
Por que os EUA guerreiam ??
Por Amir Labaki*
Em novembro passado George W. Bush venceu a batalha da segunda campanha eleitoral pela Presidência dos EUA. Luta agora no front da História. Seu triunfo aqui é mais incerto. O melhor do documentário americano continua a alvejá-lo. Com crescente competência.
O filme da hora é “Why We Fight” (Por que Lutamos), de Eugene Jarecki. O título foi emprestado da célebre série de filmes oficiais de propaganda coordenada por ninguém menos que Frank Capra (Do Mundo Nada Se Leva) durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). É, claro, uma ironia. Nada menos chapa branca que o documentário de Jarecki.
Em seu filme anterior, baseado num livro do sempre provocador Christopher Hitchens, Jarecki desnudou o passado de violações dos direitos humanos do ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger. Tive o prazer de premiar “The Trials of Henry Kissinger” em novembro de 2002 no júri da Anistia Internacional do festival de Amsterdã. Disponível em DVD no mercado americano, jamais chegou por aqui.
Tomara que “Why We Fight” tenha melhor sorte – e, na esteira, traga-nos também o filme anterior. Se prêmios ajudam, Jarecki venceu em janeiro a competição de documentários americanos do Sundance – o segundo maior reconhecimento para obras não-ficcionais nos EUA, perdendo apenas para o Oscar. Parece apenas o começo de uma longa lista.
“Why We Fight” percorre território visitado há pouco por “Fahrenheit 11 de Setembro”. Eis o ataque às torres gêmeas e ao Pentágono, eis Bush, Cheney e os contratos generosos com a Halliburton, eis as mentiras sobre o Iraque, enfim, o horror, o horror. O documentário de Jarecki tem a seu favor, contudo, uma estrutura muito mais sólida, é incomparavelmente mais sóbrio e equilibrado e dispensa a carta populista dileta a Michael Moore.
Eugene Jarecki resume em noventa minutos meio século de militarismo americano. Sua tese não é nova mas jamais a vi defendida no cinema com igual seriedade. “Why We Fight” aponta o discurso de despedida de Dwight Eisenhower da Presidência dos EUA, em janeiro de 1961, como peça fundamental para a compreensão da estratégia imperialista americana a partir da vitória em 1945. Como resumiu a certeira manchete do “The New York Times” no dia seguinte à fala pela TV, “Eisenhower vê ameaça à liberdade no sistema de defesa” –sistema este representando pelo “complexo industrial-militar”.
A combinação de interesses entre as grandes corporações empresariais e os altos escalões das Forças Armadas, aliados à burocracia civil coligada, manteriam os EUA num moto contínuo rumo a conflitos bélicos pelo mundo afora. Um dos preços a pagar é o constante desafio aos princípios democráticos fundadores da República norte-americana. O outro, todos sabemos, é o atropelo do ideal da paz mundial –com a derrocada de inúmeras democracias pelo caminho.
“As palavras dele (Eisenhower) infelizmente tornaram-se verdadeiras”, depõe no filme o senador, note-se, republicano John McCain, um herói da guerra do Vietnã. Jarecki articula depoimentos de ideólogos dos dois lados do ringue, do bushiano Richard Perle ao franco-atirador Gore Vidal. As entrevistas mostram como a teia do complexo industrial-militar expandiu-se nos últimos quarenta anos, abarcando de mísseis “inteligentes” a batatas já descascadas para os soldados. Os EUA gastam atualmente mais em defesa do que em todos os outros projetos do governo federal somados.
“Why We Fight” vai além. Recupera o desenvolvimento da idéia dos EUA como a Roma do século 21, após a derrocada em 1989-1991 do império soviético, originando o coração da chamada Doutrina Bush. Resume a história do envolvimento norte-americano no Irã e no Iraque e explica como o tirano Saddam Hussein passou do “jovem apresentável” que apertava as mãos do jovem “falcão” Donald Rumsfeld à besta-fera da galáxia. Mais: com filmagens em solo iraquiano, mostra sem demagogia como os disparos de alta precisão dos EUA vitimaram muito mais civis que militares iraquianos na recente invasão. Dado: em 50 “ataques inteligentes” de mísseis americanos sobre alvos estratégicos, nenhum eliminou o objeto do ataque. Nada menos de 42 deles fizeram vítimas civis.
Eugene Jarecki alterna, sem tropeços, entre grandes questões e micro-histórias individuais. Três são as principais, narradas progressivamente em pílulas dramáticas. Um veterano do Vietnã, policial novaiorquino aposentado, conta como perdeu o filho nos ataques ao World Trade Center, torceu pela guerra de vingança e aprendeu a desprezar Bush. Um órfão sem eira nem beira explica por que crê na carreira militar como única chance de uma vida decente. Por fim, dois pilotos detalham a missão fundamental que cumpriram em 19 de março de 2003: inaugurar o ataque ao Iraque, mirando um bunker de Saddam Hussein em Dora, nas cercanias de Bagdá. Saddam saiu ileso; mulheres e crianças, como mostram as câmeras, não.
À pergunta “por que lutamos?”, dezenas e dezenas de americanos entrevistados nas ruas respondem: “Pela liberdade”. Eugene Jarecki não transige com ilusões apaziguadoras. A obsessão militarista americana marca presença em cada fotograma de “Why We Fight”. Desde “Sob a Névoa da Guerra” (2003), um documentário americano não me perturbava tanto.
*Publicado originalmente no jornal Valor Econômico (11/03/2005)