
A difícil tarefa de biografar Noam Chomsky
Júlio Ibelli
Entrar em contato com tudo o que diz respeito a Noam Chomsky aparenta ser um privilégio dos bravos indivíduos que lutam para manter a manipulação da mídia o mais longe possível de suas vidas. A próxima encarnação é o que serve de consolo ou maldição para aqueles que não se enquadram no perfil. Isso porque Chomsky é o caso típico de mente brilhante incompreendida em seu próprio tempo.
Após seis anos de troca de correspondências com Chomsky, que começaram em 1991, além de pesquisa paralela, Robert F. Barsky (professor da Universidade de Western Ontário, no Canadá) finalizou o livro Noam Chomsky – A Vida De Um Dissidente, lançado no Brasil pela Conrad Editora em 2005. A obra traça um perfil desde a infância deste que foi um dos grandes ‘bambas’ do meio acadêmico no século passado.
Na verdade, Chomsky foi mais do que isso. Seu nome é um dos dez mais citados em toda a história da literatura científica, ao lado de Marx, Lênin, Shakespeare, Aristóteles, a Bíblia, Platão, Freud, entre outros. Ele é simplesmente um guru para o movimento anti-capitalista contemporâneo. Amado e odiado, Chomsky foi um crítico ferrenho do sinuoso conchavo entre judeus (Israel) e EUA e acabou negligenciado pelos governos dos dois lados. Uma vida de devoção à causa humana que teve início com o estudo da lingüística.
Chomsky nasceu em 1928 na Rússia e é filho de um pai lingüista e de uma mãe ativista. Ele começou os seus estudos em uma instituição com um conceito alternativo, voltada para atender às aptidões pessoais do aluno. Esse tipo de educação só encontrou adeptos no Brasil recentemente, graças à uma congregação religiosa. O ponta pé inicial na vida escolar acabou por moldar a visão de Chomsky a respeito do sistema de ensino tradicional, baseado na delegação de tarefas e busca incessante por resultados. Para ele, uma fábrica onde os estudantes atuam como peças de reposição da engrenagem feita para atender à demanda dos mais ricos.
Aos 10 anos de idade Chomsky escreveu o seu primeiro artigo sobre a Guerra Civil Espanhola, o evento que marcou o início de seu envolvimento com o ideal anarquista, de repulsa contra as táticas capitalistas e o nacionalismo cego. Antes mesmo de entrar na faculdade, isso aos 16 anos de idade, ele já transitava entre os círculos de intelectuais que mais o influenciaram (a leitura de George Orwell, por exemplo, entre uma infinidade de outros autores, era obrigatória).
Foi graças a esses círculos de grandes notáveis do pensamentos que Chomsky desenvolveu todo o seu estudo lingüístico, apoiado sempre na concepção de que esta área do conhecimento estaria intrinsecamente conectada à ideologia humana, daí a associação inseparável do trabalho lingüístico de Chomsky e sua militância política. Quer dizer, anti-política.
Antes de chegar ao Massachusetts Institute of Technology, Chomsky também passou por Cambridge e Harvard. Aos 30 anos ele já tinha escrito o seu nome na história da lingüística com uma série de trabalhos revolucionários que ajudaram a re-escrever esta área essencial do conhecimento humano. Ainda assim, suas publicações eram seguidamente criticadas pelos defensores de teorias mais ortodoxas – devidamente revistas e atualizadas por Chomsky.
O MIT forneceu as condições para que Chomsky consolidasse o seu prestígio acadêmico. Mas o fato de integrar o corpo docente da universidade que fornecia a maioria da tecnologia de guerra aos Estados Unidos foi logo questionado. Chomsky não demorou a responder que mesmo um soro concebido com o intuito de tirar a verdade a força de um espião qualquer, poderia fornecer importantes dados sobre a psique humana para os pesquisadores ‘do bem’.
O que não quer dizer que ele era conivente com a política bélica americana, muito pelo contrário. Chomsky foi preso durante manifestação em frente ao Pentágono contra a Guerra de Vietnã e entrou na lista negra do ex-presidente Richard Nixon. A pressão sobre ele era tanta, que sua mulher Carol foi estudar lingüística caso o marido não pudesse mais sair da cadeia. Os filhos do casal eram constantemente poupados das conversas acerca do que ocorria devido ao posicionamento de Chomsky.
O livro ainda mostra um Noam Chomsky precursor e afinado com a causa dos conflitos entre israelenses e palestinos, isso há cinqüenta anos atrás, o que lhe rendeu diversas críticas apesar de ser judeu e ter se evolvido profundamente com movimentos sionistas renovadores nos Estados Unidos na época de seu ingresso na faculdade. Em certo momento de sua vida, Chomsky preferiu por não ser mais tão explícito com relação aos seus posicionamentos, devido ao desgaste que as críticas geravam. O maio parisiense de 1968, por exemplo, passou sem grandes manifestações de Chomsky. Também porque havia adquirido uma visão mais cética do mundo.
A leitura de A Vida de um Dissidente pode ser cansativa por causa das extensas descrições sobre influências e realizações acadêmicas de Chomsky; um prato cheio para quem é ligado à área da lingüística. Mas é extremamente inspiradora por apresentar o exemplo de toda uma vida dedicada aos estudos e luta contra o status-quo que nos tira o livre arbítrio quando estamos perante governos e mídia.
24/02/2005