todo o país pelo projeto de lei que proíbe o uso de estrangeirismos na língua portuguesa. Mas não é sua única iniciativa meritória em prol da pátria. Aldo Rebelo é tão visceralmente nacionalista que também luta, com muita coragem, pela abolição do pão francês. Estamos no Brasil, não na França. Então não há motivo para comer pão francês. O pão francês é o instrumento através do qual as forças espúrias do imperialismo se insinuam na consciência nacional. O pão genuinamente brasileiro não é o de trigo, mas o de mandioca. De fato, Aldo Rebelo apresentou um projeto de lei que obriga a adição de farinha de raspa de mandioca à farinha de trigo. No Brasil, as autoridades têm o costume de adicionar certa porcentagem de um produto a outro: álcool é adicionado à gasolina, coliformes fecais são adicionados à água do mar, doações de campanhas eleitorais são adicionadas aos salários dos servidores públicos. A tal propósito, a reforma ministerial criou quase 3.000 novos cargos. Uma porcentagem dos proventos dos novos contratados será desviada para abastecer o caixa do PT, sob a forma de contribuição voluntária ao partido.
O primeiro ano do governo Lula foi muito ruim. O segundo certamente será melhor. Basta aproveitar direito o talento renovador de Aldo Rebelo. Pouco tempo atrás, ele lançou a idéia de proibir a adoção, pelos órgãos públicos, de qualquer tipo de inovação tecnológica poupadora de mão-de-obra. O princípio responde aos mais rígidos critérios de gerenciamento administrativo. De acordo com o projeto de Aldo Rebelo, quanto mais funcionários forem usados para executar um trabalho, melhor. Se uma repartição inteira puder ser substituída por um simples computador, deve-se abolir o computador. Aldo Rebelo considera justamente que a administração pública é rápida demais, barata demais, eficiente demais. Precisamos inchá-la ao infinito. Foi o mesmo raciocínio que o levou a condenar a adoção de catracas eletrônicas em veículos de transporte coletivo. Por que adotar uma máquina alienígena se por meio do salário mínimo podemos empregar um legítimo cobrador nordestino?
Outros importantes projetos legislativos de Aldo Rebelo foram o exame obrigatório de DNA antes da cremação de cadáveres, a construção de um campo de futebol para cada 1 000 unidades habitacionais e a proibição de pagamento de royalties (o estrangeirismo foi usado pelo próprio Aldo Rebelo, não por mim) entre multinacional e subsidiária. A indústria farmacêutica nacional gostou tanto do último ponto que se tornou a maior financiadora das campanhas eleitorais do novo ministro. Na última legislatura, Aldo Rebelo também tentou garantir um salário-desemprego de oito meses a todos os trabalhadores desocupados com mais de 50 anos. Vamos ver se, na condição de principal articulador político do governo, ele levará adiante a proposta.
Com o cosmopolitismo e o espírito de modernidade de Aldo Rebelo, o futuro do governo Lula está garantido. Azar das catracas eletrônicas. Azar do pão francês.
5.2.04
O bom americano e a prostituta
Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
O bom americano
e a prostituta
Uma história em que os princípios
e sentimentos certos se recusam
a ficar no lugar certo
Jornalista em princípio deve limitar-se a relatar. Não deve interferir na notícia. Às vezes, no entanto, acontece. Aconteceu com o jornalista americano Nicholas D. Kristof, colunista do The New York Times, enquanto se dedicava, há dias, no Camboja, a uma reportagem sobre o tráfico de mulheres. De repente, no meio de uma entrevista com uma prostituta de 17 anos, no vilarejo de Poipet, conhecido por seus bordéis, ocorreu-lhe perguntar: "Você gostaria de ir embora?" As meninas, em Poipet, são como escravas dos agentes para os quais trabalham. Dependem deles para tudo, e só podem deixar o bordel acompanhadas de um vigilante. Kristof conseguira entrar no bordel fazendo-se de cliente. Aos poucos foi ganhando a confiança da moça. "Isto é um inferno", comentou ela. Sim, claro que gostaria de ir embora – mas isso custaria dinheiro. Cento e cinqüenta dólares. Kristof entendeu-se com quem de direito, pagou, ganhou em troca um recibo de pagamento "pela liberdade de uma garota" e ei-lo, em vez de apenas levantando a história de uma personagem, mudando o curso de sua vida.
Kristof acabou comprando a liberdade não de uma, mas de duas jovens prostitutas. Nas últimas duas semanas, contou como isso aconteceu, numa série de artigos. Essa que lhe custou 150 dólares foi a primeira, e até a semana passada seu caso ia bem. Ela voltara para a família e, com outros 100 dólares oferecidos pelo jornalista, armou uma banca de venda de comida. Mais complexa é a segunda história, a de Srey Mom, de 18 anos. Quando Kristof propôs comprar-lhe a liberdade, ela levou um susto. "É inacreditável", disse, com um sorriso "que parecia iluminar a rua". Srey Mom informou que sua liberdade custava 70 dólares. Ela valia bem menos do que a outra, primeiro porque era uma prostituta havia já quatro anos no metiê, e segundo porque tinha a pele escura. Enquanto pela primeira jovem a clientela pagava 13 dólares, com Srey Mom a sessão ficava por 2,5 dólares.
Na verdade, na hora de acertar com a dona do bordel, revelou-se que o preço da liberdade não seriam 70 dólares, mas 400. Era quanto a jovem teria feito de dívida com a casa – e observe-se de passagem que, tal qual nas fazendas que exploram o trabalho escravo no Brasil, uma maneira de manter as jovens presas é cumulá-las de dívidas. Seguiu-se uma barganha, e afinal estipulou-se em 203 dólares o preço da liberdade de Srey Mom. Fechado o negócio, a dona do bordel, a quem suas meninas chamavam de "mãe", acendeu incenso e rezou por ela no altar budista armado na entrada do estabelecimento, ao mesmo tempo que aconselhava a jovem a não recair na prostituição. Para desconcerto de quem imagina que mal é mal e bem é bem, branco é branco e preto é preto, eis a nuance de uma dona de bordel – e senhora de escravas – solícita e carinhosa com a pupila que a abandona.
Srey Mom fugira de casa, aos 14 anos, porque brigava muito com a mãe. Num ponto de ônibus encontrou uma mulher que a encaminhou para seu primeiro bordel. O dono do bordel banhou-a com suco de abacaxi, o que supostamente lhe clarearia a pele, e "vendeu sua virgindade", por bom preço, a um homem de negócios – essa primeira noite custa sempre caro. Quatro anos depois, no carro com Kristof, que a levava de volta para a casa dos pais, ela se mostrava ansiosa. A família a receberia bem? A mãe a recepcionaria com abraços ou com uma surra? Enfim, ao chegar à sua aldeia – alívio. Srey Mom foi recebida por uma tia que se jogou em seus braços. Vizinhos e outros membros da família deram-se às mesmas expansões. Apareceram enfim o pai e a mãe e a jovem atirou-se de joelhos diante deles, pedindo perdão. Eles disseram que até haviam encomendado uma cerimônia fúnebre, na suposição de que a filha tivesse morrido. Alegremente, eles a perdoaram. Kristof, como tinha feito com a outra, adiantou-lhe 100 dólares, para ela abrir um pequeno negócio – e assim foi, ou melhor, assim poderia ter sido, não fosse que... Não fosse que poucos dias depois Srey Mom brigou com a mãe e correu de volta ao bordel.
Talvez Kristof, o americano correto, que não se contentou em fazer a reportagem, mas pretendeu enriquecê-la com um desvio em direção ao bem, tenha sido trapaceado. Trapaça maior, porém, é deste mundo, que se recusa a aceitar a ordem justa, os princípios e sentimentos certos no lado certo, e os errados no lugar errado, e em vez disso oferece donas de bordel, dublês de senhoras de escravo, a quem as pupilas chamam de mãe, e mães a quem as filhas vêem como inimigas. A Srey Mom pode estar reservada, além de uma vida de opressão e escárnio, uma morte, de Aids, aos 20 e poucos anos. Isso não a impede de sentir mais conforto no bordel que na família, assim como muitas crianças brasileiras de rua, a quem a morte espreita igualmente, se sentem melhor fora do que dentro de casa, e muitos jovens dos grotões brasileiros da pobreza se sentem mais prestigiados entre quadrilhas de criminosos. Tudo muito confuso, muito fora de lugar.
4.2.04
Diretor de Invasões Barbaras....
Entrevista: Denys Arcand
O começo do fim
Para o diretor de As Invasões Bárbaras,
o mundo como o conhecemos está prestes
a acabar e dar lugar a uma nova Idade Média
Isabela Boscov
AP
"De certa forma, éramos todos marxistas ou feministas, e sinto que temos uma certa nostalgia dessas crenças – ou apenas de ter crenças"
Morte, desilusão, filosofia, muitos diálogos: não parece ser uma receita de popularidade. Mas, com esses temas, As Invasões Bárbaras acaba de ser indicado ao Oscar de produção estrangeira e virou um sucesso do circuito alternativo em todo o mundo – o maior da carreira de seu diretor, o canadense Denys Arcand, de 62 anos. No Brasil, o filme encetou um pequeno fenômeno: fez lotar salas também para o relançamento de O Declínio do Império Americano, de 1986, do qual As Invasões Bárbaras é uma espécie de continuação. No primeiro filme, um grupo de intelectuais se reunia para um fim de semana no campo e discutia de tudo, a começar (e terminar) por sexo. Em Invasões, os mesmos personagens se reencontram, mas para se despedir de um deles, Rémy, que está à morte. Enquanto Rémy se reconcilia com seu filho e os amigos relembram um ardor ideológico que não têm mais, Arcand evoca uma sensação que pode muito bem estar na raiz da receptividade a seu filme: a de que vivemos numa civilização prestes a ruir. Da província de Quebec, onde nasceu, mora e trabalha, o ex-católico e ex-marxista Arcand falou a VEJA sobre os caminhos que, a seu ver, a sociedade ocidental está trilhando.
Veja – As Invasões Bárbaras fala de morte e desilusão, mas é o maior sucesso de toda a sua carreira. A que o senhor atribui essa receptividade do público?
Arcand – Não tenho muita certeza. Nunca se sabe quando o sucesso vai acontecer, ou se ele vai acontecer. O que posso dizer ao certo é que esse é o primeiro filme que faço que está repleto de emoção. É uma experiência inteiramente nova para mim. A primeira cena a ser filmada foi aquela em que a filha do personagem de Rémy Girard diz adeus a seu pai de um barco, via satélite. Quando a atriz começou a dizer suas falas, caí no choro – o que é surpreendente, porque, tendo eu mesmo escrito o roteiro, eu sabia o que ela ia dizer. Não saberia explicar nem qual é a natureza dessa emoção. Quando voltei ao meu escritório, mostrei a cena à minha equipe, e todos choraram também. Do começo ao fim das filmagens, nos mantivemos todos nesse estado emocional, a ponto de os atores questionarem o rumo das coisas. Se o público não entrar no espírito do filme, eles diziam, vamos todos parecer ridículos. Felizmente – apesar de haver pessoas que detestam As Invasões Bárbaras –, o público parece ter entrado em sintonia conosco.
Veja – O senhor não acha que talvez o sentimento de desilusão presente no filme, e de mágoa pelo tempo que se perde e não pode ser recuperado, faz com que a platéia se relacione de forma mais íntima com As Invasões Bárbaras?
Arcand – Sim, e isso vale especialmente para as pessoas da minha geração. Trata-se de um relato muito pessoal de tudo aquilo em que acreditávamos nos anos 60 e 70. De certa forma, éramos todos marxistas ou feministas, e sinto que temos uma certa nostalgia dessas crenças – ou de ter crenças –, ainda que essa nostalgia venha temperada pela satisfação de ver que as amizades resistiram às mudanças. No fundo, esse é um filme sobre mim e os meus amigos.
Veja – Há alguma coisa em que o senhor acreditava nos anos 60 que tenha resistido ao teste do tempo e da história?
Arcand – Sim: a minha crença em fazer filmes. Ao contrário dos personagens de As Invasões Bárbaras, que são todos intelectuais e nunca fizeram nada de verdadeiramente prático, eu sempre tive o cinema. Quando o marxismo era moda, eu fazia documentários sobre operários, e creio que eles permanecem válidos. Rémy, por outro lado, nem sequer escreveu o livro que tanto planejou, o que é uma amargura que ele enfrenta no fim da vida. Imagino que, no meu leito de morte, também vou estar cheio de medo, mas pelo menos terei o conforto de saber que, na minha carreira, fiz o melhor que pude, e provavelmente terei mais paz do que ele.
Veja – Os personagens de As Invasões Bárbaras sentem que estão vivendo no crepúsculo de uma civilização, que está sob cerco cerrado. O senhor compartilha essa impressão com eles?
Arcand – Freqüentemente, quando as pessoas envelhecem ou adoecem, elas são tomadas pelo sentimento de que o que se seguirá a elas é um desastre, e que o mundo está se aproximando do fim. Feita essa ressalva, acredito que aquilo que chamamos de civilização ocidental, que se iniciou na Renascença e da qual os Estados Unidos são o produto hoje mais ilustrativo, está de fato chegando ao fim. Quando contemplo o futuro, tenho um pressentimento estranho. Sinto, por exemplo, que as pessoas não lerão mais – e por isso o personagem Sébastien, o filho de Rémy, nunca abriu um livro na vida e não sabe o que é uma ideologia. Na verdade, Sébastien não sabe nem o que é uma idéia, e não se importa com isso. O que não significa que ele não seja um ser humano decente, que cuida de seu pai e procura amenizar o seu sofrimento. Mas os dois são animais de espécies diferentes, por assim dizer.
Veja – Estaríamos então chegando ao fim do conhecimento?
Arcand – De certa forma. Para onde o teatro pode prosseguir depois de Samuel Beckett, por exemplo? Ou a pintura depois de Andy Warhol, a música erudita depois de Schoenberg, ou a filosofia depois de Heidegger e Wittgenstein? Não há nenhum filósofo sério vivo no mundo neste momento. Estamos assistindo ao fim da filosofia, da literatura, da arte, do teatro, da música. Tudo está se acabando aos poucos, e estamos rumando para algo completamente diverso. O mesmo vale para a política, claro. O último grande sonho político foi o socialismo, e ele se provou não exatamente errado, mas inviável. Quando penso no futuro, sou assaltado por um grande vazio.
Veja – O senhor crê que esta civilização deixará algum legado para o futuro?
Arcand – Um legado imenso, de tudo o que produzimos e pensamos no decorrer dos últimos séculos. Mas talvez as próximas gerações venham a ser incapazes de apreciar essa herança. Imagino que estamos nos aproximando de uma situação comparável à da Idade Média, em que durante centenas de anos os monges preservaram, em suas bibliotecas, um conhecimento que só seria trazido de volta à luz muito mais tarde.
Veja – Qual será a força dominante nessa nova Idade Média, em sua opinião?
Arcand – A questão é que não haverá uma força dominante, mas sim guerras incontáveis e infindáveis. Chegará o dia, como chegou para todos os impérios, em que o império americano vai ruir. Então, como o mundo medieval era dividido num sem-número de cidades-Estado lideradas por senhores de guerra, nós nos veremos também completamente desorganizados. E não é improvável ainda que venhamos a guerrear com os muçulmanos num novo ciclo de Cruzadas. Na verdade, essas novas Cruzadas já estão em curso.
Veja – Essa queda, a seu ver, é um fato inescapável da história, ou fomos nós, as gerações mais recentes, que falhamos?
Arcand – Creio ser um fato inevitável. Toda a civilização ocidental foi construída sobre a cristandade. E, quando começamos a questionar a existência de um ser supremo e nos afastamos, intelectualmente, de nossas crenças, passamos a solapar os alicerces de nossa sociedade. Hoje, se surge uma chance para roubar, para transgredir, por que não fazê-lo? O único risco que se corre é o de ser pego, já que, como sociedade, não acreditamos mais na punição do inferno – e veja bem que não estou dizendo que devêssemos acreditar no inferno, ou tentar voltar os ponteiros do relógio. Mas mesmo nos tempos dos velhos capitalistas que construíram a América, como os Rockefeller, os Morgan e os Vanderbilt, havia uma bússola moral. Esses foram homens que exploraram milhões de pessoas, mas eles eram cristãos que acreditavam na honestidade e em trabalhar com respeito à lei americana. Hoje essa bússola não existe mais. As corporações são profundamente corruptas, como demonstra o escândalo da Enron e os outros tantos que não param de surgir nos noticiários. Quando isso acontece, é porque o fim está próximo.
Veja – O senhor foi educado numa família intensamente religiosa, e então o senhor se tornou um marxista. Nesta altura de sua vida, que peso têm essas influências?
Arcand – Eu não diria que tenho admiração pela religião em si, porque a história da Igreja é, a meu ver, lamentável, com sua corrupção e seu currículo de apoio a ditaduras. Mas admiro o princípio da compaixão e da caridade que tantos cristãos praticam e praticaram. De um ponto de vista bem pessoal, invejo a paz em que meus pais morreram, com a convicção de que estavam a caminho de encontrar seu Salvador – uma convicção que não tenho mais. Quanto ao panorama político, confesso não ter a mínima idéia do que dizer. A meta do marxismo, de que devemos trabalhar em prol de uma sociedade mais justa, é algo em que ainda acredito. Mas como construir isso na prática, sem as ditaduras, a corrupção, os apparatchiks e a polícia política que sempre acompanharam as experiências marxistas? Não creio que seja possível.
Veja – O senhor se sente bem, vivendo no Canadá?
Arcand – Me sinto muito bem, o que não deixa de ser terrível. O Canadá é um país incrivelmente confortável, e isso é tudo que ele é. Vivemos com tanto conforto que ainda vamos acabar morrendo disso. Veja, por exemplo, o debate sobre a separação de Quebec do resto do Canadá, que durou tantos anos. No final, todos os argumentos giravam em torno do nosso conforto: vamos perder nossa aposentadoria? O preço dos selos postais vai subir? O nosso é um país rico e democrático, cujos únicos inconvenientes são o clima siberiano – neste momento, a temperatura aqui está em 20 graus negativos – e a chatice. Somos o país mais tedioso do mundo. Definitivamente, aqui no Canadá, escapamos daquela praga segundo a qual se deseja a um desafeto que ele viva em "tempos interessantes" – ou seja, tempos de guerra, revolução e tumulto.
Veja – Em As Invasões Bárbaras, o senhor faz uma apologia da eutanásia: o personagem de Rémy abrevia o sofrimento de um câncer terminal com o apoio dos amigos e da família – ao passo que, há algumas semanas, uma mulher francesa foi indiciada por ter ajudado seu filho tetraplégico, cego e mudo a morrer.
Arcand – A eutanásia é, junto com o aborto e a pena de morte, uma dessas questões sociais que demandam décadas de debates. Sou inteiramente a favor dela, mas não creio que me resta tempo suficiente de vida para testemunhar a passagem da eutanásia a uma prática legal – embora, como todos saibamos, ela seja feita todos os dias, em hospitais de todo o mundo, como um ato de misericórdia sobre o qual todos silenciam. A eutanásia é e será, por muito tempo, um tabu de ordem religiosa: nossa vida não pertence a nós, e sim a Deus e, por extensão, ao Estado. Mas acredito que esse tabu será vencido. Na Holanda, por exemplo, que é o país mais civilizado do mundo, a eutanásia já foi legalizada. A morte de Rémy, entretanto, é a minha visão de uma morte ideal. É assim que eu gostaria de ir-me: num lugar belo, cercado por minha família e meus amigos, no momento que me parecer mais adequado.
Veja – Seu filme parece sugerir que, já que tudo o mais está falhando, cultivar e preservar os relacionamentos pessoais é tudo a que se pode almejar hoje.
Arcand – De fato, como não tenho mais esperanças políticas, essa é a única sugestão que tenho a dar. Isso e que se tente concretizar alguma paixão pessoal – pode ser tanto o cinema como uma coleção de selos. Mas é preciso deixar algo.
Veja – E quanto aos filhos? Eles são um tema fundamental de seu filme.
Arcand – Vivi a maior parte de minha vida sem filhos, e aos 55 anos de idade adotei uma menina. Não concebo mais a vida sem ela, mas não acho que filhos sejam um fator essencial para a felicidade. Algumas pessoas os têm e isso não as torna menos insatisfeitas. No caso de As Invasões Bárbaras, o relacionamento entre Rémy e seu filho tem mais a ver com a minha própria experiência com meu pai. Meu pai desprezava os filmes e o cinema, e durante toda a minha vida me foi impossível obter dele algum tipo de reconhecimento ou encorajamento. Na opinião dele, eu era um fracassado. Só no leito de morte ele cedeu um pouco: O Declínio do Império Americano havia sido lançado alguns meses antes, e várias pessoas a quem ele respeitava insistiam com ele que eu havia conquistado algo. Minha mãe também não entendia muito bem minha opção. Na época em que comecei a dirigir quase não havia cineastas no Canadá, e ela certamente teria preferido que eu tivesse me ordenado padre.
Veja – A religião foi, em algum momento, um conforto para o senhor, como foi para os seus pais?
Arcand – Quando criança, eu era muito religioso. Morávamos numa cidade pequena, onde todos iam à missa, e a devoção era uma zona de segurança. Mas então nos mudamos para Montreal, para uma casa que ficava a um quarteirão da biblioteca municipal. Eu podia ler tudo que quisesse, sem pagar nada. Comecei a devorar os livros – um artigo inexistente na minha casa – e a me dar conta de que existem outros pontos de vista possíveis. Um dia, quando tinha uns 14 anos, perdi a missa de domingo. Fui andando para casa, pensando que estava em pecado mortal e que, se fosse atropelado por um ônibus, iria diretamente para o inferno. Então percebi que isso não fazia muito sentido. Se eu parasse de acreditar em Deus, eu iria odiar meus pais? Claro que não. Eu iria roubar? Também não. Percebi que nada mudaria, e daquele dia em diante nunca mais fui à missa.
Veja – No entanto, o senhor reencenou a vida de Cristo em 1989, em Jesus de Montreal, um de seus filmes de maior sucesso.
Arcand – A religião foi parte de mim por muito tempo, e depois de O Declínio do Império Americano achei que precisava fazer um balanço das minhas crenças, e perceber até que ponto elas ainda me influenciavam.
Veja – Há uma cena em Jesus de Montreal em que o ator que interpreta Cristo destrói um estúdio em que um comercial está sendo filmado. A mídia representa, para o senhor, a versão moderna dos vendilhões do templo?
Arcand – Dirigi alguns comerciais durante a minha carreira, e eles sempre me causaram um bocado de desconforto moral. Acho que pôr o talento a serviço de vender coisas de que as pessoas não necessitam é um mau uso dele. O consumismo tomou o lugar da fé. Mas minha religião é outra: fazer os melhores filmes de que sou capaz.
2.2.04
Dogville e Magnólia...
Era uma vez na América
O CONTROVERTIDO CINEASTA DINAMARQUÊS CONVERSA COM O DIRETOR DE "MAGNÓLIA" E "BOOGIE NIGHTS" SOBRE "DOGVILLE", O EGO DOS ATORES, A VIDA NOS EUA E OS SEUS FILMES FAVORITOS
Lars Von Trier/Paul Thomas Anderson
da "Black Book"
Ok, vamos direto ao assunto: Uma conversa com Lars von Trier e Paul Thomas Anderson é o sonho lascivo de qualquer cinéfilo. Como dois dos mais importantes diretores de cinema, eles criaram algumas das experiências cinematográficas mais marcantes na memória recente. Apesar de abordagens totalmente diferentes, ambos estão ligados por uma preocupação com o "outsider" na sociedade: os corações solitários de "Magnólia" e "Embriagados de Amor", de Anderson, encontram correspondentes na América provinciana de "Dançando no Escuro", de Von Trier, e no novo "Dogville".
Ambos dão a seus filmes uma disciplina precisa e enfocada, que deixa pouco ao acaso. Von Trier, particularmente, criou reputação pelo relacionamento combativo com seus atores, notadamente com Björk durante a realização de "Dançando no Escuro", mas sua abordagem severa geralmente resulta em atuações que definem carreiras. Anderson também extraiu brilhantismo de suas produções coletivas, especialmente de Philip Seymour Hoffman, que trabalhou em todos os seus filmes, e de Adam Sandler, cuja atuação complexa e atormentada em "Embriagados de Amor" foi uma das grandes surpresas do ano passado. Os dois diretores se encontraram no estúdio de filmagem de Von Trier, Zentropa, nos arredores de Copenhague, para fofocar sobre atores, trocar opiniões sobre os Estados Unidos e falar de alguns de seus filmes favoritos.
Lars von Trier - Eu gostaria de falar sobre esse negócio de atores, porque gostei muito de "Magnólia" e achei que havia uma espécie de sensação familiar nos resultados que você consegue dos atores, e você me disse que é porque os ama.
Paul Thomas Anderson - Hum-hum.
Von Trier - Isso foi um choque. Se você os ama - digamos que seja verdade-, como trabalha com eles?
Anderson - Bem, eles dizem as falas. Então...
Von Trier - ...você diz: pronto?
Anderson - Vai.
Von Trier - Vai? E então eles dizem as falas?
Anderson - Bem, o negócio é o seguinte. Quando escrevi "Magnólia", estava escrevendo para os atores, então podia ouvir na minha cabeça como eles poderiam falar, escrevia com essa vantagem. Mas os atores não me assustam. Sabe o que me assusta? Os maus atores. Um bom ator é como um grande músico, mas um mau ator me aterroriza, porque significa que eu terei de encontrar alguma coisa para dizer ou fazer. E isso é realmente frustrante, porque você quer estar concentrado em tudo, e em vez disso se vê atrapalhado ajudando alguém a decorar as falas ou a não bater nos móveis, e aí você quer estrangulá-los. Eu realmente tive sorte, porque o primeiro ator de verdade com quem trabalhei foi Philip Baker Hall. Foi como encontrar alguém que, instantaneamente, está ali para você, que quer trabalhar com você e não contra você. Por isso acho que fiquei com uma idéia corrompida de que é assim que tem de ser, então fico chocado quando Burt Reynolds aparece, ou alguém do tipo... acho que secretamente você ama os atores.
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OS ATORES SÃO A ÚNICA COISA QUE EXISTE ENTRE VOCÊ E UM BOM FILME, MAS ESTAMOS FALANDO DE CONTROLE; É COMO FILMAR ANIMAIS, SÃO INCONTROLÁVEIS
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Von Trier - [risos] Eu tento não fazer isso, mas os atores são a única coisa que existe entre você e um bom filme. Essa é a verdade. Mas estamos falando de controle. É um pouco como filmar animais -eles são incontroláveis.
Anderson - Nem todos.
Von Trier - Não, e deveriam ser incontroláveis. Se você quer tirar algo de uma pessoa, precisa lhe dar um pouco de confiança, é claro, e é por isso que faço da coisa toda mais um jogo do que direção. Mas há atores e atores. Stellan [Skarsgärd, que trabalhou em "Dogville", "Dançando no Escuro" e "Ondas do Destino"] não é um ator.
Anderson - Mas eu sinto a mesma coisa sobre Philip [Seymour Hoffman] ou John C. Reilly: eles não são atores -são minha família.
Von Trier - Sim, mas como são da família você também sabe o que eles podem ou não podem fazer. É como seu tio -você sabe no que ele é bom e no que não é. É claro que eles podem ser tão familiares que você não dá uma oportunidade ao seu tio, o que também é injusto.
Anderson - O relacionamento que você tem com seu diretor-assistente, editor, fotógrafo ou figurinista é algo parecido, em que você pode confiar mais do que pode confiar num ator?
Von Trier - Neste momento estou filmando em cinemascope, por isso estou andando por aí com essa câmera enorme e ridícula, com equipamento de som, equipamento de luz, você sabe. E depois há cem pessoas à minha volta que de certo modo apenas dizem "boa sorte" e vão embora, e ficamos sozinhos durante quatro horas, os atores e eu. Então realmente todos os meus temores estão nessa técnica, porque tenho muita claustrofobia. Se eu não fizer nada, nada acontece. Vou lhe contar, nos últimos quatro meses estou passando pela pior baixa de toda a minha vida e minha saúde psíquica está extremamente frágil neste momento.
Anderson - Por quê? É uma coisa que acontece quando você termina um filme ou depois do lançamento? Existe um padrão ou você reconhece o motivo?
Von Trier - Bem, existe um padrão, é claro. Quando você produz um filme, toda a sua força vai para ele, então você não pode usar sua força para imaginar constantemente que está morrendo. E também você tem esse tipo de sensação de Baden-Powell [fundador do escotismo] de que simplesmente precisa continuar marchando durante oito ou dez semanas, ou o tempo que for, o que é bom, é claro, a sensação masoquista de que você simplesmente tem de ir em frente e se ferir, e se você se ferir o suficiente não importa - você morre por um motivo.
Anderson - Mas você consegue evitar essa sensação quando está escrevendo? Está escrevendo agora?
Von Trier - Não, não. Acho que o motivo pelo qual estou realmente amortecido agora é essa espera por Nicole [Kidman]. Porque normalmente eu escrevo um roteiro, e faço rarará, mas, como estou esperando por ela há um ano e meio, a coisa empacou, sinto-me podre, terrível. Não em relação ao filme - se você tem medo de morrer, não se importa a mínima com um filme ou como ele é recebido ou quem trabalha nele, mas é apenas o fato de que trabalhar num filme é uma maneira de entrar num humor positivo e tirar um monte de coisas do seu sistema. Nicole e eu decidimos há muito tempo que devíamos fazer mais filmes juntos, mas acontece que isso não foi possível depois de um ano e meio de sofrimento [esperando por uma brecha na agenda de Nicole], e não posso fazer outros filmes no intervalo. É uma trilogia que escrevi com a mesma personagem principal.
Anderson - Quando você pensou nisso, quando estava escrevendo "Dogville"? Você sabia que ia ser...
Von Trier - Não, eu o terminei e gostei muito do projeto, e gostei muito de Nicole, quer dizer, gostei da personagem dela, Grace, muito mesmo, porque ela é um pouco mais agressiva, um pouco mais humana do que os outros personagens em que trabalhei.
Anderson - Espere, é porque ela é uma personagem mais humana ou uma atriz mais humana?
Von Trier - [longa pausa] É porque é uma personagem mais humana e uma atriz menos humana, mas a mistura de Nicole e Grace foi muito boa, e gostei disso, então subitamente vi que tinha a obrigação de continuar com Grace, continuar essa maneira de filmar, porque é muito fácil inventar coisas novas o tempo todo, mas não é muito maduro, eu acho.
Se eu realmente queria dizer alguma coisa com esse filme, achava que devia reforçá-lo continuando nessa linha. Porque, na minha opinião, existem dois tipos de diretor: aqueles que a cada vez definem um novo padrão, como Kubrick. Depois há os diretores que continuam fazendo sempre a mesma coisa, repetindo-se. É claro que existem misturas entre esses dois tipos, mas de alguma forma o maduro é aquele que faz sempre a mesma coisa.
Anderson - Você dirá algo diferente daqui a alguns anos.
Von Trier - Deixe-me voltar ao... eu gosto da natureza desumana de Nicole. Não sei se "desumana" é a palavra correta: sei que soa negativo, mas não é realmente o que quero dizer. Ela é desse tipo de estrela maior que a vida, que tem uma disciplina e uma técnica notáveis. Pegar esse tipo de tamanho e obrigá-lo a se quebrar um pouco foi uma coisa muito boa de fazer... mas também pegar sua capacidade, seu profissionalismo e sua disposição para trabalhar, que são coisas muito positivas, e tentar quebrá-los um pouco em benefício do produto, o que ela ficou muito contente de fazer, e também se vê. Então tive a idéia de continuar e fazer três filmes, mas três filmes que se passam nos Estados Unidos... [a atriz decidiu posteriormente que não atuará nos outros dois filmes]
Anderson - Lars, o que preciso fazer para que você venha para os Estados Unidos?
Von Trier - Precisa destruir toda a Europa. [risos]
Anderson - Está bem, vou fazer isso. Farei qualquer coisa.
Von Trier - Mas, escute, eu sou americano.
Anderson - O que você quer dizer?
Von Trier - Eu já estou lá. Estou participando da vida americana.
Anderson - [risos] Está?
Von Trier - Sei exatamente como é. É como o tédio, mais ou menos, mas você sabe, os americanos costumavam ser europeus, ou aqueles com quem eu posso me relacionar facilmente, e talvez não sejam os... não, não vou dizer isso.
Anderson - Diga! Diga! Continue.
Von Trier - Os que foram para a América não foram os mais inteligentes [ambos riem]. Não, escute, por favor apague isso. Não, mas há muitas histórias sobre pessoas que foram para a América porque estavam passando fome. E na sociedade liberal você vai para onde não se passa fome -essa é a idéia-, mas as pessoas não têm mais permissão para fazer isso, por algum motivo estranho. Não se considera mais uma boa idéia ir para onde há comida. A América também está fechando suas fronteiras, certo? O que era uma grande qualidade, eu sempre achei, da idéia americana como a vejo: deixar todo mundo entrar. Na Escandinávia a integração é uma grande coisa, a qualquer momento eles lhe dizem: "Você vai se tornar dinamarquês?". "Sim, sim, sim", eles dizem, "é claro", mas alguém está atirando neles pelas costas, certo? Integrar-se, então, é muito importante, aprender a língua, aprender os costumes, não matar seus animais de maneira dolorosa, tudo isso. Dizer que você só pode vir nos visitar se souber a língua, se fizer isso, se fizesse aquilo... Ora! Esse é um modelo escandinavo, porque eles querem integrá-los à sociedade para poderem... educá-los. Mas isso é tão arrogante! E, como nunca estive em Nova York, adoro a idéia de Chinatown e todas essas coisas, isso é fantástico. Realmente acho uma idéia maravilhosa. Tenho certeza de que a América não é assim. Mas, de alguma forma, acho que faz parte da idéia.
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NÃO TENHO A SENSAÇÃO DO ORGULHO AMERICANO; APENAS TENHO UMA SENSAÇÃO DE QUE TODO MUNDO ESTÁ ALI, BATALHANDO PELA MESMA COISA
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Anderson - Sabe, Lars, quando assisti a "Dogville" não me pareceu sobre a América. Era sobre qualquer cidade pequena, de mentalidade estreita, não era sobre a América até o fundo.
Von Trier - Não. Concordo totalmente. A única coisa que fiz sobre a América, ou que deveria se relacionar à América, é uma espécie de sentimento positivo que tento criar, algumas coisas que lembro de Steinbeck ou de Mark Twain -sentimentos ou ambientes...
Anderson - Espere, não posso acreditar nisso, porque Steinbeck foi uma obsessão minha nesse último ano. Você o leu muito?
Von Trier - Quando eu era jovem, sim.
Anderson - Existe uma coletânea de contos chamada "A América e os Americanos" que é incrível, eu queria dá-la a você. Tem uma parte dela que parece exatamente "Dogville", que significou muito para mim durante o ano passado, porque ele lutou na Segunda Guerra Mundial, ele escreveu sobre o Vietnã, escreveu sobre os interrogatórios de McCarthy e viu tudo isso. Ele foi realmente um grande romancista, mas também foi jornalista, e um dos grandes escritores americanos.
Von Trier - Eu não li tanto, mas a narrativa do filme, que eu achava muito americana, mais tarde me disseram que não era, absolutamente.
Anderson - A narrativa? É muito britânica!
Von Trier - Não é britânica. Eu falei com John Hurt sobre isso, e ele disse: "Isso não é britânico". Então é meio dinamarquesa-britânica, tentando ser americana.
Anderson - Mas, você sabe, se eu não o conhecesse não teria idéia de onde diabos veio esse filme, ou muitos de seus filmes.
Von Trier - Acho isso muito bom, porque é quase como David Bowie, você sabe, nós tínhamos certeza de que ele realmente era de Marte.
Anderson - Como você teve a idéia de terminar "Dogville" com "Young Americans"?
Von Trier - Paul Bettany [ator que interpreta o intelectual da aldeia, Tom] e eu fomos grandes fãs de David Bowie e, a certa altura, quando o moral estava muito baixo no set, o tocamos pelos alto-falantes para todo mundo dançar. Eu sempre adorei essa melodia, mas não compreendia a letra. Ainda não a compreendo. [A conversa é interrompida por um telefonema para Paul, avisando-o de que tem um vôo marcado para Nova York.]
Von Trier - Não se preocupe.
Anderson - Não estou preocupado. Pareço preocupado? Lars, estou aqui sentado com você... você é meu herói. Não posso me preocupar.
Von Trier - É como sentar-se com Bush, você não pode se preocupar?
Anderson - Se Bush o convidasse para a Casa Branca, você iria?
Von Trier - Isso não faria ser mais fácil para mim sentar num avião.
Anderson - Mas nós o dopamos, lhe damos umas pílulas, tudo se apaga, o levamos em cadeira de rodas até o carro.
Von Trier - Tenho certeza de que Bush tem o poder de me levar à Casa Branca, se realmente quiser.
Anderson - Mas, se Bush ligasse para você e dissesse: "Quero que você venha até a Casa Branca conversar comigo sobre o que está dizendo". Você iria?
Von Trier - Ah, não [risos]. E você?
Anderson - De jeito nenhum. Ouvi falar que Clinton adorou "Boogie Nights" e isso me deixou entusiasmado, me fez gostar muito dele. E depois eles realmente pediram uma cópia de "Magnólia".
Von Trier - Nós mandamos "Ondas do Destino", eu acho.
Anderson - Para a Casa Branca?
Von Trier - Para Clinton ou sua filha, não sei. Eles simplesmente não podem ir até uma locadora de vídeos, é impossível -longe demais da Casa Branca.
Anderson - Não sei. Clinton costumava gostar de sair bastante da Casa Branca. Fazia excursões noturnas ao McDonald's, coisas desse tipo. Acho que ele queria sair de casa.
Von Trier - Comparado a Bush, Clinton parecia um bom sujeito, não? Tocava saxofone...
Anderson - Tocava saxofone, corria atrás de mulheres, quer dizer, é o tipo de presidente de que a gente gosta... Eu cresci na Califórnia e amo a Califórnia, e durante muito tempo ela realmente teve um sentido próprio, até recentemente, com Arnold Schwarzenegger. E Nova York é notável nesse sentido, quando desço do avião, a primeira coisa que percebo é... sim, como todo mundo é gordo, mas também percebo que todo mundo está lá, todo mundo está lá.
Von Trier - E o que isso quer dizer?
Anderson - É uma sensação excitante e tranqüilizadora. Não tenho a sensação do orgulho americano. Apenas tenho uma sensação de que todo mundo está ali, batalhando pela mesma coisa, que no mundo inteiro todo mundo está atrás da mesma coisa: apenas um pouco de felicidade a cada dia.
Von Trier - Não podemos discordar disso, é claro, é assim que as coisas são.
Anderson - Eu estive na Croácia, onde eles têm gostam de dizer que "existe um governo diferente em cada rua aqui, existem 87 partidos políticos". Sinto a mesma coisa sobre a América. Eu me rebelo contra os poderes e principados. Sempre me rebelarei.
Von Trier - Eu estou representando todas as boas coisas que a América deveria ser. Mas dizer que eu sei que seu país poderia ser um lugar melhor, como uma pessoa que não é americana, é a coisa mais provocante que se pode dizer, e por quê? Não tem muito a ver com nacionalismo ou fronteiras; tem a ver com política e sua idéia básica do que se deve fazer com os seres humanos.
Anderson - De onde você tirou o título "Dogville"?
Von Trier - Eu conversei com [o diretor de "Festa de Família"] Thomas Winterberg, na verdade com um de seus colegas, e estávamos falando sobre campos de concentração, então tornou-se América, diretamente [eles riem]. Não, estávamos falando sobre como eles conseguiam manter a disciplina e a vida no campo de concentração, e a teoria dele, na qual acredito, é que eles transformavam as pessoas em animais. Quando são animais, são muito mais fáceis de controlar. É muito fácil transformar seres humanos em animais: deixe-os ser cruéis, deixe-os ser qualquer coisa -é uma linha tão tênue-, e isso foi parte da estratégia nos campos de concentração. Então falamos sobre cães, e eu disse que o filme tinha de se chamar "alguma coisa-ville".
Anderson - Então há algumas coisas...
Von Trier - [risos] Na verdade, muitas coisas. Mas o mais estranho é que, na minha situação - em que você não pode se colocar-, eu conheça tanto sobre a América. Oitenta por cento da minha mídia, a mídia que eu vejo, têm a ver com a América, 80% do jornal têm a ver com a América de uma maneira ou de outra, 80% da televisão. Pode imaginar isso?
Anderson - Não é assim na maior parte do mundo?
Von Trier - Sim, é, mas isso me coloca numa situação em que a América também faz parte de mim, quer eu queira, quer não, ou quer você queira, quer não: faz parte de mim. E é por isso que eu tenho todo o direito de dizer qualquer coisa que eu queira, porque já ouvi falar mais sobre a América do que sobre a Dinamarca, pelo amor de Deus!
Anderson - Lindo.
Von Trier - Na verdade eu assisti a "Magnólia" para elencar meu próprio filme - mas gostei muito. Era meio europeu, embora hoje eu também não goste de filmes europeus, porque são americanos demais. É muito uma questão de gosto, mas é muito satisfatório quando alguém ousa fazer o que acha mais interessante, e acredito que foi o que aconteceu com "Magnólia". Acho extremamente importante agradar a si mesmo.
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"ONDAS DO DESTINO" FOI FEITO COM BOAS INTENÇÕES, MAS EU NÃO O CHAMARIA DE UM FILME HONESTO
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Anderson - Posso contar em uma mão, talvez nas duas mãos, as pessoas em quem confio e acho que, se faço um filme, faço para mim mesmo, absolutamente em primeiro lugar. Mas há pessoas para as quais eu quero mostrá-lo, que eu quero que gostem dele, mas não faz mal se elas não gostarem, porque elas vão me dizer por quê, e como, e quais são os motivos. E isso é bom: não é de modo algum debilitante ou doloroso, mas, se você puder colocá-los na palma da mão...
Von Trier - Para mim foi muito importante mostrar meu primeiro filme para Andrei Tarkóvski, e ele o detestou. Ele achou uma porcaria. O filme era "Element of Crime". Ele detestou, veja só... Foi um pouco como crescer. Mas eu não o respeitaria se ele dissesse qualquer outra coisa. O problema em assistir a filmes é que você tem alguns diretores muito bons que você admira, mas todo mundo esgota seu talento, todo mundo. Ou morre. Ou ambos.
Anderson - Você lembra bem de filmes? Eu nunca lembro bem dos filmes, mas lembro daqueles de que eu gosto, que significaram alguma coisa para mim, e lembro de "Ondas do Destino". Eu estava no meio da edição de "Boogie Nights", sozinho num domingo à noite, e, quando o vi, foi realmente como se as nuvens se abrissem -de repente o sol começou a brilhar, por mais cinzento que fosse o filme. Mas não lembro de detalhes dele.
Von Trier - Isso é porque o que você gosta e o que eu gosto num filme não é do todo. Nós vemos filmes de maneira diferente da maioria das pessoas, e é por isso que não lembramos direito da coisa toda. Mas eu gosto muito de alguns filmes de que não gostei quando assisti pela primeira vez.
Anderson - Quais, por exemplo?
Von Trier - "Barry Lyndon" [de Kubrick] ainda é um dos meus filmes favoritos, sabe? É um filme muito estranho, mas ainda é monumental.
Anderson - Quando eu o vi, achei muito sério e depois vi pela segunda vez e disse: "É incrivelmente hilariante!" Na verdade me senti assim sobre "Dogville", você sabe: "Que comédia incrível, louca!" Mas foi quase aquela espécie de relação bizarra com um filme, quando você absolutamente não o entende no início.
Von Trier - Eu estava falando com Nicole [Kidman], que tinha conversado com Kubrick sobre ele, e ele não gostava nada de "Barry Lyndon". É claro. Ele lhe disse que era longo demais. Quer dizer, a última cena, em que ela escreve o nome num papel, leva quase meia hora, certo? Para escrever o nome... Então, se ele achava o filme longo demais, eu poderia indicar um ou dois quadros para serem cortados.
Anderson - Você chegou a conhecê-lo? Pergunto isso porque eu o conheci. Na verdade foi quando conheci Nicole. Ele realmente não gostou muito de mim, até que percebeu que eu tinha escrito o filme que eu dirigi. Foi então que decidiu: está bem, agora vou ser simpático com você. Assim como: se você é um diretor, vá para o inferno, mas se você é um escritor...
Von Trier - Outro filme de que gosto muito é "O Franco-Atirador" [de Michael Cimino].
Anderson - Quando você o assistiu? Quando foi lançado?
Von Trier - Assisti dez vezes.
Anderson - Mesmo? E quais são os outros?
Von Trier - Muitos filmes antigos italianos. Pasolini, Antonioni, é claro. Tudo depende de quando você toma consciência do cinema. Eu fiquei pronto mais ou menos na época desse período alemão, com Werner Herzog e Wim Wenders, mas demorei muito para me fascinar pela nouvelle vague. É muito interessante essa questão de quando você está aberto para esse... acho que não são muitos anos, cinco anos mais ou menos.
Anderson - Para mim, a primeira coisa que vem à mente é "Tubarão".
Von Trier - "Tubarão"! Nunca assisti.
Anderson - "Tubarão" foi uma coisa muito muito muito grande para mim. Meu pai trabalhava na televisão em Los Angeles -ele fazia dublagem e era amigo de muita gente da técnica e, quando foi possível ter uma máquina de vídeo em casa, ele gravou "O Mágico de Oz", "Monty Python" e o "Santo Graal". Havia também uma cópia pirata de "Tubarão". Esses foram os filmes a que eu pude assistir várias vezes. E o vídeo era grande como esta sala, parecia um tanque, e a fita era do tamanho de um caminhão - e eu chegava em casa e assistia toda noite, todo dia, a "Tubarão", "Monty Python" e "O Mágico de Oz". Mais tarde aconteceram coisas aqui e ali -como eu disse, quando assisti "Ondas do Destino". Foi interessante, porque eu me senti confiante o suficiente de que não queria copiar "Ondas do Destino". Apenas achei: "Puxa, eu posso fazer isso". Foi quase como se percebesse que podia ser tão honesto.
Von Trier - Você acha que "Ondas do Destino" era honesto?
Anderson - Não me diga isso! Não preciso saber isso. Não quero saber isso!
Von Trier - Não, ele foi feito com boas intenções, mas eu não o chamaria de honesto. Para mim a história é muito complicada, porque todos aqueles temas com que estou trabalhando na verdade são temas... proibidos em minha casa, todas as coisas que eram consideradas de mau gosto.
Anderson - O que era proibido na sua casa?
Von Trier - Toda essa coisa sobre religião e milagres e blablablá... foi um surto de liberdade ser capaz de escrever essa coisa. Mas eu achei que era um filme muito americano. Eu sempre acho.
Anderson - Foi por isso que gostei dele. Lars, você terminou de escrever esse filme?
Von Trier - Sim, foi escrito há muito tempo.
Anderson - Quanto tempo você leva para escrever?
Von Trier - Três semanas.
Anderson - Eu levo três anos.
Von Trier - Sim, mas eu simplesmente não olho para trás. Se você quiser ler o roteiro, seja bem-vindo. Se for montar o elenco, acho que deve ler. Porque você ama atores e tem um relacionamento melhor com eles, talvez.
Anderson - Acho que secretamente você ama os atores.
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A entrevista acima e as duas seguintes foram publicadas originalmente na revista "Black Book".
Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves.
1.2.04
Silaba...
Djavan...
Quem me dirá não o que desejo nem o que sei
Mas aquilo de que preciso
Sem botar nem tirar uma sílaba?
Quem saberá contar o enredo
Sem alterar o tom, o teor e o desfecho
Sem errar, nem mudar uma vírgula?
Toda amizade tem seus deslizes
Da empolgação à desilusão
É o afã que a gente tem
Sabendo onde vai dar
Num cenário idealizado
Bem que o desejo fala mais claro
Diz logo ao que vem sem enrolação
Mas se alguém insiste em ficar boiando na dor
Ora, faça-me o favor!